Outra escravidão

Como redes de prostituição ligadas ao crime organizado atraem e escravizam mulheres trans. Leia também: novidades sobre a terapia eletroconvulsiva; bactérias do intestino ajudam a detectar câncer; e muito mais

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OUTRA ESCRAVIDÃO

Com um emprego negado após o outro, expulsas de casa, precisando comer e correr atrás do corpo que pode lhes pode garantir maior aceitação, fazer programas muitas vezes é a única e última alternativa que resta a mulheres trans e travestis. E a matéria do Uol expõe um esquema de prostituição em Ribeirão Preto (SP) que recruta pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social, com a promessa de moradia e cirurgias plásticas.

“Falo por mim. Procurei emprego em salões de beleza, restaurantes e hospitais pedindo para varrer. As pessoas pediam desculpa, mas que não trabalhavam com ‘esse tipo de gente’. Diziam que não tinham nada contra, mas que não pegaria bem pois vai que os clientes, que pagam a conta, não gostassem. A culpa era sempre transferida a terceiros. Quando você começa a transição, a única coisa que te sobra é a prostituição”, conta uma das entrevistadas. No fim, porém, o que existe é um regime de escravidão, com as vítimas presas por dívidas impagáveis e uma realidade que envolve mortes e desaparecimentos.

A partir da denúncia de duas vítimas que conseguiram fugir, a Polícia Federal, a Fiscalização do Trabalho e o Ministério Público Federal unem forças para desmanchar o esquema, mas não é fácil. São algumas redes independentes e formadas por membros ligados a organizações de tráfico de drogas, como o PCC. Mas já foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão, e os denunciados vão responder por crimes como tráfico de pessoas e exploração de trabalho análogo à escravidão. 

MACHISMO E HOMENS TRANS

E uma matéria do Globo fala de dificuldades de homens trans (que nasceram do sexo feminino e se identificam como homens), inclusive para serem mais ouvidos dentro do próprio movimento LGBT: fala-se muito mais em mulheres trans e travestis do que neles. “A socialização primária de um homem trans é como mulher, então somos estimulados a não pertencer a espaços de poder, a não ter poder de fala, não ter autonomia e não ter direitos sobre nosso próprio corpo. As mulheres trans são o oposto disso porque foram socializadas como homens”, avalia Leonardo Tenório, ativista trans e pesquisador na área de saúde coletiva e psicologia social. A reportagem fala anda de problemas no acesso a serviços de saúde, inclusive saúde mental.. 

TRUMPCARE

Dissemos aqui que, depois de aumentar a pressão para acabar com o Obamacare, Trump disse que os republicanos vão construir algo bem melhor e ficarão conhecidos como o “partido da saúde”. A matéria da Reuters diz que os colegas republicanos foram pegos de surpresa. Apesar de prometerem há anos uma proposta melhor do que a atual, eles nunca apresentaram nada. Ontem, Trump disse que vai esperar até as eleições presidenciais de 2020 para que o Congresso vote em um novo plano de saúde “quando os republicanos detiverem o Senado e reconquistarem a Câmara”. Ele ficou tuitando sobre isso e, segundo o New York Times, marcou vários legisladores de seu partido.

Também já comentamos algumas vezes sobre como a saúde custa caro para as pessoas nos EUA, mesmo quando elas têm planos e seguros. Agora, uma pesquisa mostrou que só no último ano elas fizeram empréstimos de ao todo US$ 88 bilhões para pagar por serviços de saúde – e 11% das pessoas que têm planos precisaram pegar dinheiro emprestado por esse motivo. Além disso, 25% dos americanos ignoraram o tratamento prescrito por conta do custo, e quase metade teme a falência em caso de uma emergência. Mesmo pegando as famílias mais ricas, que ganham US$ 180 mil ou mais por ano, essa preocupação existe em um terço delas. A percepção dos entrevistados sobre a qualidade do sistema está totalmente ligada à sua orientação política: entre republicanos, 67% acreditam que o sistema é um dos melhores do mundo; entre democratas, o percentual foi 38%. O estudo foi feito pela Gallup e pela organização sem fins lucrativos West Health. Foram conduzidas 3,5 mil entrevistas telefônicas, em inglês e espanhol, com adultos de todo o país. 

MAUS ARES

O Brasil está entre os 50 países com pior qualidade do ar, segundo um levantamento do Greenpeace e do Air Visual. Estamos em 44º lugar. Outros quatro latino-americanos nos acompanham: o Peru (21º lugar), o Chile (26º), o México (33º) e a Colômbia (50º). Das 20 cidades mais poluídas no mundo, 18 estão na Índia, no Paquistão e em Bangladesh. 

