Mudanças nada sutis

Sob Nelson Teich, Ministério da Saúde parou de divulgar dados incômodos, como o avanço das mortes por covid-19 entre jovens

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Quando se trata de transparência, muita coisa mudou com a entrada de Nelson Teich no comando do Ministério da Saúde. Não exatamente na subnotificação dos casos de covid-19, que já era um desastre, mas na própria divulgação dos dados. Na Folha, a repórter Natália Cancian chama a atenção para os detalhes, que vão muito além do abandono do colete do SUS usado pela equipe do antecessor Luiz Henrique Mandetta.

As entrevistas ao lado da equipe técnica, antes diárias, rarearam e ficaram mais curtas. A ênfase passou a ser nos “dados positivos” da covid-19 no Brasil, se é que se pode chamá-los assim – a equipe fala mais no total de pacientes recuperados e compara o país com outros em situação pior (enquanto os há). Também foram retirados os dados que alertavam para o avanço da doença, como a classificação de estados e capitais em parâmetros de ‘emergência’, ‘atenção’ e ‘alerta’. Não se apresenta mais a evolução de mortes por faixa etária e fatores de risco (os dados vinham mostrando um aumento nas mortes de pessoas jovens e sem tais fatores).

Pesquisadores em busca de dados sobre a pandemia no país passam por maus bocados. Não só porque as informações são escassas, mas também porque as que existem não estão integralmente disponíveis. A base de notificações do Ministério tem acesso restrito a secretarias municipais de saúde e à Fiocruz. “É uma decisão que, para mim, parece estritamente política. Por que não liberar os dados para todos?”, questiona, n’O Globo, o professor de Matemática Aplicada da Universidade Federal do ABC Renato Coutinho, integrante do Observatório Covid-19 BR. A Lei de Acesso à Informação pode garantir o acesso, mas o prazo de 20 dias torna insustentável seu uso para acompanhar as curvas da doença.

O ministro continua pisando com cuidado no terreno do isolamento social. Não critica Bolsonaro, mas ao mesmo tempo diz que não dá para flexibilizar nada com os casos e mortes subindo. A promessa era de que a nova diretriz para reabertura seria anunciada esta semana; segundo a Pasta, o documento já está pronto mas não vai ser  apresentado pois é preciso “cautela”: “Ela tem que ser utilizada de uma forma correta (…). Nesse momento, onde temos os grandes centros urbanos brasileiros ainda em uma fase de ascensão da curva, não é o momento adequado de se colocar isso. Se não vai criar uma expectativa na própria população”, disse Denizar Viana, antes secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos e agora assessor de Teich. Vamos ver.

Ainda na quinta-feira, Teich afirmou já ter decidido a equipe que comporia o Ministério, mas ainda não apresentou os nomes. De acordo com ele, falta a chancela do governo. Dois militares já entraram: além do novo número dois da Pasta, o general Pazuello, há o coronel Antonio Elcio Franco Filho, nomeado secretário-executivo adjunto.

Em tempo: em sua primeira viagem oficial, o ministro chegou ontem a Manaus, anunciando a contratação temporária de 267 profissionais de saúde para o estado. Deveriam ser mais. Antes, a Pasta havia falado em 581 profissionais, mas ainda não houve explicações sobre a redução.

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