Descaso e desmonte na saúde indígena

Sem médicos, remédios e transporte, aldeias do Xingu têm 3 crianças mortas em 11 dias. Decreto de Bolsonaro que extingue departamentos na área pode agravar o problema. Leia também: cobertura vacinal melhora mas ainda preocupa; e muito mais

Foto: Avener Prado/Repórter Brasil

Por Raquel Torres e Maíra Mathias

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DESCASO E DESMONTE NA SAÚDE INDÍGENA

Saíram mais de 300 médicos cubanos e verbas da saúde indígena foram cortadas. O resultado, no Xingu, foi um blecaute que levou à morte três bebês kaiabis em 11 dias, relata a matéria da Repórter Brasil. Uma das vítimas tinha menos de um mês de vida e morreu com suspeita de meningite após 15 dias internada na UPA, aguardando por uma UTI neonatal. Outra tinha dois meses, e aguardou mais de um mês por uma cirurgia cardíaca. Outra tinha dois anos, com desnutrição e uma pneumonia mal tratada. 

Além de médicos, faltam remédios, combustível para o transporte em emergências e funcionários nos postos das aldeias. Nas cidades vizinhas, a situação não é melhor: algumas prefeituras proíbem o atendimento a indígenas. 

Já o El País aborda a repercussão do decreto que mudou a estrutura do Ministério da Saúde para os indígenas. Como já falamos por aqui, apesar de a Secretaria Especial de Saúde Indígena ter sido mantida, ela foi modificada. A matéria destaca a extinção do departamento de gestão. Isso é muito importante porque a Sesai é a única secretaria da pasta que executa o orçamento diretamente e esse departamento era responsável por garantir todas as condições necessárias à gestão do subsistema de saúde indígena, programando a aquisição de insumos e coordenando as unidades de atendimento. Em 2019, o orçamento da Sesai é de R$ 1,4 bilhão. Para Ana Lúcia Pontes, pesquisadora da Fiocruz ouvida pela reportagem, o departamento garantia maior independência política e financeira ao subsistema. Até agora, não se sabe quem vai assumir as funções do antigo departamento.

RIBEIRINHOS

E este mês a matéria de capa da Radis fala das condições de vida e saúde dos ribeirinhos que vivem em uma unidade de conservação na Amazônia. O editor da revista, Adriano de Lavor, acompanhou a 27ª Assembleia Geral da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e o 13º Encontro do Movimento de Mulheres Japiim. Alguns problemas ficam camuflados. A imensidão dos rios, por exemplo, esconde a escassez no período da seca e a falta de água tratada.

MELHOROU, MAS AINDA TÁ PIOR

O índice de vacinação das crianças brasileiras melhorou um pouco, mas não o suficiente para desligar o alerta vermelho. Dados de um levantamento feito pelo Programa Nacional de Imunizações obtidos pela Folha mostram que em 2018 quase todas as vacinas do calendário infantil estiveram abaixo da meta de 95% de cobertura, patinando entre 80% e 91,5%. A exceção é a BCG, aplicada em maternidades, que ficou com 95,6% –, número suficiente, mas aquém da cobertura alcançada já na década de 1990, de 117%.

A reportagem, que é a manchete da edição de hoje do jornal, tenta explorar algumas das causas do problema. É citado a sensação de segurança da população, que não se sentiria mais ameaçada por doenças como meningite, coqueluche, sarampo e pólio – justamente por causa do sucesso do programa de imunizações brasileiro. Ou falhas nos registros municipais que, corrigidas pelo Ministério, puxaram os índices desastrosos de 2017 um pouco para cima. E até mesmo mudanças no mercado de trabalho, já que a presença da mulher tem aumentado em ritmo maior em comparação aos homens nos últimos anos (e aí entra os horários dos postos de saúde, que estão fechados nos momentos em que elas poderiam levar os filhos). A crise econômica e o encolhimento da atenção básica que atinge vários municípios não são aventados como fatores.

SEM CENSURA

A notícia do levantamento censurado da Fiocruz sobre o consumo de drogas saiu em abril no Intercept, teve uma bela repercussão entre o pessoal da saúde e ganhou contornos gigantescos depois que Osmar Terra, ministro da Cidadania, disse não confiar nas pesquisas da instituição. Naquela primeira reportagem, o Intercept adiantou alguns resultados, como mostramos aqui na news: não há uma epidemia de crack no país, o consumo de maconha e cocaína não é tão grande e o maior problema era o álcool.

Na sexta à noite, o site decidiu publicar na íntegra o estudo, que foi feito com 16 mil entrevistas em 351 cidades.  Além dos dados divulgados inicialmente, outro chama a atenção: o consumo de opiáceos. Segundo o levantamento, 4,4 milhões de brasileiros já fizeram uso de algum de forma ilegal (ou seja, excluindo-se os remédios para dor prescritos por médicos). Isso dá 2,9% da população. Quando considerados apenas os últimos 12 meses, foram 2,1 milhões de pessoas (1,4% da população). 

