Vacinas: a irresponsabilidade sem limites de Jair Bolsonaro

Presidente desautoriza ministro da Saúde e anuncia que brasileiros fora de SP não terão a vacina Sinovac-Butantã. Decisão insana reduz ainda mais possibilidades de imunizar população, em meio a possível segunda onda da covid

Por Raquel Torres | Imagem: Laerte

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Este conteúdo foi alterado às 9:33 para incluir informações sobre o cancelamento da compra anunciada ontem pelo ministro Eduardo Pazuello

PAZUELLO ANUNCIA, BOLSONARO CANCELA

O presidente Jair Bolsonaro decidiu partidarizar de vez a resposta à pandemia de covid ao cancelar abruptamente, esta manhã, a compra de 46 milhões de doses da vacina contra o cornavírus, que serão produzidas pelo empresa chinesa Sinovac e o Instituto Butantã, de São Paulo. O caráter partidário e ideológico da decisão ficou claro nas circunstâncias que a cercaram. Bolsonaro fez o anúncio ao responder um tuíte de um apoiador que “temia” ter seu futuro “comprometido pela ditadura chinesa”. “NÃO SERÁ COMPRADA”, respondeu o presidente em letras maiúsculas. Além disso, insinuou que pode ver a atitude do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, como “TRAIÇÃO”.

Pazuello havia anunciado ontem a compra da vacina Sinovac-Butantã. Mesmo com toda a campanha do presidente contra a CoronaVac – e apenas um dia depois de ele reclamar do preço dessa vacina –, o ministro anunciou um acordo de R$ 1,9 bilhão com o estado de São Paulo para a compra das 46 milhões de doses do imunizante. Com isso, a CoronaVac ficaria incorporada ao Programa Nacional de Imunizações, em vez de tornar-se um negócio exclusivo de São Paulo. “A vacina do Butantan será vacina do Brasil”, disse Pazuello, em reunião com governadores.

Segundo a pasta, foi assinado um protocolo de intenções que depende do registro da Anvisa para que a compra se concretize. A expectativa era que isso acontecesse até o fim do ano; nesse caso, a vacinação começaria em janeiro.

“Nem os auxiliares de Jair Bolsonaro conseguem sustentar por muito tempo o circo político armado diariamente pelo chefe”, escreveu o colunista da Folha Bruno Boghossian sobre a derrota do presidente. No mesmo jornal, Pedro Venceslau apurou que João Doria, viajaria hoje mesmo para Brasília para “capitalizar o que seus aliados consideram uma vitória política do tucano“, de olho nas eleições de 2022.

Mas logo o peso da decisão chegou ao colo do presidente. Respondendo a comentários de apoiadores em suas redes sociais. O site Poder360 apurou que o presidente enviou uma mensagem aos ministros dizendo: “Alerto que não compraremos vacina da China. Bem como meu governo não mantém diálogo com João Doria sobre covid-19″. A decisão partidarizante é ainda mais irresponsável porque desconsidera, inclusive, os sinais de que há uma segunda onda da pandemia, visível na Europa e Estados Unidos. O cientista Miguel Nicolelis alertou ontem para a necessidade de adotar desde já novas medidas protetivas. A decisão presidencial vai no sentido oposto.

QUEBRA-CABEÇA

Esse acordo permitiria que a CoronaVac fosse incluída no plano nacional de vacinação, ficando disponível a outros estados que não São Paulo. Não aumentaria, porém, o número total de doses já garantidas pelo Brasil. Somando as 46 milhões da CoronaVac, as 100 milhões da vacina de Oxford/AstraZeneca e as 40 milhões do consórcio internacional Covax Facility (há nove candidatas em testes e não se sabe quais serão disponibilizadas), a previsão seria ter 186 milhões de doses até o meio do ano que vem. Isso se os testes clínicos de fase 3 mostrarem bons resultados, é claro. Se consideramos uma vacinação em duas doses por pessoas, isso daria para imunizar pouco menos de metade da população: 93 milhões de brasileiros, no melhor dos cenários.

