A difícil arte de largar os remédios psiquiátricos

Milhares de pessoas tentam se reencontrar numa vida sem as pílulas. Leia também: embates em relação ao autismo dificultam avanços; governo já aprovou 121 agrotóxicos este ano; e muito mais.

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DIFÍCIL É PARAR

Imagine como é deixar os remédios psiquiátricos depois de ter tentado 19 medicamentos ao longo de 14 anos – sem se sentir melhor. Na New Yorker, a repórter Rachel Aviv narra a trajetória de Laura Delano,  seu diagnóstico de trastorno bipolar na adolescência, os médicos, as pílulas, a tentativa de suicídio, a sensação de não saber realmente quem existe debaixo da medicação e o processo de parar de tomá-la (com acompanhamento médico). A história serve de mote para explorar as controvérsias nas pesquisas com antidepressivos, o papel da indústria, as dificuldades e consequências da ‘des-prescrição‘.

Hoje, cerca de um em oito adultos e adolescentes nos EUA tomam antidepressivos, e um quarto deles faz isso há mais de dez anos. A partir de Laura, Rachel chega a um fórum online onde milhares de pessoas que estão tentando parar se reúnem para compartilhar experiências. Ao largar os remédios elas descrevem algo que chamam de “neuro-emoções”, sensações muito exageradas em relação à realidade: neuro-medo, neuro-raiva, neuro-culpa, neuro-vergonha etc.

Uma das questões apontadas na reportagem é justamente que a metodologia das pesquisas clínicas com antidepressivos mudou um pouco nossa concepção de saúde mental. Ela se tornou sinônimo de não ter sintomas, “em vez de retornar à base de funcionamento de um paciente, seu humor ou personalidade. antes e entre episódios de doença”. De modo que o sofrimento emocional é visto como uma recaída, e não como algo a ser esperado em todo indivíduo. Laura, que conduz a narrativa, só descobriu a própria sexualidade quando parou de tomar os remédios. 

A matéria discute a ideia de que a depressão seja causada por um desequilíbrio químico tratável por drogas, inclusive no longo prazo, o que não é claramente apoiado por evidências.  Uma das pesquisadoras entrevistadas, a psiquiatra Allen Frances, que presidiu a força-tarefa para a quarta edição do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), disse que sua área negligenciou questões sobre como tirar os pacientes dos remédios, algo que requer muito mais “habilidade, tempo, compromisso e conhecimento do paciente do que a prescrição”. Ela também ressaltou que há um “paradoxo cruel: uma grande população que realmente precisa do remédio e não tem acesso, e muitos outros  “sendo prescritos em excesso, permanecendo com os medicamentos por anos”. 

CORDA BAMBA

Ontem foi Dia Mundial da Conscientização do Autismo e, na verdade, ainda há muito por desvendar em relação a esse transtorno. Não se sabe exatamente o que pode ocasioná-lo, nem se há formas de prevenir, nem qual é a melhor forma de lidar com os sintomas. O próprio diagnóstico é difícil e controverso. No Outra Saúde, conversamos com a antropóloga e psicóloga Clarice Rios, que desenvolveu, no Instituto de Medicina Social da Uerj, uma pesquisa sobre políticas públicas voltadas para pessoas com autismo no Brasil. Existem impasses que parecem não ter solução no horizonte, e, nas palavras dela, “uma polarização que não ajuda no desenvolvimento de políticas“. Num cenário em que a medicalização da vida consegue coexistir com a desassistência, como oferecer às crianças autistas o melhor acompanhamento desde cedo, sem com isso rotular e estigmatizá-las com o diagnóstico? Ao mesmo tempo, como minorar o sofrimento das famílias sem serviços e profissionais qualificados e com uma rede de saúde mental (cada vez mais) sucateada?

A imensa maioria das pessoas diagnosticadas com o transtorno são meninos. No entanto, novas pesquisas no Reino Unido sugerem que na verdade há milhares de meninas e mulheres autistas que apenas nunca foram diagnosticadas, especialmente em casos mais brandos. É que “meninas com autismo parecem se comportar de maneiras consideradas ‘adequadas’ ​​- se não ideais – para elas em comparação com meninos: podem parecer ser passivas, retraídas, dependentes dos outros, não envolvidas nas situações que vivenciam ou mesmo deprimidas”, diz a matéria da BBC. 

No Estadão, o quanto a inclusão ainda está longe de se efetivar de verdade. E o blog Vencer Limites publicou respostas a 40 dúvidas de leitores sobre os direitos de autistas e seus familiares. 

ANTES TARDE…

Depois de vários anos de disputas, um juiz federal nos EUA decidiu que a farmacêutica Novartis vai ser julgada em um processo movido pelo governo federal e mais 12 estados. A acusação é que a empresa ofereceu propina para que médicos prescrevessem seus medicamentos. 

ELES NÃO PARAM 

O Ministério da Agricultura continua frenético na liberação de agrotóxicos. Só em março, foram concedidos registros a 35 novos rótulos (seis desses produtos estão na classe 1, a classificação toxicológica mais alta). Desde janeiro, já foram 121 novos registros, e ainda tem mais 30 na fila, contabiliza o De olho nos ruralistas. 

