A boa notícia da semana vem das células T

Pesquisa publicada na prestigiosa Nature mostra a polivalência dessa parte fundamental do sistema imunológico

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 16 de julho. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

A conversa sobre o fim da pandemia tem sido, em geral, focada nos anticorpos: testes sorológicos indicam a prevalência de infectados em cada região ou país, a partir deles se discute a imunidade coletiva (ou de ‘rebanho’), há quem fale em ‘passaporte da imunidade’, e esperamos uma vacina que nos faça produzir esse tipo de defesa. Quando, no mês passado, um estudo sugeriu que os anticorpos contra o SARS-CoV-2 poderiam durar apenas de dois a três meses no organismo, a notícia não foi nada agradável. Desde então, outras pesquisas têm avançado no mesmo sentido. Nesta semana, um trabalho do  King’s College London (ainda não revisado por pares) mostrou que, em alguns casos, o nível de anticorpos após três meses se torna até mesmo indetectável. Tudo isso traz preocupações sobre a possibilidade de reinfecção – algo que, se ainda não foi verificado de forma consistente, também não foi refutado por completo pela ciência.  

Mas essas pesquisas não significam o fim da linha na busca pela imunidade. Os anticorpos são uma face da resposta imune – a mais fácil de medir –, mas não a única. Em poucas palavras, o corpo tem dois principais mecanismos de defesa: um é o dos anticorpos, que atacam diretamente o vírus, ligando-se à sua superfície; o outro é uma resposta que acontece dentro das células infectadas, mediada por linfócitos T, ou células T. Elas reconhecem as células infectadas e as destroem. Pois vários cientistas mundo afora vêm estudando células T no organismo de infectados pelo novo coronavírus e seu papel parece ser muito importante.

Algumas evidências em relação a isso vieram ontem, em um artigo publicado na Nature. Primeiro, os pesquisadores conseguiram ver que convalescentes da covid-19 apresentam respostas dos lifócitos T. Mas não só. Eles analisaram o sangue de pessoas que tiveram SARS em Singapura há 17 anos, viram que mesmo depois de todo esse tempo ainda há uma resposta robusta das células T e, mais ainda, que elas reagem de forma cruzada com a proteína do novo coronavírus, o SARS-CoV-2. Ou seja, quem teve SARS há 17 anos ainda pode ter resposta imune contra o novo coronavírus. Para completar o pacote das boas notícias, os cientistas observaram também que pessoas que nunca foram infectadas pelo SARS nem SARS-CoV-2  apresentavam resposta contra algumas partes do novo vírus, possivelmente por conta de contato anterior com outros coronavírus. 

Esse trabalho se junta a outros achados recentes que apontam na mesma direção. Em um estudo publicado na Cell em maio, pesquisadores descreveram a existência de células T que reconheciam o novo coronavírus em um grupo que nunca havia sido exposto ao SARS-CoV-2, também sugerindo a possibilidade de uma imunidade cruzada. 

Ainda há muito o que se responder: quantas pessoas têm essa resposta induzida por outros coronavírus, quanto tempo ela dura no caso específico do SARS-CoV-2 e, principalmente, se tal resposta pode ser realmente associada a uma imunidade contra a covid-19. Por enquanto, nada garante que a mera presença de células T dê essa proteção. Mas “isso faz pensar, como muitos se perguntam, que a imunidade promovida pelas células T talvez seja a maneira de conciliar o aparente paradoxo entre (1) respostas de anticorpos que parecem estar diminuindo semana a semana em pacientes convalescentes, mas (2) poucos (se quaisquer) relatórios confiáveis ​​de reinfecção real”, escreve o químico Derek Lowe, no site da Science. Sem dúvidas, as descobertas também influenciam a busca por vacinas.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: