No dia do Meio Ambiente, alertas sobre o fim do mundo

Relatório anuncia “ameaça existencial” até 2050: calor letal, locais inabitáveis, ecossistemas e agricultura em colapso. Leia também: a insegurança que Bolsonaro quer no trânsito; os novos cortes de bolsas; e muito mais

Por Raquel Torres e Maíra Mathias

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Esta é a edição de 05 de junho da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui.

“AMEAÇA EXISTENCIAL”

Hoje é Dia Mundial do Meio Ambiente, boa data para prestar atenção em números preocupantes. Um relatório lançado ontem pelo Breakthrough National Centre for Climate Restoration, uma think tank australiana, afirma que as mudanças climáticas podem representar uma “ameaça existencial” até o ano 2050. As previsões incluem 20 dias de calor letal por ano, aquecimento global de três graus Celsius, ecossistemas encolhidos, mais de um bilhão de pessoas deslocadas, dois bilhões sem água e produção de alimentos em colapso.  “O sistema planetário e humano vai atingir um ‘ponto sem volta’ até o meio do século, onde a perspectiva de uma Terra em grande parte inabitável levará à queda de nações e da ordem internacional”. A única saída é ter uma mobilização focada em construir rapidamente um sistema industrial de emissão zero, defende o documento.

Também ontem, os 29 especialistas que formam o Conselho Consultivo das Academias Europeias de Ciências fizeram outro alerta: em relatório, afirmam que a mudança climática representa uma grande ameaça à saúde humana e já tem impacto global ao espalhar doenças infecciosas e exacerbar os problemas de saúde mental. Mesmo pequenos aumentos na temperatura podem levar a problemas cardiovasculares e respiratórios; mosquitos transmissores de doenças, comuns em áreas tropicais, estão se espalhando até pela Europa; temperaturas altas, incêndios e poluição desencadeiam problemas como transtornos de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.

E, na Vox, uma ativista pelo meio ambiente explica por que não liga a mínima se as pessoas reciclam, andam de bicicleta, são veganas ou usam energia solar. 

POR AQUI…

Segundo a ONG Instituto Saúde e Sociedade, uma decisão adotada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) em novembro passado que define regras para redução da emissão de poluentes em veículos pesados a partir de 2023 pode evitar 150 mil mortes e economizar R$ 68 bilhões. Mas se as regras começassem a valer já no ano que vem, como defendiam especialistas, evitariam a morte de mais dez mil pessoas e um gasto público e privado com tratamentos de saúde da ordem dos R$ 4,6 bilhões.

Ontem, houve protesto no Rio contra o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. O foco das críticas foi dirigido à investida do ministro contra o Fundo Amazônia, que acumula doações de US$ 1,2 bilhão contra o desmatamento no bioma. O ministro também foi criticado por diminuir a participação da sociedade civil no Conama. 

NEM AS CRIANÇAS ESCAPAM

O projeto de lei entregue ontem por Bolsonaro ao Congresso não se restringe à Carteira Nacional de Habilitação, mas altera várias regras de fiscalização no trânsito. Por enquanto, o ponto mais chocante é a eliminação da multa para o motorista que transportar criança sem cadeirinha, infração considerada gravíssima pelo atual Código de Trânsito. No lugar da punição no bolso, o condutor ganharia uma advertência por escrito, o que é considerado inócuo por especialistas.

“A gente passa de cinco para dez anos a validade da carteira de motorista. Passa de 20 para 40 os pontos para perder a carteira de motorista. Entre outras coisas, também nós tiramos do Detran a exclusividade nas clínicas para emitir o atestado de saúde para carteira de motorista. Qualquer médico pode conceder isso daí”, afirmou Bolsonaro durante a cerimônia na Câmara. O PL também acaba com a exigência do exame toxicológico para motoristas profissionais.

Segundo o procurador Paulo Douglas, integrante do Ministério Público do Trabalho e coautor da ação que deu origem à Lei do Descanso dos Caminhoneiros, o PL é um retrocesso imenso e deve ser contestadojudicialmente caso seja aprovado. 

MEDO E DELÍRIO

Hoje será divulgado o Atlas da Violência 2019. Ancelmo Gois antecipou um dos achados da pesquisa feita pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o estudo, o custo total da violência corresponde a cerca de 6% do PIB – o equivalente a quase duas vezes a participação do setor siderúrgico na economia. A taxa de homicídios cresceu muito no Norte e no Nordeste, caiu no Centro-Oeste, e mais discretamente no Sul e no Sudeste.

Mas segundo Onyx Lorenzoni, a posse de uma arma de fogo “é parte dos direitos humanos”. A bizarra declaração foi dada na Espanha, onde o ministro da Casa Civil também elogiou as medidas econômicas da ditadura de Augusto Pinochet.

SUMINDO COM AS EVIDÊNCIAS

Era uma vez, um portal com informações sobre drogas no Brasil. Há 16 anos no ar, era o único banco de dados oficial sobre o assunto. Até que um “belo” dia, ele foi transferido do Ministério da Justiça para o Ministério da Cidadania, comandado por Osmar Terra… Bom, o resto da história é fácil de adivinhar. Ontem, O Globodescobriu que o portal está fora do ar desde 8 de janeiro. A assessoria da pasta desconversou e disse que ele está sedo “migrado e atualizado”, sem maiores detalhes.

