Estudo mapeia papel dos transportes coletivos na disseminação da covid-19

Na capital paulista, bairros com mais internações são aqueles em que população mais precisou sair para trabalhar – e onde a movimentação nos ônibus foi maior

Foto: Código 19

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 15 de julho. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Na capital de São Paulo, os bairros que apresentam o maior número de internações por covid-19 são os mesmos cujos moradores não puderam ficar em casa na quarentena – e uma pesquisa liderada por Raquel Rolnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, mostra o papel do transporte público nisso. Informações do DataSUS sobre as áreas com mais internações foram cruzadas com dados públicos da companhia de transportes São Paulo sobre ônibus no mesmo período. Além disso, foram usados dados da pesquisa Origem Destino, sobre o itinerário das viagens de trabalho. O resultado mostra grande aumento da movimentação de passageiros nas linhas de determinados bairros e na região central, principal destino de muitos trabalhadores. “Aparece muito claramente uma divisão entre aqueles que ficaram em isolamento social e teletrabalho e os que precisaram sair para trabalhar para que outros pudessem ficar em isolamento”, diz a pesquisadora.

Mesmo que não dê para saber o percentual dos contágios que aconteceram no transporte, em casa ou no trabalho, é razoável supor  que boa parte ocorra nos ônibus lotados. Com a abertura do comércio, vai haver ainda mais gente circulando, e Rolnik ressalta que os trabalhadores desses serviços são da mesma base social dos que já estavam se contaminando mais antes. “Essas linhas com maior concentração de pessoas, seria importante fazer adaptações para proteger os passageiros. Não falo apenas de equipamentos de proteção individual como máscaras, do uso de álcool gel e da necessidade de aumentar o número de ônibus para atender essas linhas específicas. Seria importante também aumentar o espaço dos terminais e pontos de ônibus com tendas, demarcações e espaços provisórios para as pessoas poderem manter o distanciamento necessário”, diz. 

Mas em vez de oferecer proteção, em geral governos têm apenas desincentivado a população a usar transportes coletivos. Caso não haja uma vacina disponível no curto ou médio prazo, isso deve gerar vários efeitos nocivos nas cidades: aumento da poluição e nos congestionamentos, crescimento dos acidentes de trânsito e uma segregação ainda maior entre pobres e ricos.

“O conflito entre os interesses públicos – qualidade, conforto, oferta ampla – e aqueles ligados à forma de financiamento (e ao lucro das empresas) se explicitou [na pandemia]. Gestores públicos e empresários do setor têm denunciado desequilíbrio econômico financeiro com a proibição de aglomerações nos transportes, o que deixa nítido que os sistemas de transporte coletivo urbano no Brasil contam com a lotação para garantir seus ganhos financeiros e sua lucratividade”‘, escrevem Clarissa Linke e Roberto Andrés, na Piauí. No artigo, eles defendem que o “Brasil precisa de um SUS no transporte público“: um sistema nacional, integrado e público, baseado na ideia de que o transporte é um serviço público essencial.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos