CPI da Covid: Bolsonaro quer fazer do “limão uma limonada”

Em conversa com senador Jorge Kajuru, presidente revela táticas para enterrar a comissão: pressão sobre ministros do Supremo e mudança de foco para governadores e prefeitos

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Um dos autores do pedido de abertura da CPI da Covid, o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) divulgou ontem nas redes sociais uma conversa telefônica com Jair Bolsonaro. Na gravação, feita no sábado, o presidente trata Kajuru como aliado: sugere que o parlamentar faça “do limão uma limonada” e se movimente para que seja colocado em pauta algum dos dez pedidos de investigação contra ministros do STF que correm no Senado. “Sabe o que eu acho que vai acontecer? Eles vão recuperar tudo. Não tem CPI, não tem investigação de ninguém do Supremo”, calculou Bolsonaro. 

Kajuru respondeu que havia ingressado na véspera com ação no Supremo para obrigar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), a pautar a votação do afastamento do ministro Alexandre de Moraes. “Você é 10”, elogiou Bolsonaro. “Você pressionou o Supremo, né?”, reforçou. “Sim, claro. Entrei ontem, às 17h40”, responde o senador.

Além de tentar mudar os rumos da instalação da CPI incentivando pressão sobre o STF, no telefonema o presidente também deixou claro que o governo trabalha para que a comissão perca o foco, e investigue governadores e prefeitos. “Se não mudar o objetivo da CPI, ela vai só vir para cima de mim… CPI ampla e investigar ministros do Supremo. Ponto final”, afirmou Bolsonaro a Kajuru. “Se não mudar, a CPI vai simplesmente ouvir Pazuello, ouvir gente nossa, para fazer um relatório sacana”, complementou. Um pedido nesse sentido foi protocolado no sábado pelo coautor da CPI junto com Kajuru, senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

Kajuru afirma que o presidente sabia que a conversa poderia ir ao ar, e que o avisou 20 minutos antes da divulgação na internet. “Tudo bem, tudo que falei está falado”, teria respondido Bolsonaro. Já Kajuru minimizou o conteúdo da conversa que ele próprio divulgou: “O que ele falou de errado ali? Pelo contrário, mostrou que está aberto, que aceita ser investigado, desde que todos sejam”.

Mas a conversa, é claro, está repercutindo.  Para o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (AP), o presidente pode ser acusado de conspiração contra o Judiciário e atentado à autonomia dos Poderes. 

No Supremo, onde a análise do plenário sobre a abertura da CPI foi antecipada de sexta para quarta-feira, a tendência é confirmar a decisão de Luís Roberto Barroso, mas dando margem de manobra para que Pacheco instale a comissão quando os trabalhos da Casa voltarem a ser presenciais. “A conversa de Bolsonaro com Kajuru, contudo, pode mudar essa posição”, escreve o Estadão, que conversou com um ministro da Corte que avalia que o pleno pode optar pela instalação imediata caso fique caracterizado que Bolsonaro pretende intimidar os ministros com pedidos de impeachment. 

Na sexta-feira, nas redes sociais, Bolsonaro acusou o ministro Luís Roberto Barroso de militância política e afirmou que há “milhões de assinaturas” da população pedindo impeachment de ministros do STF – que, no entanto, não são examinados pelo Supremo.

Pacheco deve instalar a CPI amanhã. A essa altura, a comissão ganhou mais duas assinaturas e conta com 33 votos favoráveis – incluindo o do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), ex-vice-líder do governo no Senado, que ficou famoso por ser pego com dinheiro nas nádegas no ano passado. O governo trabalhava desde a quinta-feira para que senadores retirassem suas assinaturas, inviabilizando a instalação. Agora, o Planalto tenta interferir na escolha dos integrantes da comissão, composta por 11 parlamentares. 

Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, a oposição analisa que os ventos sopram a favor da abertura de uma CPI da Covid também lá. Já haveria 90 votos, mas são necessários 171. O presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), se manifestou contra a CPI do Senado na sexta-feira. O discurso é o mesmo de Pacheco: não seria o momento de apontar o dedo para ninguém.

“Disse isso porque Bolsonaro, que é o culpado, concedeu a Lira e a seus aliados no centrão acesso a cargos e verbas da administração federal. A hora de apontar culpados, se entendi bem, será quando esse dinheiro acabar. Talvez já não dê mais para evitar uma única morte brasileira”, comenta Celso Rocha de Barros, na Folha

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