Molnupiravir: vitória contra a covid ou apartheid sanitário?

Merck alardeia as qualidades de sua cápsula – a primeira que pode ser tomada em casa. Mas cobra muito caro e oferece acordo de “transferência de tecnologia” limitado e contraditório. Fiocruz tentar furar o bloqueio

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O início do uso, pelo Reino Unido, de uma nova droga contra a covid voltou a despertar críticas sobre insistência da indústria farmacêutica em cobrar preços proibitivos pelos medicamentos contra a pandemia. O fármaco é o molnupuravir. Seu uso é indicado, por enquanto, para pacientes que já testaram positivo para o vírus e desenvolveram sintomas leves a moderados – dispensando hospitalização – mas têm ao menos um fator de risco para o agravamento da doença. Sua grande vantagem é a apresentação na forma de cápsulas, que podem ser ingeridas em casa, pelos pacientes.

Seus efeitos, nos primeiros testes clínicos, são de fato animadores. Entre 775 pacientes que o empregaram, apenas 7,3% precisaram de hospitalização – contra 14,1% dos que receberam apenas um placebo. Além disso, não houve morte alguma no primeiro grupo, contra 8 óbitos no segundo. Cientificamente, também, a droga é um desenvolvimento interessante, a partir de moléculas que podem desabilitar o Sars-CoV-2 por meio de mutações. Ela pode mesmo ir além da covid, apresentando um espectro mais amplo de ação antiviral, sugere um estudo de agosto último publicado na Nature.

O molnupiravir aumenta a frequência das mutações do RNA, molécula genética do vírus, e prejudica sua replicação, como se verifica em modelos animais e em humanos. A chave desse processo é a forma ativa do antiviral, chamado de trifosfato de β-D-N4-hidroxicitidina. Com base nestes trunfos, a Merck e a menos conhecida Ridgeback Biotherapeutics – as duas corporações norte-americanas que detêm a patente da droga – alardeiam que o fármaco é capaz de reduzir em 50% as hospitalizações por covid. Numa Europa às voltas com o que alguns chamam de “quarta onda” da pandemia, são dados atrativos.

O problema são as condições. Desenvolvido originalmente para combater a gripe, o molnupiravir é vendido pelas duas empresas pelo equivalente a 700 dólares – R$ 4 mil – por tratamento. Já sai caro para os sistemas de saúde dos países ricos. Um primeiro contrato, para fornecimento de 1,7 milhão de tratamentos, nos EUA, custou US$ 1,2 bilhão. Que dizer das nações mais pobres: na África, por exemplo, onde as próprias vacinas chegaram a apenas 7% da população?

Para defender-se, diante de uma opinião pública que rejeita crescentemente o apartheid sanitário, a Merck e a Ridgeback firmaram, com o Pool de Patentes de Medicamentos (MPP, em inglês), da OMS, uma “permissão voluntária” para produção da droga por terceiros. O site dos Médicos sem Fronteiras (MSF) para livre acesso aos medicamentos diz que o compromisso é “decepcionante”, por dois motivos. Primeiro, estão excluídos do licença precisamente os países do Sul com indústria farmacêutica mais forte – China e Brasil, por exemplo. Além disso, há uma condicionante “inaceitável”, segundo os MSF: as concessões só serão válidas se os produtores renunciarem ao desenvolvimento autônomo de drogas genéricas semelhantes.

Em seu texto, os Médicos Sem Fronteiras voltam a colocar o dedo numa ferida incômoda: “o desenvolvimento do molnupiravir foi pesadamente financiado pelo Estado norte-americano. Mas os direitos do remédio foram para duas corporações farmacêuticas. É mais um exemplo terrível de pesquisa contra a covid-19 financiada publicamente, mas capturada por monopólios privados!

Nessa ofensiva de gigantes, talvez o Brasil possa se valer da intensa pressão global contra os monopólios, diz o especialista Jorge Bermudez. Embora excluído do Acordo da Merck, está em negociação um acordo para fabricar o produto aqui e incluí-lo no SUS, conforme anunciou a Fundação Oswaldo Cruz. “Dependendo dos prazos e das condições, a transferência de tecnologia pode acelerar a disponibilidade do molnupiravir no nosso SUS”, considera Bermudez.

Na opinião dele, “é necessário lidar com medicamentos como insumos necessários às ações de saúde e a saúde como direito de todos. A solidariedade não pode ser atropelada pela disputa predatória de mercado, como vem sendo constatado no mundo inteiro”.

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