E a produção de milho está ligada a 4,3 mil mortes prematuras por ano nos EUA, por conta da poluição do ar, segundo um estudo publicado na Nature Sustentability. Claro que a culpa não é bem do milho: a amônia liberada pela aplicação de fertilizantes químicos foi de longe a principal responsável. 

Voltando ao brasil, nem só no ar nossa situação é crítica. Na piauí: “Se lixo fosse um produto de exportação brasileiro, venderia mais do que café e açúcar – mercados dos quais o Brasil é líder mundial”. Mesmo: o volume de resíduos sólidos urbanos produzidos em 2017 foi mais que o triplo de toda a cana de açúcar exportada.  

PERIGOS SUBESTIMADOS

Tem muita coisa controversa na saúde mental, e a terapia eletroconvulsiva é uma delas. No site Mad in Brasil, Peter Simons fala de uma nova revisão, publicada na Evidence-Based Mental Health, que relata a probabilidade de comprometimento cognitivo e perda de memória permanentes após a terapia. Além disso, muitas vezes os pacientes não recebem informações suficientes antes de consentirem o procedimento. “Não há dúvida de que a ECT é eficaz e salva vidas para uma população selecionada de pacientes. No entanto, um bom equilíbrio entre benefícios sustentados e possíveis riscos ou efeitos colaterais cognitivos graves nem sempre é alcançado”, escreve o autor da revisão, Dusan Kolar, do Departamento de Psiquiatria da Queen’s University, em Ontário, Canadá. Simons nota que outros pesquisadores já haviam indicado que as avaliações atuais sobre esses efeitos são feitas de forma inadequada, e portando seus resultados não são muito acurados. 

Ainda falando de insegurança: A Medtronic (a maior empresa de equipamentos médicos do mundo) reconheceu que 20 dos seus modelos de desfibriladores cardíacos implantados usam um protocolo sem criptografia, que pode permitir que um hacker altere as configurações dos dispositivos. Mas tanto a empresa quanto a FDA (agência de vigilância dos EUA) recomendam que as pessoas continuem usando os produtos quando necessário, porque os benefícios superam os riscos. 

MICROBIOTA NO DIAGNÓSTICO

Um novo estudo feito por pesquisadores da USP e da Universidade de Trento (Itália)  apontou uma relação entre o câncer colorretal e a microbiota intestinal. Por meio de softwares, eles analisaram dados públicos de amostras de fezes de quase mil pessoas em diferentes países e viram que a presença de 16 bactérias no intestino é forte indicadora do câncer. Pode ser uma forma de tornar o diagnóstico mais preciso. E também de estabelecer medidas preventivas, porque, nas pessoas doentes, foi identificada a presença de uma enzima que degrada nutrientes presentes em alimentos como carne, queijo e ovos, o que indica como esses pacientes comem. O artigo foi publicado na Nature Medicine. 

NOVO TESTE

O sistema público de saúde britânico, o NHS, está prestes a lançar um exame de sangue inovador para detectar pré-eclâmpsia, uma condição durante a gravidez que pode levar à morte da mãe. Em geral o diagnóstico é feito por medidas de pressão arterial e exames de urina, mas o novo teste oferece resultados mais confiáveis, segundo a matéria do Independent. 

NOVO MODELO

Entrou em vigor ontem o novo modelo regulador da Anvisa. Há uma nova forma de interação com o público, a Tomada Pública de Subsídios, e o prazo das consultas públicas sobe de 30 para no mínimo 45 dias. 

PARA DENUNCIAR

O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) lançou o Observatório de Publicidade de Alimentos. Por ele, dá para identificar e denunciar propagandas abusivas ou enganosas. Uma equipe vai avaliar os casos recebidos, selecionar os mais relevantes ou recorrentes e encaminhar para as autoridades. 

SUS E O BANCO MUNDIAL

Nesta quinta vai ter uma audiência pública sobre um relatório do Banco Mundial que propõe reformar o SUS, na Comissão e Seguridade Social e Família da Câmara. Quem pediu o debate foi Ricardo Barros, deputado e ex-ministro no governo Temer. E foram convidados o atual ministro, Mandetta, além dos presidentes do Conass, do Conasems e do TCU. O debate É às 9h30 e vai ser transmitido online. 

NÃO ERA

A causa da morte do neto de Lula não foi meningite. Após análise de amostras, a prefeitura de Santo André comunicou isso ontem, informando que a família precisa autorizar informações adicionais. 

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