Covid-19: disparidades regionais e pobreza pesaram mais do que fatores de risco no Brasil

Pesquisa publicada na Lancet conclui que idade avançada e doenças crônicas não pesaram tanto quanto escassez de recursos hospitalares

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Um estudo publicado na Lancet sobre a covid-19 no Brasil mostra que, por aqui, as vulnerabilidades socioeconômicas regionais afetaram mais o curso da pandemia do que a prevalência de fatores de risco para a doença, como idade e estado de saúde. 

Os pesquisadores desenvolveram um um índice de vulnerabilidade socioeconômica (SVI, na sigla em inglês), baseado nas características das famílias e no Índice de Desenvolvimento Humano. Comparando o SVI dos estados e municípios aos registros de casos e mortes por covid-19, observaram a correlação entre os dados.

O coronavírus foi identificado primeiro em São Paulo e no Rio, mas foi nas regiões Norte e Nordeste que as mortes estouraram logo em seguida.

A pior situação, como logo se viu, foi nos estados do Norte, onde não há predominância dos riscos tipicamente associados à covid-19 (idade avançada e carga de doenças crônicas). O que, sim, existe, são alto SVI e escassez de recursos hospitalares.

“O número de leitos de UTI per capita era cerca de duas vezes maior na região Sul do que na região Norte, não só no setor privado, mas também no SUS. A desigualdade era ainda maior para os recursos humanos, medida pelo número de médicos de UTI per capita“, escrevem os autores. 

Eles pontuam ainda que os estados mais vulneráveis são também os que têm maior cobertura do SUS na atenção primária, e que seus governadores conseguiram, apesar da ausência de coordenação federal, expandir a capacidade hospitalar e decretar medidas para conter o vírus.

Esse conjunto de fatores contrabalanceou, em alguma medida, a vulnerabilidade socioeconômica, mas não conseguiu evitar a tragédia muito mais pronunciada no começo da pandemia (e, acrescentamos nós, no começo deste ano também).

A pesquisa viu, porém, que ao longo do tempo a associação entre a SVI e as taxas de mortalidade diminuiu, o que se credita ao fato de que o distanciamento físico permaneceu relativamente maior nesses lugares.

População pobre sofre mais

Se a vulnerabilidade dos estados ditou sua capacidade inicial de enfrentamento como um todo, está claro também que dentro de cada um deles é a população pobre quem sofre mais.

Um levantamento do Estado de Minas com base na PNAD (a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) mostra quem mais precisou ser internado por covid-19 nos hospitais da Grande Belo Horizonte no ano passado: faxineiros, garis e auxiliares de limpeza foram responsáveis por 62% das internações. São pessoas que têm renda mensal média de R$ 1.482 e se expõem não só no trabalho – que nunca para – mas no transporte público lotado. 

Nem o estudo da Lancet nem a reportagem sobre a Grande BH excluem a idade e doenças crônicas como fatores de risco para a covid-19, obviamente.

No segundo caso, o levantamento viu que a maior parte dos internados tinha mais de 55 anos.

Fragilidades socioeconômicas também não são as únicas responsáveis pela boa ou má resposta local: vimos este ano como os estados da região Sul entraram em colapso absoluto, reforçando que mesmo sistemas de saúde com mais recursos não dão conta de transmissão desenfreada. 

A questão é que as vulnerabilidades sociais representam um fator inegável, e pesadíssimo, para piorar os cenários. 

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