O planejamento do Ministério da Saúde para definir e atingir grupos prioritários ainda não está pronto, mas o G1 fez um compilado do que se sabe até agora. A pasta já divulgou que profissionais de saúde e integrantes de risco devem ser vacinados primeiro, embora não haja informações detalhadas sobre quais os perfis desses grupos e qual seria o cronograma de vacinação deles ao longo do ano. Em todos os casos, será preciso apresentar o CPF para tomar a vacina, para evitar desperdícios e facilitar o monitoramento dos efeitos adversos. Por aqui, imaginamos que deve ser importante também para garantir que as pessoas tomem as duas doses da mesma vacina, e não de laboratórios distintos. Mas a adoção do CPF não é um ponto defendido unanimemente. “Essa decisão não leva em conta os ‘invisíveis’ da população brasileira, cuja existência e dimensionamento foram tornados muito mais nítidos no curso da pandemia. (…) Os números são imprecisos e há estimativas de milhões de pessoas nessa condição”, nota o posicionamento da Abrasco sobre as vacinas, divulgado ontem.

A discussão sobre a obrigatoriedade continua a toda e pode mesmo se tornar mais um caso levado à Justiça durante a pandemia. Mas o fato é que, ao menos em um futuro próximo, não vai haver vacinas para todos. N’O Globo, o ex-secretário de Vigilância em Saúde Wandreson Oliveira chama a atenção para este detalhe que também temos tentado frisar por aqui: “Quando falo de obrigatoriedade, eu teria que ter a garantia de que todos estariam tendo acesso àquele imunobiológico. Fora disso, me parece prematuro esse debate sem sequer os governos terem apresentado uma estratégia para vacinação e sem definir quais serão os grupos prioritários”. Para ele, o mais importante não é definir obrigações, mas investir em campanhas para conscientizar as pessoas do papel da vacinação individual na proteção coletiva.

OS NÍVEIS DE ACEITAÇÃO

Nature publicou ontem um estudo sobre a potencial aceitação de vacinas contra covid-19 feito a partir de entrevistas com 13,4 mil pessoas em 19 países. Em média, apenas 71% dos entrevistados tomariam com certeza um imunizante comprovadamente seguro e eficaz – o que está abaixo da cobertura de 95% que normalmente é considerada necessária para controlar outras doenças.

É interessante notar que, em todos os países, as pessoas relataram que teriam menos chances de topar a vacina caso ela fosse exigida em seus ambientes de trabalho; isso era percebido como uma limitação da liberdade de escolha e uma imposição forçada dos interesses dos empregadores.

No Brasil, a aceitação ficou em torno de 85%, um percentual que está entre os mais altos. Outros países com mais de 80% de aceitação estão predominantemente na Ásia. México e Estados Unidos tiveram taxas de cerca de 75%, enquanto Canadá e países europeus tiveram as maiores hesitações: menos de 60% das pessoas nesses países disseram que tomariam uma vacina contra o novo coronavírus.

DESAFIO HUMANO NO REINO UNIDO

Está confirmado: o Reino Unido vai ter os primeiros ensaios clínicos de ‘desafio humano’ para vacinas contra a covid-19. Como já explicamos aqui, trata-se de testes em que os voluntários são intencionalmente expostos ao vírus. Isso tem o potencial de produzir resultados mais rapidamente, já que, nos ensaios tradicionais, pode levar muito tempo até que os participantes sejam infectados no mundo real. O governo britânico vai investir 33,6 milhões de libras para apoiar os estudos, liderados pela nVivo, subsidiária da empresa Open Orpha, que já faz testes de desafio humano com outros patógenos respiratórios. O Imperial College de Londres e o Royal Free London NHS também vão atuar, em parceria. Um site sobre a iniciativa foi lançado ontem.

Como a covid-19 pode ser mortal e os tratamentos são limitados, há uma questão ética óbvia e essa discussão tem sido sempre muito quente. Ainda falta a aprovação do comitê de ética e Agência Reguladora de Medicamentos e Cuidados de Saúde do Reino Unido. Se tudo seguir como o esperado, a previsão é que em janeiro tenha início um ‘estudo de caracterização’ para, em um primeiro momento, estabelecer a dose mínima do vírus necessária para causar a infecção em algumas dezenas de jovens saudáveis. Isso levaria entre dois e quatro meses para ser finalizado, e só depois começariam os testes com as vacinas propriamente. Ainda não estão definidas quais serão as vacinas testadas, nem qual vai ser o desenho dos ensaios.

Talvez você esteja fazendo as contas e pensando: isso significa testar os imunizantes só entre março e maio, quando já esperamos ter vacinas registradas e disponíveis, certo? Só que, como temos alertado aqui, as primeiras vacinas aprovadas não serão necessariamente as melhores. Novas opções provavelmente vão continuar surgindo. E, segundo a matéria do jornal The Guardian, os ensaios com desafio seriam usados não só para comparar novas vacinas com placebos, mas também para comparar várias vacinas entre si. Eles poderiam ainda servir para reunir dados sobre as consequências mais imediatas da infecção, o que não seria possível de outro modo –  isso porque os voluntários desse tipo de teste ficam em observação depois de terem o vírus inoculado, em vez de irem para casa.

