Meio milhão de mortes, dez milhões de casos

Estados Unidos e Brasil puxam o trem desgovernado da pandemia; em ambos os países, o governo federal ajuda o vírus

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O mundo chegou ontem a dez milhões de casos e 500 mil óbitos confirmados pelo novo coronavírus. Do primeiro caso registrado até a marca de um milhão, foram necessários três meses; agora, as novas infecções têm acontecido num ritmo de um milhão por semana: eram oito milhões no dia 15 de junho e nove milhões na segunda-feira passada. Isso ainda pode mudar – para pior. Afinal, também ontem foi alcançado um recorde de novos casos diários, com mais de 190 mil ao redor do planeta. Se a tendência continuar, teremos quase 1,4 milhão de registros a mais na próxima semana.

Os países responsáveis pelo crescimento acelerado estão hoje nas Américas. Mais de metade desses novos casos (117,1 mil) vieram do continente, e ontem a América Latina, com 2,5 milhões de infecções acumuladas, superou a Europa. Os EUA lideram a lista dos países com maior número absoluto de infecções e óbitos (mais de 2,5 milhões de casos e 125,7 mil mortos), seguidos pelo Brasil (1,3 milhões de infectados e 57,7 mil vítimas fatais). Na sequência, em número de casos confirmados, aparecem Rússia (640 mil), Índia (548 mil), Reino Unido (312 mil), Peru (279 mil) e Chile (271 mil). Aliás, a Índia, numa tendência alarmante, teve um recorde de novas infecções ontem, com quase 20 mil registros em 24 horas.

Até agora, foram em média mais de 80 mil mortes por mês, em comparação com 64 mil relacionadas ao HIV e 36 mil por malária, de acordo com dados de 2018 da Organização Mundial de Saúde. Com um agravante: as mortes por covid-19 ainda tendem a crescer. Os países que lideram a lista dos mais atingidos não estão sequer no fim da sua primeira onda. Eles apresentam crescimento acelerado nos contágios sem nunca terem experimentado uma queda realmente vertiginosa. 

Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Políticas para Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota, resumiu de forma muito angustiante o momento atual: “Este é um grande incêndio florestal que continua se consumindo e procurando madeira para queimar. Acontece que essa madeira são os humanos”, disse, segundo o Wall Street Journal

Não surpreende

Os Estados Unidos, que continuam sendo o país com os piores números da pandemia, bateram um novo recorde nos casos de covid-19, com mais de 45 mil registros na sexta-feira. Os estados de Flórida, Texas, Califórnia e Arizona foram, juntos, responsáveis por quase metade desse número. Só dois estados têm reportado declínio: Connecticut e Rhode Island.

O presidente Donald Trump já disse pelo duas vezes que pretende reduzir as testagens para ‘melhorar’ os números. Ainda na sexta, o vice-presidente Mike Pence insistiu em coletiva de imprensa que os EUA “achataram a curva” e que grande parte do crescimento se deve ao aumento das testagens. “Isso pode explicar em parte a alta. Mas há um limite. E deixar de testar não adianta, porque não se pode esconder cadáveres“, rebate, na BBC, o epidemiologista Arnold Monto, da Universidade de Michigan.

Também contrariando Trump, o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, alertou ontem que a “janela” para agir e controlar o vírus “está se fechando” para os EUA; ele disse ainda que o surto é atualmente “muito, muito sério”. E o chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, Anthony Fauci, afirmou em coletiva que era hora de “recuar alguns metros” em relação à retomada econômica e que  alguns estados podem estar reabrindo “cedo demais”. Num embate nada sutil com o presidente, Fauci afirmou ainda que os EUA precisam começar a considerar “inundar o sistema com testes” porque, de acordo com o Centro de Controle de Doenças do país, para cada pessoa diagnosticada por lá há outras dez que não sabem que foram contaminadas. 

O fato é que, diante do aumento de casos de coronavírus, 11 estados voltaram atrás em suas reaberturas, ou decidiram não avançar nos seus planos de flexibilização. Os resultados da retomada precoce estão muito óbvios. Um exemplo é o que aconteceu em um bar em Michigan, que abriu com metade de sua capacidade no último dia 8. Pelo menos 85 clientes pegaram a covid-19. Agora as autoridades pedem para que todos os que frequentaram o local entrem em quarentena por 14 dias. A probabilidade de que o vírus já tenha passado adiante a partir dessas pessoas é imensa.

