No Inpe, exoneração em momento suspeito

Governo demite coordenadora responsável por monitoramento da Amazônia, mas diz que é por “reestruturação”. Funcionários do órgão denunciam operação “cala boca”

Foto: Ibama

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O governo exonerou ontem a coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe, Lubia Vinhas, pesquisadora do Instituto desde 1997. Ela atuava nos dois principais sistemas de monitoramento do desmatamento na Amazônia, o Deter e o Prodes. Coincidentemente, a decisão se dá em meio à divulgação de dados do Inpe que indicam o avanço do desmatamento nos últimos meses – e também quando o governo enfrenta forte pressão de poderosos investidores internacionais para mostrar resultados “concretos” da preservação das florestas. 

O Instituto divulgou nota afirmando que a decisão se deve a uma “reestruturação”. Em entrevista à GloboNews, a própria Lubia afirmou que o monitoramento não era responsabilidade exclusiva sua e que vai continuar sendo feito. “Eu acredito que a minha saída da coordenação está relacionada diretamente ao processo de reestruturação do Inpe que vem sendo proposto pela atual direção, e não em resposta direta a números relacionados ao monitoramento”, disse. A percepção de servidores do Inpe que conversaram com OGlobo, porém, foi outra. Eles viram a notícia como “cala boca”, segundo a reportagem. “Quanto mais se mexe no Inpe mais se mostra a falta de vontade do governo de divulgar os dados. E é ainda mais preocupante o fato de isso ocorrer em um período de seca e queimadas”, critica a diretora do Instituto Clima e Sociedade, Ana Toni.

Quando lembramos a demissão do então diretor-geral do Inpe, Ricardo Galvão, em agosto do ano passado, justamente por conta dos dados preocupantes divulgados, a situação se torna ainda mais suspeita. Aliás, desde então o Inpe está sem diretor. O oficial da Força Aérea Darcton Policarpo Damião é interino há quase um ano

E o Ibama pode perder até 20% de seu orçamento em 2021. A informação foi dada pela direção da autarquia a servidores, e confirmada pela BBC Brasil. Nas despesas não-obrigatórias, como as ações de fiscalização, o corte poderia ser ainda maior. “A situação no Ibama já não é boa hoje. No Orçamento de 2020, o órgão conta com R$ 1,75 bilhão para todas as suas despesas – uma redução de 14,8% em relação aos R$ 2,05 bilhões de 2019”, contextualiza a matéria. O número de fiscais foi reduzido drasticamente na última década, passando de 1,3 mil, em 2010, para 730 em 2019.

Nada que abale o vice-presidente Hamilton Mourão, que vende otimismo. “Eu tenho a visão de que todo mundo vai voltar a investir bem aqui no Brasil”, declarou, em uma videoconferência promovia por um banco, ao afirmar que as queimadas na Amazônia vão ser reduzidas no próximo semestre. E compĺetou: “Confiem no trabalho do nosso governo, no compromisso que nós temos com essa questão”. Já Paulo Guedes, em evento da OCDE, pediu “apoio” para “preservar melhor as florestas e os indígenas”.

Em tempo: no Intercept, Naira Hofmeister escreve um longo perfil do gaúcho Paulo Cesar Quartiero, político, produtor de arroz e pecuarista que tem enormes extensões de terras no Pará. Há quase 50 anos ele vem “antecipando o Brasil de Bolsonaro”, nas palavras da repórter. “Na verdade, acho que ele [Bolsonaro] copiou as minhas ideias”, diz Quartiero. Os dois se conheceram em 2010, quando o empresário foi eleito deputado federal. Nos anos 2000, no contexto da revisão da demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, ele mobilizou uma milícia para combater os indígenas que reivindicavam a posse da área. Até hoje responde a processos por crimes como sequestro e cárcere privado, formação de quadrilha e constrangimento ilegal. “Foi a fase feliz da minha vida, eu só sinto não ter levado ao extremo”, lamenta ele, que hoje planta arroz sem licença na Ilha do Marajó.

Enquanto isso, sua ‘cópia fiel’ foi denunciada no Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU por descaso na proteção dos povos indígenas. A representação contra Bolsonaro foi feita pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES). 

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