Não se compara aos EUA, onde há uma epidemia em curso. Só que esses medicamentos são altamente viciantes e, como temos acompanhado por aqui, naquele país tudo indica que a epidemia começou com o uso lícito, prescrito, desses medicamentos. Depois, muitos usuários chegam até a migrar para drogas mais baratas e fáceis de encontrar, como a heroína

“O último boom de opioide nos EUA começou de 2013 para cá, ou seja, não dá para esperar cinco anos para fazer outro levantamento sobre uso de drogas, como se dá no Brasil”, alerta a psiquiatra Nicola Worcman, no Globo

O uso de opioides se mostrou muito maior do que de crack (que foi experimentado por 0,9% da população ao longo da vida e 0,3% nos últimos 12 meses).  Mas esses dados sobre crack, ainda que relevantes, devem ser observados com cautela. Isso porque o levantamento foi feito por entrevistas em domicílio, enquanto a maior parte dos usuários está em situação de rua. 

Em tempo: as comunidades terapêuticas foram abordadas pelo programa Greg News na sexta passada. O foco é na relação entre as CTs e os políticos. O ex-senador Magno Malta mantém há 30 anos uma CT que promete “curar” usuários de drogas com chá de capim-cidreira, por exemplo.

FOGO CRUZADO

Segundo Jair Bolsonaro, a missão mais difícil da Presidência da República é lidar com o Congresso. “As propostas que você quer apresentar e como elas podem ser interpretadas pelo Parlamento”, disse em entrevista exclusiva à Veja. E deu como exemplo a proposta de mudanças na Carteira Nacional de Habilitação que chega nas próximas semanas ao Congresso. Segundo o presidente, as mudanças vão ao encontro das demandas dos caminhoneiros. “De vez em quando aparece aí o fantasma da paralisação que mexeu com a economia do Brasil. O que a gente tem de fazer para antecipar problemas? Por que não aumentar o limite na carteira para 40, 50 pontos? Alguns vão criticar: ‘Pô, o cara aí quer relaxar na questão do trânsito’. Mas eu fiz isso. Chamei o Tarcísio (de Freitas, ministro da Infraestrutura) e disse ‘não quero mais saber de novos pardais’. Isso, às vezes, é mal interpretado. Por outro lado, você vai ganhando a simpatia da população e ela acaba entendendo que você quer fazer a coisa certa.” As mudanças, que também incluem dobrar o tempo de validade da habilitação de cinco para dez anos, são criticadas por especialistas que temem mais acidentes no trânsito.

Do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também em entrevista exclusiva, mas para O Globo: “Acho que está faltando uma agenda para o Brasil. A Previdência não é uma agenda, é uma reforma racional e necessária para equilibrar as contas públicas. Ela não resolve qualidade na educação, médico no hospital, produtividade no setor público ou privado, crescimento econômico ou desemprego. O que precisamos é uma agenda para o Brasil. Previdência é uma necessidade. Agenda para o Brasil a gente ainda não viu formatada de forma ampla, completa, por esse governo.”

E o Estadão lançou um monitor que permite que os projetos enviados pelo governo ao Congresso sejam acompanhados.

POPULAÇÃO É CONTRA

Pesquisa do Ibope sobre a flexibilização da posse e do porte de armas concluiu que a maior parte dos brasileiros (61%) são contra o afrouxamento de regras para a posse. Um número maior ainda (73%) é contra a ampliação do porte de armas. Quem puxa essa média para cima são as mulheres. No caso da flexibilização da posse, 71% delas são contra – enquanto metade dos homens é favorável. No caso do porte, ambos os sexos são contra, mas a rejeição delas chega à casa dos 80%.

HOMOFOBIA

Na Época dessa semana, há uma longa reportagem com dez depoimentos de pessoas que sofreram diversas violências pelo simples fato de serem gays. Perseguições, seguidas de agressão física, na rua e em locais públicos, como ônibus, são as mais comuns. Atingem quem estava voltando do bloco de Carnaval e, sem mais nem por quê, apanha tanto que vai parar no hospital. Quem só estava esperando o Uber, quem estava parado na praça, quem estava andando na rua. Muitas vítimas precisam de acompanhamento psicológico para lidar não só com o trauma da violência perpetrada pelo agressor, mas também com a indiferença absoluta de quem viu tudo acontecer e não fez nada. Importante leitura.

