Bolsonaro sabia da compra da CoronaVac; recuou por “pilha” de redes e filho

Presidente não se opôs à compra quando foi informado, no fim de semana. Apoiadores inflamados e a comemoração de João Doria o fizeram mudar de ideia

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Jair Bolsonaro foi informado no final de semana que o Ministério da Saúde iria assinar um acordo para comprar 46 milhões de doses da CoronaVac. Apuração de veículos diferentes dão conta de que o presidente não se opôs inicialmente. As redes sociais e seu filho o fizeram mudar de ideia.

Depois do anúncio feito por Eduardo Pazuello de que a vacina desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac com o Instituto Butantan seria a “vacina do Brasil”, houve barulho entre os bolsonaristas – principalmente de cunho xenófobo. Antenado, Carlos Bolsonaro advertiu o pai que os influenciadores de extrema direita estavam massacrando o acordo e passou a advogar contra

Além disso, incomodou uma postagem feita no Twitter pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “Venceu o Brasil”, escreveu o tucano, salpicando na mensagem um emoji do sinal da cruz. Segundo auxiliares do presidente ouvidos pelo Valor, Bolsonaro se irritou com a tentativa de Doria “faturar” com a notícia.

É do governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), o mais conciso comentário sobre a atitude de Bolsonaro: “Impossível o presidente não ter sido informado antes. Acho que foi pilhado pela rede social”, disse ao blog de Tales Faria. 

De acordo com a Folha, na própria terça-feira o presidente telefonou para o ministro da Saúde informando que se posicionaria contra o anúncio de compra da CoronaVac feito horas antes. Nos bastidores, o acerto entre o governo federal e o Butantan tinha sido formalizado ainda na segunda-feira, quando a pasta enviou um ofício ao instituto de pesquisas. Pazuello chegou a avisar um representante do governo paulista ontem de manhã, pouco antes da tempestade de Bolsonaro no Twitter. Mas disse apenas que a compra de doses seria menor do que a anunciada no dia anterior.

Também segundo múltiplas apurações, o general se surpreendeu com a virulência do presidente, que não hesitou em jogá-lo na fogueira virtual mentindo que o acordo tinha sido “TRAIÇÃO”. Teria ficado “chateado”.

Depois da publicação dos tuítes, Bolsonaro e Pazuello se falaram por telefone para combinar os fatos alternativos que apresentariam ao respeitável público deste circo que chamamos de Brasil. Resolveu-se jogar toda a culpa no adversário político. “Houve uma distorção por parte do senhor João Doria no tocante ao que ele falou. Ele [Pazuello] tem um protocolo de intenções, já mandei cancelar, se ele assinou”, declarou Bolsonaro à imprensa em uma visita a um centro de pesquisas da Marinha. “O presidente sou eu”, arrematou, numa frase que lembra outra, que resumiu o absolutismo de séculos atrás. Num outro sinal de pouco apreço ao caráter republicano, Bolsonaro teria enviado a ministros uma mensagem ordenando que, a partir de agora, sua equipe não tratará sobre iniciativas de imunização com o governador paulista.

De sua parte, o Ministério da Saúde cumpriu o script combinado. O tuíte que divulgava o anúncio foi apagado do perfil da pasta. Depois, uma nota ministerial negou o acerto para a compra da CoronaVac. Dizia que o protocolo foi firmado com o Butantan por ele ser “grande parceiro do ministério na produção de vacinas para o Programa Nacional de Imunizações”, tirando a situação do contexto e dando a entender tratar-se de um acordo mais amplo. Por fim, em coletiva de imprensa, o número dois da pasta, Élcio Franco, afirmou que “houve interpretação equivocada” da fala de Pazuello “sobre a compra de doses da CoronaVac”. 

Não surpreende que, pouco depois, toda a imprensa tenha tido acesso ao ofício assinado por Pazuello e dirigido ao diretor-geral do Butantan, Dimas Covas, que confirma a intenção de adquirir 46 milhões de doses, ao custo de US$ 10,30 cada, caso a vacina recebesse registro da Anvisa. 

