Brasil ultrapassa marca dos dois milhões de casos

Média de mortes diárias está acima de 900 desde meados de maio, e total chega a 76,8 mil. Atenção básica robusta poderia evitar espalhamento pelo interior

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DOIS MILHÕES DE CASOS

O Brasil já tem, oficialmente, mais de dois milhões de casos de covid-19. Ontem foram registradas mais 43.829 novas infecções e 1.299 mortes, o que levou a 76.822 o total de óbitos. Foi o quarto dia seguido em que a média móvel de mortes (que considera os últimos sete dias) bateu recorde, chegando a 1.081.

Essa média móvel aumentou rapidamente entre meados de março e o fim de maio, mas, então, deu uma estabilizada. O que, de forma alguma, é uma boa notícia, já que desde então o número tem estado sempre acima de 900 e, há semanas, estancou em torno de mil. Um dos motivos para isso é que, embora pontualmente sejam identificados declínios em contágios, internações e mortes, a cada semana o coronavírus se infiltra mais e mais em cidades do interior. “A epidemia no Brasil não é uma grande fogueira. São várias fogueiras pequenas. As fogueiras altas que a gente via nas capitais agora deram lugar a fogueiras menores nas principais cidades do interior, que estão cercadas por uma porção de fogueirinhas”, diz diz Domingos Alves, professor da Faculdade Medicina da USP, na BBC Brasil.

As ‘fogueirinhas’ ficam justo onde há o acesso a serviços hospitalares é mais restrito. A questão é que, nos locais onde o vírus começa a chegar, há meios de evitar que ele se alastre. Conhecemos a fórmula: identificar infectados, rastrear seus contatos, isolá-los. E o SUS, altamente capilarizado, tem o desenho perfeito para isso – mas a atenção básica, que se organiza prioritariamente em torno da Estratégia Saúde da Família, não tem funcionado nessa crise como poderia e deveria.

No podcast Tibungo, o Outra Saúde conversou sobre isso com Luiz Augusto Facchini, professor do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal de Pelotas e coordenador da Rede de Pesquisas em Atenção Primária à Saúde. Ele explica como o governo federal deveria ter preparado equipes e profissionais para que houvesse uma resposta adequada, e conta como isso ainda pode ser feito localmente. E alerta: uma coordenação nacional, que não está no horizonte, seria urgente e indispensável. Ouça aqui.

Mesmo as estabilizações e quedas em algumas grandes cidades acabam ofuscando a realidade de que, em 60% delas, os casos ainda crescem de forma acelerada. Esse dado é da Folha, obtido por meio de um modelo estatístico de pesquisadores da USP. Das 324 cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, o coronavírus não foi controlado em 193.

Mais um problema: o Conass, conselho que reúne secretários estaduais de Saúde, afirma que há informações conflitantes entre os dados das secretarias e do Ministério da Saúde. Segundo o Painel, da Folha, foi pedida uma reunião com o general Pazuello para discutir as inconsistências. 

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