Bolsonaro, a fome e o Febeapá

Pesquisas revelam: 5,2 milhões de brasileiros passam fome — e 17 morrem por dia, em consequência. Leia também: crise dos planos de saúde amplia procura pelo SUS; as duas caras da Nestlé; a polêmica sobre Autismo no censo-2020

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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FEBEAPÁ SEM FIM

Na sexta-feira passada, Jair Bolsonaro foi a principal atração do Febeapá, o Festival de Besteira que Assola o País. A ideia do genial Sérgio Porto surgiu no contexto dos anos 1960, mas está mais atual do que nunca, como podemos constatar. Para nós, da saúde, a frase que ganhou o prêmio máximo de irresponsabilidade foi a seguinte: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não.” Isso porque, explicou o presidente brasileiro à mídia estrangeira, “você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo”. É claro que a realidade desmente o capitão reformado. 

De acordo com o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO na sigla em inglês), aproximadamente 2,5% dos habitantes do país encontram-se em grave situação alimentar – ou seja, ao menos 5,2 milhões passaram ao menos 24 horas sem comer nada. Já segundo levantamento feito pelo Estadão no Datasus, entre 2008 e 2017, ao menos 63,7 mil pessoas morreram por complicações decorrentes da desnutrição – uma média de 17 óbitos por dia.

E não é preciso ir muito longe para encontrar histórias horríveis de fome no Brasil. No centro da capital mais rica do país, Ellen Cristina Santos passa pela pior das incertezas: há dias que consegue pão e café graças a esmolas de transeuntes. Mas não na véspera da declaração de Bolsonaro, quando passou o dia inteiro sem comer. Para maquiar a fome, ela e seu namorado, Cleyton Gean de Lima, decidiram dormir às 18h e, assim, tentar esquecer o ronco no estômago.

No mesmo dia, o mandatário recuou e concedeu que “alguns passam fome”. E Guilherme Amado, na Época, lembrou que quando pedia votos na eleição do ano passado, Bolsonaro tinha uma opinião diferente sobre o assunto. “Nunca haverá estabilidade social na presença de fome, violência, miséria e de altas taxas de desemprego”, dizia o plano de governo da campanha, protocolado no Tribunal Superior Eleitoral.

UM BILHÃO

Enquanto alguns passam fome, outros ganham dinheiro. Uma empresa de educação especializada em cursos de medicina chamada Afya abriu capital na bolsa de valores Nasdaq na sexta-feira e levantou cerca de R$ 1 bilhão. A companhia é resultado da união do NRE Educacional, maior grupo de faculdades de medicina do país, e da Medcel, marca de cursos digitais preparatórios para provas de residência médica. O grupo pertence à família Esteves e a um fundo chamado Crescera – que, antes chamava-se Bozano. A mudança de nome se deu porque o ministro da Economia Paulo Guedes era sócio. Segundo o Estadão, a fusão que deu origem à Afya foi idealizada por Guedes

EXPANSÃO DO SUS EM SP

Em reportagem que já começa retratando o SUS como um cenário de terror, aFolha apresenta dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação que mostram o crescimento dos atendimentos pelo Sistema Único na cidade de São Paulo. De acordo com o levantamento, os hospitais municipais registraram alta de 10% nas consultas ambulatoriais nos quatro primeiros meses deste ano. Um deles, o Carmino Caricchio – conhecido como hospital do Tatuapé –, registrou um salto de 21% no número de consultas médicas ambulatoriais. A principal tese da matéria é que o aumento tem a ver com a retração do mercado de planos de saúde na cidade. Entre 2017 e 2018, a ANS calcula que 480 mil pessoas deixaram de ter plano de saúde – ou “perderam acesso”, como diz a matéria. Desde 2014, a queda no número de beneficiários é de 13,5%, segundo a Associação Brasileira dos Planos de Saúde (Abramge).

Aliás, o único entrevistado que aparece na reportagem é o economista-chefe da Abramge, que a certa altura “alerta” para a falta de qualidade dos serviços particulares baratos que pipocam por aí, tentando atrair a população que nem tem plano, nem quer ir para um serviço do SUS.  

De acordo com a secretaria municipal de Saúde, há hoje 7,5 milhões usuários do SUS na cidade, de uma população de 12 milhões. A prefeitura informou que planeja ampliar a rede de atendimento a partir de financiamento de cerca de R$ 800 milhões negociado com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. 

MANDETTA APRESENTA MAIS ARGUMENTOS

Luiz Henrique Mandetta disse à Folha na sexta-feira que o governo pretende rever o modelo atual de parcerias de desenvolvimento produtivo, as PDPs, que visam a transferência de tecnologia de farmacêuticas privados para laboratórios públicos. Atualmente, o ministério da Saúde tem 93 dessas parcerias. Semana passada, veio à luz a suspensão de 19 desses contratos – e, apesar de o ministro afirmar que foi algo “de rotina”, para obedecer aos órgãos de controle –, nesta entrevista fica claro que Mandetta tem um problema com o modelo em si.

