Insensatos e cruéis

O bolsonarismo dobra sua aposta no caos social em fim de semana com episódios de agressão física a enfermeiros e jornalistas

Ilustração: Cristiano Siqueira

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 4 de maio. Leia a edição inteira.
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Na mesma data em que o Brasil ultrapassou a marca dos cem mil casos de infecção pelo novo coronavírus, o Palácio do Planalto foi cenário de mais uma aglomeração de bolsonaristas reunidos contra o Congresso e pelo fechamento do Supremo. Ao mesmo tempo em que se comemorava o Dia Mundial da Liberdade de Expressão, os apoiadores de Jair Bolsonaro agrediram com socos, chutes, rasteiras e empurrões profissionais da imprensa que cobriam o ato. No momento em que ultrapassamos a Alemanha e nos tornamos o sétimo colocado no ranking dos países com mais mortes por covid-19, com 7.025 óbitos registrados, as campanhas de desinformação sobre a doença entraram em um novo patamar e espalham boatos de que os enterros acontecem com caixões vazios. Ontem, o presidente da nação, que é também quem preside a nau dos insensatos e cruéis, dobrou sua aposta no caos social e voltou a ameaçar a democracia brasileira. Enquanto as duas figuras se sobrepuserem, estaremos condenados a essa sucessão de absurdos e violências em um ‘Dia da Marmota’ que se torna mais perigoso a cada repetição. 

“Tenho certeza de uma coisa, nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia, e pela liberdade. E o mais importante, temos Deus conosco”, disse Bolsonaro em uma transmissão ao vivo gravada da rampa do Planalto no momento da manifestação. “Peço a Deus que não tenhamos problemas essa semana. Chegamos no limite, não tem mais conversa, daqui pra frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço, e ela tem dupla mão”, acrescentou. “Chega de interferência, não vamos mais admitir interferência, acabou a paciência”, ameaçou. 

Na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso suspendeu, a pedido do PT, a ordem do Ministério das Relações Exteriores que expulsava 34 diplomatas venezuelanos do Brasil. E, na esteira das denúncias de Sergio Moro, o ministro do STF Alexandre de Moraes barrou, a pedido do PDT, a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção da Polícia Federal. Segundo um auxiliar direto do presidente ouvido pela Folha, Bolsonaro estaria avaliando “chutar o pau da barraca” e renomear Ramagem. A mesma fonte afirmou que está nos planos a substituição do general Edson Leal Pujol do comando do Exército. Já o Estadão ouviu militares que reclamaram das declarações de Jair Bolsonaro que fazem pressão sobre os outros poderes da República, especialmente contra o STF. De toda forma, ainda não fica claro até que ponto os militares estão dispostos a apoiar Bolsonaro.

Ontem, Bolsonaro voltou a fazer pouco das mortes – “infelizmente, muitos perderão suas vidas” –, a defender o fim do isolamento social – “o Brasil como um todo reclama volta ao trabalho” – e a se isentar da responsabilidade pela crise econômica: “Essa destruição de empregos irresponsável por parte de alguns governadores é inadmissível”, disse. No carro de som, os bolsonaristas tocaram a música “Brasil”, de Cazuza.

No Dia do Trabalhador, uma carreata de apoiadores de Jair Bolsonaro estacionou na frente do hospital de campanha do Ibirapuera, em São Paulo. O repórter Fausto Salvadori, da Ponte Jornalismo, filmou o carro de som da manifestação tocando “Que País é Esse”, do Legião Urbana, no volume máximo em frente à unidade de saúde. Ao UOL, o porta-voz do movimento de empresários que convocou a carreata pelo fim da quarentena que aconteceu no dia anterior, quinta-feira (30), respondeu que defende a volta ao trabalho, mas não “acha justo” que o grupo seja responsabilizado pelo aumento das mortes causadas pela livre circulação de vírus e pessoas. “Vivemos em um país livre e cada um deve defender o que acha justo, sem responsabilização”, disse Michel David, dono da Tecelagem Jolitex.

Mais uma amostra do bolsonarismo foi dada no feriado, desta vez em Brasília. Na Praça dos Três Poderes, um grupo de enfermeiros exercia seu direito à manifestação. Vestidos de jalecos brancos e usando máscaras de proteção, faziam um protesto silencioso e ordenado por melhores condições de trabalho e pela manutenção do isolamento social quando foram abordados por um grupo de apoiadores do presidente. Vestidos de verde e amarelo, os bolsonaristas chamaram os profissionais de saúde de “sem vergonhas”, “analfabetos funcionais” e “covardes”. Um homem chegou a agredir fisicamente uma enfermeira. Os bolsonaristas registraram a violência em vídeo. Nas redes sociais, inventaram que os enfermeiros eram, na verdade, moradores de rua que foram convencidos a usar jalecos brancos “para se passar por médicos”. No vídeo, aparece ainda outra ameaça gritada por um homem: “Vocês vão ser varridos, esquerdopatas. Vocês vão perder. Nós vamos varrer vocês dessa nação”.  Três pessoas do grupo já foram identificadas e serão processadas na Justiça pelo Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal. 

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