A população tem motivos de sobra para se preocupar. Na hora em que o vírus volta a crescer com força no país, Trump pediu à Suprema Corte que revogue o Obamacare; se a demanda vingar, trará o fim permanente do programa popular de seguros de saúde, deixando 23 milhões de pessoas sem cobertura. Essa é uma briga antiga do presidente, retomada no pior momento.

A propósito, Trump compartilhou ontem, no Twitter, um vídeo mostrando um de seus apoiadores na Flórida gritando “white power”. Apagou em seguida, depois de uma forte repercussão negativa, inclusive entre republicanos. 

Mirem-se no exemplo

“A lição para o Brasil é ver o que está acontecendo nos EUA. Estou preocupado com o Brasil relaxando medidas de distanciamento social quando os casos estão subindo, é uma decisão errada”. O alerta foi feito na Folha por Ali Mokdad, especialista em saúde pública e um dos responsáveis por compilar os números brasileiros para o Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington. O IHME tem apresentado os principais modelos preditivos usados pela Casa Branca durante a crise.

Mas o Brasil não aprende nem com o que vem acontecendo no próprio território. As cidades do interior do estado de São Paulo que começaram planos de flexibilização e já precisaram voltar atrás)  tiveram mais internações e mortes do que a média. Em uma semana, dois prefeitos do interior morreram pela doença.  Ainda assim, a capital e outros 14 municípios estão seguindo a todo vapor com o plano de retomada da economia e avançaram para a fase 3, amarela. Com isso, a cidade de São Paulo já pode reabrir bares, restaurantes e salões de beleza. “A reabertura é uma receita do caos. (…) Abrir shoppings já é ruim, mas agora os ambientes que serão abertos são particularmente os de alta transmissão, porque as pessoas vão ficar conversando, sem máscara, próximas umas das outras. Em vários lugares do mundo, os parques foram os primeiros lugares que as pessoas puderam ocupar. Aqui não. Como shopping abre antes do que parque?”, pergunta, no El País, Patrícia Magalhães, física e pesquisadora da Universidade de Bristol e do Grupo Ação Covid-19.

Na capital do Rio, o prefeito Marcelo Crivella antecipou a volta do comércio, que estava prevista para o dia 2. As lojas reabriram no sábado, com grande aglomeração nas ruas. O isolamento na cidade chegou a 39%, contra 71% em meados de junho. Escolas privadas vão poder reabrir no dia 10 de julho. E tem mais: a prefeitura já quer retomar, no mesmo dia 10, os jogos de futebol com a presença de torcedores

“O Brasil está navegando ao sabor do vírus. Abrimos mão de controlar a pandemia e o vírus está nos levando para onde deseja. (…) Sem dúvida estamos caminhando em direção à tragédia, mas em câmera lenta, e não temos planos para retomar o controle”, escreve o biólogo Fernando Reinach, no Estadão. Quando vai “ao sabor do vírus”, a pandemia só termina quando há imunidade de rebanho. E isso, que não está sequer no horizonte devido ao ainda baixo percentual de contaminados no país, vai custar muitas vidas. Ele completa: “Não existe nenhuma medida em andamento que tenha alguma chance de reverter o andamento da pandemia nos próximos meses. Nenhuma. A impressão é que nossos governantes esperam por algum milagre, alguma intervenção divina que provoque a diminuição do espalhamento da doença de maneira mágica, sem que eles tenham de executar algum plano que tenha embasamento científico”.

De sexta até ontem, foram confirmados 69.169 casos e 1.661 mortes no país – há hoje 1.345.254 registros de infecção e 57.658 óbitos conhecidos no Brasil. São Paulo continua sendo o pior estado, com 271.737 casos, 14.338 óbitos e 75 novas mortes registradas ontem. Mas o Nordeste é a região com maior número de novas mortes confirmadas: 246, contra 178 no Sudeste. 

Em tempo: o Ministério da Saúde divulgou que o primeiro óbito pelo novo coronavírus no Brasil foi em 12 de março, e não no dia 16, como se registrava antes. Também foi identificada outra morte no dia 15.

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