De acordo com o ministro da Saúde, o cálculo do valor a ser pago nos contratos, que preveem que o laboratório que fará a transferência de tecnologia tenha exclusividade no fornecimento dos remédios, está errado. “O modelo que o Brasil está adotando mistura o preço do remédio com o preço da transferência de tecnologia (…) Vamos supor que o remédio custa R$ 100 e a tecnologia, R$ 30, e fica R$ 130. Nesse intervalo, o mercado vai e barateia o remédio. E fica o Brasil comprando a R$ 130 algo que poderia comprar a R$ 50”, afirmou ao jornal. 

E a conclusão do ministro leva mais em consideração os preços do que os benefícios da aquisição da tecnologia de produção de medicamentos pelo Estado: “Isso tem feito com que o SUS gaste muito mais do que se tivesse encomendado tecnologia e deixado o mercado flutuar.” 

Ele também aponta para um aspecto relevante: Segundo Mandetta, as investigações de órgãos como a Controladoria Geral da União têm se debruçado particularmente sobre atrasos nos processos de transferência de tecnologia. Em alguns casos, diz Mandetta, a patente da empresa privada acabaria em quatro, cinco anos – mas com o prolongamento dos prazos, essas companhias ficam “com o preço na mão”. “Quando acabar a patente, como faz? Você pagou tudo isso a troco do quê? Precisa zelar pelo cronograma”, criticou.

As mudanças que estão na pauta da equipe de Mandetta são: verificar quais produtos das PDPs em curso são de maior interesse do setor público; discutir quais outros, como a penicilina, que poderiam entrar na lista; e separar o valor pago pela transferência de tecnologia do valor dos medicamentos, o que permitiria pagar apenas pela primeira etapa por meio de outros modelos e negociar o valor dos remédios no mercado. Isso valeria para novos contratos.

BUTANTAN QUER AMPLIAR

Um dos principais laboratórios públicos do país tem planos de expansão. Isso porque o Instituto Butantan está se planejando para fornecer a vacina contra gripe para o mercado internacional. Segundo o Valor, o instituto público paulista pediu empréstimo de R$ 1,8 bilhão ao BNDES para investir em um moderno centro de produção, capaz de colocá-lo entre os grandes fabricantes do mundo.

RADICALIZAR

As cáries estão crescendo junto com o consumo de comidas e bebidas açucaradas, e isso é pior ainda em países de média e baixa renda. São números bem ruins: 95% das crianças de 12 anos nas Filipinas têm cáries; na Índia são 70%; no Brasil, mais de 30%. Não é coincidência que nesses países a indústria do açúcar gaste bilhões de dólares para se promover. E não só com marketing direto: assim como acontece com as pesquisas sobre nutrição, grandes empresas influenciam organizações de pesquisa sobre saúde bucal

“A Organização Europeia para Pesquisa de Cárie é apoiada por membros corporativos como a Mars Wrigley Confectionery, fabricante de chocolate, balas, gomas de mascar e outras guloseimas açucaradas. A Unilever, cujos produtos incluem sorvetes e bebidas açucaradas, é um membro corporativo da Associação Internacional de Pesquisa Odontológica”, diz uma reportagem da NPR que aborda este estudo publicado na Lancet. Os dentistas e especialistas em saúde pública que assinam o artigo pedem ações mais radicais contra o açúcar. A comparação é com os esforços antitabagismo: governos deveriam intervir, como na agenda global de controle do tabaco promovida pela OMS. 

A comparação com o tabaco também aparece na matéria da BBC, que não fala de cáries, mas parte daquele outro estudo sobre a relação entre o consumo de bebidas açucaradas e o desenvolvimento de cânceres.

POR QUÊ?

Os jornalistas d’O Joio e o Trigo têm escrito sobre como a indústria alimentícia no Brasil tem se posicionado na discussão sobre rotulagem frontal, que está em pauta na Anvisa – é fortíssima a oposição ao modelo sugerido pela Organização Pan-americana de Saúde (Opas), que implementaria selos de alerta para produtos com excesso de ingredientes como açúcar e gorduras. A Nestlé é por aqui uma das grandes vozes neste coro. Mas há uma coisa curiosa. No Chile, onde a rotulagem de alertas foi adotada em 2016, o discurso da empresa é o oposto. O presidente-executivo da multinacional no Chile, Leo Leiman, disse recentemente que a lei de seu país “é algo interessante, inovador, e está sendo exportada”. Ainda completou que “é uma necessidade que existe para um país exportador como Chile, para países da Aliança do Pacífico, do Mercosul, que tenhamos uma lei, um conceito comum para todos”. A reportagem questionou as assessorias de imprensa da Nestlé sobre essa duplicidade nos posicionamentos. A sede na Suíça e a filial brasileira deram respostas vagas que não esclarecem nada. A chilena não respondeu. 