Parte da comunidade científica afirma que é possível garantir a segurança dos participantes e que os benefícios superariam os riscos. Economistas do Imperial College de Londres calcularam que acelerar em um mês o desenvolvimento de vacinas impediria a perda de ao todo 720 mil anos de vida e evitaria 40 milhões de anos na pobreza, principalmente em países de renda baixa. 

Mas a estratégia segue controversa. Até porque a Open Orphan geralmente paga cerca de 4 mil libras (quase R$ 30 mil) a cada voluntário. É uma soma considerável, sobretudo durante a crise econômica impulsionada pela pandemia, e há uma preocupação de que pessoas se inscrevam pelo dinheiro, sem avaliar corretamente os riscos. “Ainda não sabemos o suficiente sobre essa doença para dizer a essas pessoas: você não vai morrer”, diz Meagan Deming, pesquisadora de vacinas da Universidade de Maryland, na matéria da Nature.

EM EXPANSÃO

A Comissão Nacional de Saúde da China (equivalente ao Ministério da Saúde) afirmou ontem que o país deve ampliar a autorização para o uso emergencial de vacinas ainda em fase de testes. Por ora, estão autorizadas três vacinas de duas empresas: duas da China National Biotec Group Co., subsidiária da Sinopharm, e a CoronaVac, da Sinovac.

Desde julho, trabalhadores essenciais e/ou com alto risco de exposição ao vírus estão sendo vacinados; depois, doses foram disponibilizadas para funcionários de empresas estatais e membros das Forças Armadas. Segundo O Globo, agora elas vão começar a ser oferecidas a estudantes que pretendem viajar ao exterior; e, em pelo menos duas cidades, estão liberadas para qualquer pessoa. 

As autoridades não revelaram quantos chineses já foram vacinados, embora reconheçam que se trata de “centenas de milhares”. Só a Sinopharm  vacinou mais de 350 mil pessoas fora dos testes clínicos; E sua chamada para estudantes já registrou quase 170 mil interessados em tomar o imunizante.

DISPARIDADE CALCULADA

Um estudo da FGV Social com dados de agosto do IBGE ajuda a dimensionar o que a pandemia significa em termos de desigualdade na educação. A Lei de Diretrizes e Bases estabelece uma jornada diária mínima de quatro horas, cinco dias por semana; mas em média alunos ricos estudaram 3,3 horas por dia, e os mais pobres estudaram duas horas. Ou seja: até os ricos estão prejudicados, mas nem de longe tanto quanto os pobres. No geral, alunos de seis a 15 anos passaram 2,37 horas por dia em atividades escolares, e entre 16 e 17 anos foram 2,34. Mesmo os melhores estados têm números muito ruins: a unidade da federação mais bem colocada é o Distrito Federal, em que o número de horas/aula para menores de 15 anos ficou em 2,96. No pior estado, o Acre, os alunos só tiveram 1,29 hora de aula por dia.

Entre os menores de 15 anos, mais de 13% não receberam qualquer material de estudo. No Pará, 45% dos estudantes não tiveram nenhuma atividade escolar. No Tocantins, foram 41%. E, para os cinco milhões de alunos que não têm acesso à internet, poucas soluções foram pensadas. Apenas 11 estados mobilizaram a televisão, por exemplo. 

Um dos responsáveis pelo estudo, Marcelo Neri, ressalta que a crise sanitária vai quebrar uma sequência de 40 anos de avanços na educação. “O retrato da educação era e é muito ruim, mas o filme, não. Essa pesquisa é uma espécie de trailer de um filme de horror educacional. As desigualdades educacionais que estavam caindo vão voltar a subir. E esse impacto vai perdurar para depois da pandemia”, diz, n‘O Globo.

MEIO MILHÃO DE MORTES

A poluição do ar causou a morte de quase 500 mil bebês com menos de um mês de vida no ano passado, segundo o relatório da State of Global Air. A maior parte dessas mortes aconteceu em países e famílias pobres; quase dois terços foram associadas à poluição em ambientes fechados, principalmente pelo uso de combustíveis sólidos como carvão, madeira e esterco animal para cozinhar. Os autores apontam que, embora ainda não seja bem compreendido, há um efeito da poluição na saúde dos fetos, que afeta seu crescimento e provoca baixo peso ao nascer e/ou prematuridade.

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