Aliás, esse valor por dose é mais um elemento que sinaliza que Bolsonaro não foi pego de surpresa pelo anúncio do acordo. Na segunda-feira, o presidente chegou a comentar que achava a vacina cara. O UOL lembra, porém, que o preço negociado por São Paulo com a Sinovac é muitíssimo mais baixo, de US$ 1,5 por unidade (60 milhões de doses a um custo de US$ 90 milhões).

Ontem, Bolsonaro voltou à carga, aprofundando a desqualificação da tecnologia e dando eco à xenofobia de seus apoiadores: “Nada será despendido agora para comprarmos uma vacina chinesa, que desconheço, mas parece que nenhum país do mundo está interessado nela.” No Twitter, o presidente já havia caracterizado o imunizante como “a vacina chinesa de Doria” e dito que “o povo brasileiro NÃO SERÁ COBAIA DE NINGUÉM”.  

As reações

O principal parceiro comercial do Brasil adotou um tom de cautela diante da nova crise. “A China cumprirá o seu compromisso de tornar as vacinas chinesas um bem público global depois de se concluírem as devidas pesquisas e aprovações”, diz a embaixada em comunicado, que continua: “Qualquer vacina, quando tiver sua segurança e eficácia comprovada, será valiosa para proteger as populações do mundo, incluindo a do Brasil”.

O porta-voz da diplomacia chinesa no Brasil, Qu Yuhui, seguiu nesse tom: “Cremos que o governo brasileiro tem todas as condições para definir o que é melhor para o seu próprio país, para o próprio povo. Não queremos nos meter”, disse à Coluna do Estadão.

Os secretários estaduais de saúde fizeram uma observação bastante interessante à Folha: segundo eles, não faz sentido Bolsonaro criticar a vacina por ser chinesa, uma vez que “a maior parte dos insumos para todas as vacinas já provêm da China”.

E o conselho que reúne esses gestores – o Conass –  e vinha pressionando para que o Ministério da Saúde incorporasse a CoronaVac ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) se posicionou ontem: “Seja qual for a vacina, independentemente da sua origem ou nacionalidade, o interesse público sobre o assunto diz respeito à sua eficácia e segurança para todos os usuários do SUS”. Nesse sentido, o conselho segue defendendo que todas as vacinas que tiverem estudos concluídos e forem aprovadas pela Anvisa sejam incluídas no PNI.

Nos bastidores, os secretários e os governadores classificam o episódio como “inacreditável”, segundo a coluna Painel. Alguns deles se posicionaram nas redes sociais. E o espectro é amplo, indo do tucano Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), que defendeu que a decisão sobre inclusão deve ser “eminentemente técnica, e não política”, a opositores como Flávio Dino (Maranhão), que prometeu articular reação no Congresso Nacional e no Judiciário para que a população tenha acesso a todas as vacinas eficazes e seguras. Dino, aliás, chegou a dizer que estuda comprar doses do Butantan. Todos saíram em defesa de Pazuello.

Ontem, João Doria rebateu no Senado as declarações de Bolsonaro. Repetiu que a vacina do Butantan é “a vacina do Brasil” e afirmou que “se os ministros não têm condições de defenderem suas posições” seria melhor “fechar ministérios”. “Se a cada ministro a emitir sua opinião ele estará desautorizado pelo presidente da República, para que ter ministros, para que ter ministérios?“, questionou. Rodrigo Maia tinha um encontro marcado com o governador paulista. Cancelou alegando indisposição… Doria foi recebido na Anvisa, onde teve reunião de quase duas horas com o diretor-presidente da agência, o almirante Antônio Barra Torres. 

Ainda no campo das reações, o Tribunal de Contas da União (TCU) cobrou que o ministério publique na internet, em no máximo 15 dias, o estado da arte de cada tratativa envolvendo o PNI. A Rede Sustentabilidade foi a Supremo com uma ação para obrigar Bolsonaro a assinar o protocolo de intenções para a compra da CoronaVac. A ação diz que há “violação aos princípios da eficiência e da impessoalidade, ao se podar uma política pública por motivações ideológicas estritamente vazias”. O partido também alega que o presidente atuou para “privar a população brasileira de uma possibilidade de prevenção da covid-19. Já o deputado Alexandre Padilha (PT-SP) protocolou um pedido de convocação de Pazuello para que ele explique as diferentes versões apresentadas pelo governo federal sobre a compra de vacinas. 

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