DESESPERO CLIMÁTICO

Para algumas pessoas, a crise climática está afetando a saúde mental. De um jeito pesado: a matéria da Vice traz exemplos de gente pensando em automutilação e suicídio pela sensação de que tudo está perdido e fora do controle (o que não é bem verdade, embora a situação do planeta seja bem ruim). “Eu sentia que cada refeição e cada bebida que eu tomava com um canudo seria mais prejudicial do que provavelmente era, e isso me levou a parar de comer o suficiente e tomar outras decisões que prejudicavam minha saúde no geral. E isso por sua vez alimentou minha depressão com a falta de nutrição e sono, o que aumentou minha paranoia e pânico com o clima. É um ciclo vicioso”, relata uma mulher que há anos começou a ter ataques de pânico. Segundo a terapeuta Katerina Georgeau, é mais comum em quem já tem algum diagnóstico de ansiedade, como TOC. 

O MAL DOS TESTES

O mercado de testes genéticos está em expansão. No Reino Unido, centenas de milhares de pessoas já pagaram para descobrir detalhes sobre sua ancestralidade ou condições ocultas de saúde. Mas, além dos problemas relacionados à proteção de dados, há outro que diz respeito diretamente aos sistemas de saúde: os falsos positivos que levam à busca por tratamentos desnecessários. Um grupo de médicos britânicos está chamando a atenção para a necessidade de regulamentar os testes por conta disso. Há mulheres sendo incorretamente informadas de que têm mutações no gene BRCA, com alto risco de desenvolver cânceres de mama ou ovário, o que coloca uma carga cada vez maior – e inadequada – nas filas de cirurgia do NHS (o sistema de saúde britânico). No caso específico das mutações no BRCA, resultados errados são mais comuns do que os certos… 

INCLUSÃO DO AUTISMO

Falamos aqui sobre a lei sancionada na quinta-feira, que trata da inclusão de informações específicas sobre pessoas com autismo nos censos demográficos realizados a partir deste ano pelo IBGE. Na Época, Luiz Fernando Vianna escreveu um artigo interessante sobre o assunto

“O presidente assinou a sanção ao lado de sua mulher, Michelle Bolsonaro, que tem trabalhos junto a pessoas com deficiência, e do apresentador Marcos Mion, pai de um menino autista. (…) Para nós, pais de pessoas com autismo, a semana que passou foi agitada nas redes sociais. Houve quem defendesse com afinco a entrada no Censo, alegando que uma estimativa do número de autistas poderá embasar políticas públicas sobre o tema. E houve quem alertasse para o risco de as expectativas se frustrarem, já que o resultado do levantamento será impreciso e talvez prejudique a causa mais do que ajude. Marcos Mion, que assumiu o papel de representante número 1 dos pais de todo o Brasil, também foi apaixonadamente defendido e atacado. Herói para uns, oportunista para outros. Pessoas que estão há muito tempo no ativismo e que já conquistaram vitórias importantes se empenharam na busca de um lugar no Censo. Eu, que não sou ativista (por timidez, covardia ou egoísmo), admiro profundamente esses batalhadores. Mas temo que eles possam estar iludidos. Quais serão as perguntas do questionário? O senhor ou a senhora é autista? Há uma pessoa autista nesta residência? Muita gente nunca foi diagnosticada, especialmente por não haver políticas públicas que levem serviços de saúde mental a todos os cantos. Mesmo nas cidades maiores, o atendimento é insuficiente. E há gente que sabe estar no espectro, mas prefere não assumir. Está no seu direito. (…) Chuta-se que existam 2 milhões de autistas no país. E se o número apurado pelo Censo for muito inferior a 2 milhões? Vai significar que os governos devam investir menos ainda? Se for maior, será levado em conta, já que é sabidamente um dado impreciso? Nenhuma dessas perguntas é estranha para pais e profissionais que estão na luta há muitos anos. Eles já sofreram muito para ainda acreditar em panaceias. Mas pode ser uma armadilha alegrar-se com certas conquistas, ainda mais quando são interpretadas como favores. Os entusiasmados agradecimentos a Mion e ao casal Bolsonaro, publicados na internet, têm algo de constrangedor.”

SEGUNDA PESQUISA

A segunda edição da Pesquisa Nacional de Saúde, a PNS, está chegando. O levantamento será realizado entre agosto e dezembro pelo Ministério da Saúde em parceria com IBGE e deve alcançar mais de 108 mil residências de áreas urbanas e rurais, localizadas em 3,2 mil municípios de todos os estados do país. Aos entrevistados, serão feitas perguntas sobre as características do domicílio, educação e rendimento, além da situação de saúde dos residentes, como estilo de vida, doenças crônicas não transmissíveis, saúde da mulher, do homem, da criança, do idoso e da pessoa com deficiência, entre outros. Os dados da PNS serão usados para elaborar ou aperfeiçoar ações e políticas públicas.

PARA NAVEGAR

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