Quem ganha e quem perde?

Um punhado de empresários ganha dinheiro às custas da propaganda bolsonarista sobre a cloroquina

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 13 de julho. Leia a edição inteira.
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O repórter Patrik Camporez respondeu uma pergunta que não queria calar: afinal, quem está ganhando dinheiro com a promoção da cloroquina feita por Jair Bolsonaro? A resposta é um punhado de empresários – dois deles bolsonaristas declarados. Caso de Renato Spallicci, dono do laboratório Aspen que triplicou a produção da droga feita à base de cloroquina logo depois que o presidente mostrou uma caixinha do seu produto em uma reunião do G-20, no fim de março.  

Depois do anúncio da doença, Bolsonaro diversificou e mostrou uma embalagem de outra empresa, a EMS, de genéricos. Neste caso, o beneficiado é o controlador do grupo empresarial, Carlos Sanchez, que já participou de duas reuniões virtuais com o presidente durante a pandemia – e é o 16º homem mais rico do Brasil, segundo a Forbes. 

A terceira empresa rastreada na reportagem do Estadão é a Cristália. Seu dono, Orgari de Castro Pacheco, é eleitor declarado de Bolsonaro que, ano passado, participou da cerimônia de inauguração de uma planta fabril da companhia. Pacheco também tem atuação política: o empresário é segundo-suplente do líder do governo no Senado, Eduardo Gomes (MDB-TO). 
A propaganda também beneficia produtos estrangeiros. Em abril, o deputado federal Eduardo Bolsonaro compartilhou no Twitter uma ‘notícia’ do site pró-governo Conexão Política. A embalagem do medicamento à base de cloroquina produzida pela gigante Sanofi aparecia bem grande – Donald Trump é acionista da empresa…

A ação movida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores de Saúde, que tenta fazer com que o Supremo impeça que Bolsonaro faça propaganda da cloroquina e de outros medicamentos que não têm eficácia comprovada no tratamento da covid-19, recebeu a resposta do governo. A Advocacia-Geral da União (AGU) caracterizou como “temerária” a tentativa de botar um freio na propagação feita pelo presidente e demais membros do governo. A AGU argumenta que o que Bolsonaro faz é divulgação de “estudos em andamento de combate à pandemia”. 

Falando em fazer a população de cobaia para drogas sem comprovação científica no tratamento do novo coronavírus, temos mais um município para a lista: Itagi (BA) anunciou que vai distribuir um “kit-covid” com hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina para todos os moradores com sintomas da doença. “É um desafio mostrar que, às vezes, não fazer nada é proteger o paciente. Há uma cultura de intervir mesmo quando não sabe se funciona”, resumiu o secretário municipal de Saúde de Porto Alegre em outra reportagem, que conta sobre o embate entre médicos, gestores e entidades a respeito da indicação desses supostos tratamentos. A capital gaúcha tem tido que lidar com o problema criado por um grupo de 18 médicos que fizeram circular ‘orientações profiláticas’ que incluem cloroquina em um documento com o brasão do Rio Grande do Sul.

E a Rússia está se movimentando para promover o que chama de “primeiro medicamento para o tratamento da covid-19”. O alvo do governo Putin é a América Latina. Na sexta, a embaixada russa organizou na Guatemala uma apresentação para representantes de vários países sobre os supostos resultados positivos do avifavir. Trata-se de um antiviral desenvolvido a partir de um medicamento japonês contra a gripe que é objeto de 25 ensaios clínicos no mundo. Até agora, o estudo mais robusto – feito no Japão – não chegou a nenhum resultado conclusivo sobre sua eficácia para o corona. 

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