Em outro endereço, o Portal Aberta, lançado em 2016 como ferramenta de formação para profissionais da área, aconteceu o sumiço dos levantamentos nacionais sobre o uso de drogas feitos pela Fiocruz em 2001 e 2005. 

MENOS BOLSAS

A Capes anunciou ontem outro corte: agora, serão bloqueadas mais 2.724 bolsas de mestrado e doutorado, além das que já haviam sido perdidas no mês passado. Serão referentes a cursos com conceitos 3 e 4.

Ao mesmo tempo, seis ex-ministros da educação (que atuaram entre 1991 e 2015) anunciaram a criação de um Observatório da Educação Brasileira. Em carta, repudiaram os cortes orçamentários e a postura do governo Bolsonaro em relação à área. “Contingenciamentos ocorrem, mas em áreas como educação e saúde, na magnitude que estão sendo apresentados, podem ter efeitos irreversíveis e até fatais”, diz o texto, assinado por José Goldemberg, Murílio Hingel, Cristovam Buarque, Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e Renato Janine Ribeiro. O anúncio foi feito no Instituto de Estudos Avançados da USP, onde eles agora planejam se reunir regularmente.

PODE SER VOTADA HOJE

A PEC do Orçamento Impositivo foi aprovada ontem pela comissão especial da Câmara e já está pronta para ir à votação no plenário da Casa. Com a mudança, o governo federal não vai poder mexer nos recursos destinados pelo Orçamento às bancadas parlamentares estaduais, que este ano, chegam a R$ 169,7 milhões por bancada. Atualmente, as emendas individuais já são consideradas impositivas.

“EXCESSO”

Ontem, Paulo Guedes deu a entender que o governo Bolsonaro não vai abrirconcursos públicos. “Nas nossas contas, 40% dos funcionários públicos devem se aposentar nos próximos cinco anos. Não precisa demitir. Basta desacelerar as entradas que esse excesso vai embora naturalmente. Vamos ficar sem contratar por um tempo e vamos informatizar”, afirmou durante sessão da Comissão de Finanças da Câmara.

NÃO SE PODE MAIS FICAR DOENTE

No Rio Grande do Sul, professores com problemas de saúde que foram afastados de suas atividades pelo médico por mais de 15 dias estão sendo demitidos pela secretaria estadual de Educação. A orientação da pasta atinge os docentes com contrato temporário, o que representa quase 40% dos professores da rede estadual. Há o caso de duas professoras com diagnóstico de câncer de mama que foram dispensadas pelo governo Eduardo Leite, pois precisaram se afastar pelo INSS para fazer quimioterapia. “Eu nem tinha ideia que o Estado fosse me demitir, me mandar embora, me desligar, eu estando com câncer, uma doença que é grave. Eu não pedi para ficar doente, eu fiquei”, desabafa uma delas na matéria do Zero Hora.

DESESPERO

No mês passado uma mulher indiana foi demitida, foi para a janela do escritório e ameaçou se matar caso a decisão não fosse revista. Mas a matériada Quartz diz que, naquele país, essa ameaça não é tão incomum: houve algumas dezenas de casos nos últimos anos. Inclusive ameaças coletivas. A reportagem relaciona isso com a depressão, o estresse no ambiente de trabalho – Bengala, conhecida como o Vale do Silício indiano devido às empresas de tecnologia, se tornou a capital suicida do país – e a insuficiência dos serviços de saúde mental indiano. Para uma população de 1,3 bilhão de pessoas, há apenas 3.800 psiquiatras, 898 psicólogos clínicos e 1,5 mil enfermeiros psiquiátricos.

cal, MAIS UMA DA AUSTERIDADE

O governo britânico tem um programa chamado Sure Start que apoia a educação, a saúde e o desenvolvimento infantil. E como a austeridade não é nenhuma exclusividade brasileira… Seu orçamento tem sido sistematicamente cortado: foi reduzido em dois terços entre 2011 e 2017,e mais de mil centros já foram fechados. E isso é tão ruim para as crianças como para as contas públicas, segundo um estudo do Institute for Fiscal Studies publicado ontem no British Medial Journal

Ao analisar dados do período entre 1999 e 2009, a pesquisa mostrou que o Sure Start gerou benefícios importantes para a saúde das crianças dos bairros mais pobres, reduzindo o número de pessoas hospitalizadas – e, de quebra, economizando milhões de libras para o NHS, o sistema público de saúde. 

NÃO ACABA

Já passou de dois mil o número de casos de ebola na República Democrática do Congo. Há pelo menos 20 novos casos por dia. A violência contra os trabalhadores da saúde também não tem fim, e é um dos principais entraves ao controle da doença.

CONFERÊNCIA

Luiz Henrique Mandetta gravou um vídeo “provocando” os gestores estaduais a organizarem conferências de saúde e levar boas propostas para a etapa nacional, que acontece no início de agosto em Brasília. Em um governo tão contrário à participação social, não deixa de ser uma boa notícia.

AGENDA

O Conselho Federal de Psicologia abriu consulta pública sobre as Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) nos Serviços Hospitalares do SUS. Vai até o dia 4 de julho.

Começa hoje e segue até a sexta-feira o 1° Congresso Brasileiro para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente, que acontece no Rio de Janeiro. Além de especialistas sobre o tema do Brasil, vai haver convidados internacionais.

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