ROTULAGEM DE ALIMENTOS

Temos acompanhado há um tempinho as discussões sobre mudanças na rotulagem de alimentos. No ano passado a Anvisa fez uma Tomada Pública de Subsídios sobre o tema, e ontem divulgou o relatório com a consolidação. Foram 33 mil contribuições. A partir delas, vai ser feita uma consulta pública, com uma proposta de regulamento. 

AS CONTAS NÃO BATEM

Na proposta de Reforma da Previdência, a idade mínima ficou sendo de 57 anos para mulheres e 62 para homens. Mas a repórter Ana Estela de Sousa Pinto, da Folha, fez as contas e viu que tem algo bem errado. Por conta das regras de transição, servidores públicos normalmente não vão conseguir cumprir as regras quando chegarem a essa idade: só 15% dos homens e 8,5% das mulheres vão estar com os requisitos em dia ao atingirem a idade mínima. 

E o ministro da Saúde, Mandetta, está empenhado em fazer passar a reforma. Segundo o colunista Lauro Jardim, no Globo, ele tem articulado a aprovação junto a deputados mais próximos. 

ABISMO

O contingenciamento do orçamento federal também atingiu em cheio a ciência e tecnologia. O valor aprovado para 2019 já estava ruim. Agora, então, a ciência está “à beira do abismo”, segundo o presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira. O orçamento do MCTIC está com um corte de 41,9% e é o mais baixo da década. Isso porque, como lembrou Moreira, durante a campanha eleitoral Bolsonaro prometeu aumentar o gasto na área de 1,2% para 3% do PIB. A entrevista foi publicada no SciDevNet.

PRIMEIRAS MORTES

A situação em Moçambique, como era de se esperar, segue caótica. Os casos de cólera se multiplicam em uma velocidade impressionante e agora já passam de 1.400 (no sábado, eram 271). E foram anunciadas duas mortes pela doença. O governo brasileiro mandou agentes da Força Nacional e bombeiros que atuaram em Brumadinho. 

Ninguém devia morrer de cólera, que é uma doença tratável, basicamente pela hidratação. Mas se morre… No Iêmen, foram mais de 2,5 mil mortes desde 2016.

FOME EXTREMA

Um relatório da ONU divulgado ontem afirma que mais de 113 milhões de pessoas sofrem insegurança alimentar aguda no mundo. A situação é pior no continente africano, onde há quase 72 milhões de famintos. E a principal causa da fome são as guerras. Os países com crises mais graves são Iêmen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Etiópia, Síria, Sudão, Sudão do Sul e Nigéria.

SEM CONDIÇÕES

É um número impressionante. Uma em cada cinco unidades de saúde no mundo não tem saneamento básico. Nos países menos desenvolvidos, 45% não têm serviços básicos de acesso a água. 

CÂMERA ESCONDIDA

Foi na Califórnia: um hospital usou câmeras escondidas e gravou de 1,8 mil pacientes sem seu consentimento. Para piorar, são vídeos de trabalhos de parto e cesarianas. Mulheres seminuas, em momentos delicadíssimos, e seus bebês recém-nascidos. E alguns dos vídeos ficaram armazenados em computadores sem senha. Segundo o hospital, o objetivo das câmeras era tentar pegar um ladrão. Está sendo processado. 

NA FEIRA

Sérgio Moro esteve na maior feira de defesa e segurança da América Latina, a Laad, que reúne fabricantes e fornecedores de armas para as Forças Armadas, Forças Especiais e de segurança privada.. O general Mourão fez o discurso de abertura. O governador do Rio, Wilson Witzel, e o prefeito da cidade Marcelo Crivella também estavam lá. E uma arma que estava em exposição foi furtada, ali na cara de todos. 

Moro disse que não sabe bem o que são os atiradores de elite defendidos por Wiltzel. “Não estou familiarizado com essa questão, e precisaria entender melhor ao que o governador está se referindo. O fato é que um policial não precisa esperar levar um tiro de fuzil pra reagir, mas ter que ver as circunstâncias”, disse. 

Ainda no Rio: a Câmara Municipal aprovou a abertura de impeachment contra o prefeito. 

A CAUSA

Depois que a prefeitura de Sando André descartou a meningite como causa de morte do neto de Lula, a Folha afirma que foi sepse (infecção generalizada). 

AGENDA

Na quarta que vem, dia 10, acontece na Fiocruz o 1º Seminário do Observatório da Medicina, sobre  ‘Tecnologia de Informação & Inteligência Artificial na Medicina e Saúde Coletiva’. Haverá apresentações de Luiz Vianna, Fernando Telles, Carlos Gadelha, Mário dal Poz, Aluysio Gomes, Alfredo Guarishi e Ligia Bahia.

Em meio a muitos e graves problemas com o governo Bolsonaro, foi lançada ontem a 6ª Conferência Nacional de Saúde Indígena, marcada para os dias 27 a 31 de maio. 

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