DE CÓCORAS

Essa saiu no mês passado na Piauí, mas divulgamos agora pois está enfim aberta para não-assinantes no site: uma excelente crônica (ou seria relato de parto? ou seria reportagem?) de Vanessa Bárbara sobre a situação do parto no Brasil. Com seu humor peculiar, a escritora mistura evidências científicas, recomendações internacionais, dados sobre violência obstétrica e suas próprias peripécias em busca de um parto normal no país da cesárea. Imperdível

E a médica obstetra Melania Amorim, professora da Universidade Federal de Campina Grande e uma das vozes mais atuantes pelo parto humanizado no SUS, foi entrevistada pela Radis para, entre outras coisas, comentar a abolição do termo “violência obstétrica” pelo governo federal. “O saber médico é constituído em um modelo patriarcal que vê o corpo feminino como essencialmente defectivo. E é um modelo que reproduz a desigualdade e a hierarquia da sociedade. As mais pobres, as negras, as lésbicas sofrem mais episódios desse tipo de violência”, diz. 

Falando nisso, a Justiça obrigou que planos de saúde credenciem enfermeiras obstétricas e obstetrizes. A decisão foi a partir de uma Ação Civil Pública movida pelo MPF. E é ótima, pois os desfechos de partos acompanhados por essas profissionais são estatisticamente mais positivos do que os acompanhados por médicos. 

SAÚDE DIGITAL

O site da EPSJV/Fiocruz segue analisando o decreto que mudou a estrutura do Ministério da Saúde – e que, percebemos por aqui, praticamente não está sendo discutido na mídia em geral. A última reportagem, de André Antunes, fala da criação do Departamento de Saúde Digital.

As tecnologias têm avançado, a telessaúde também, e a informatização do SUS não é em si ruim. A própria OMS já orienta há mais de uma década que os países adotem estratégias de saúde digital. A questão, aponta a matéria, é o significado disso em um cenário de desfinanciamento do sistema: “Há, por exemplo, um temor de que isso signifique uma ampliação do uso das tecnologias como forma de reduzir custos com o sistema público, a partir de ações à distância, desde a atenção até a formação de profissionais”.

COM FOTO

O governo pretende disponibilizar uma base de dados para o acompanhamento dos repasses da União. Hoje, os recursos federais vão para 30 mil organizações civis, todos os municípios e estados. Em 2018, foram repassados R$ 370 bi. A Plataforma + Brasil terá três níveis de funcionalidade: um voltado ao cidadão comum, outro voltado ao gestor e um último para acompanhamento do status de cada ação financiada pela União – inclusive com espaço reservado para que as pessoas postem fotos de uma obra que esteja em curso no seu município, por exemplo. A alimentação de todos os dados só deve ser concluída em 2022.

DADOS SEXUAIS

Mais uma notícia que mostra a importância do cuidado com nossos dados saiu no Guardian no fim da semana passada. O jornal britânico descobriu que um famoso aplicativo (o Femm, usado para identificar períodos férteis e evitar a gravidez, mas com baixo índice de segurança) é financiado por grupos católicos anti-aborto e anti-gay. O aplicativo coleta informações sobre menstruação e atividade sexual das usuárias e já foi baixado mais de 400 mil vezes desde 2015 nos EUA, na Europa, na África e na América Latina. 

ANUNCIADOS

Durante o encontro anual da Associação de Oncologia dos Estados Unidas, a Asco, uma startup chamada Grail apresentou testes preliminares que sugerem ser viável uma tecnologia para detectar alguns tipos de câncer por meio de um exame de sangue. Já outro exame de sangue, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa do Câncer, em Londres, e financiada por agências e iniciativas de fomento e pela Pfizer, promete detectar mudanças genéticas em mulheres com câncer de mama, o que pode prever a resposta da paciente à medicação logo no início do tratamento.

REPÚDIO

Uma série de entidades que representam trabalhadores do SUS divulgaram uma nota repudiando a extinção da Mesa Nacional de Negociação Permanente do SUS. 

BOA NOTÍCIA

O Amazonas está há mais de 100 dias sem registro de novos casos de sarampo. 

MÁ NOTÍCIA

Segundo a última atualização, os casos de dengue no país já experimentam um crescimento de 432% em relação ao ano passado. No total, são 767 mil suspeitas reportadas e 222 mortes. O problema afeta praticamente todo o país, atingindo 20 estados e o Distrito Federal. A demora na chegada do frio, devido ao fenômeno climático El Niño, é uma das explicações para a alta de casos em 2019.

NOVO ESFORÇO

Começa hoje uma nova etapa da vacinação contra gripe. O Ministério da Saúde resolveu manter a campanha enquanto durarem os estoques da vacina. Pouco mais de 20% da população ainda não se imunizou. As piores coberturas são as do Rio (63%), Acre e São Paulo (73%).

NA SÍRIA
Dezenas de médicos do mundo todo publicaram no Guardian uma cartapedindo medidas para combater os bombardeios de aviões sírios e russos que têm como alvo mais de 20 hospitais no noroeste da Síria.

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