Às favas com a precaução

China já vacinou “centenas de milhares de cidadãos” com candidatas a imunizante que ainda estão em testes. Enquanto isso, Rússia reforça intenção de vacinação em massa em outubro, um mês depois do início da fase 3

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A Universidade de Oxford e a AstraZeneca anunciaram no sábado que receberam autorização para retomar o ensaio clínico da candidata a vacina contra o coronavírus na Grã-Bretanha. O sinal verde partiu de um comitê independente da agência sanitária britânica (MHRA), mas não há muitos detalhes sobre a voluntária com mielite, fato que levou à suspensão dos testes no dia 6 de setembro. 

A Anvisa e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) também deram autorização para que a fase 3 seja retomada hoje por aqui

Na sexta, o governo da Bahia anunciou a assinatura de um acordo de cooperação com o Fundo Soberano da Rússia que assegura 50 milhões de doses da Sputinik V. O comunicado da secretaria estadual de Saúde reforça o discurso ‘otimista’ sobre as vacinas que tem provocado bastante desinformação, dando um prazo insólito – novembro – para o início da distribuição. O fato de a secretaria reconhecer que é necessário a aprovação dos órgãos reguladores brasileiros não melhora muito: fica parecendo que, se dependesse da boa vontade dos gestores, tudo estaria resolvido, e a ‘burocracia’ de Anvisa e Conep é que atrasam a saída da crise.

Segundo o secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas-Boas, a Sputinik V “está sendo testada em cerca de 40 mil pessoas”. Mas essa é a meta, já que a fase 3 começou só na semana passada na Rússia. Em entrevista à Folha, o presidente do Fundo Soberano, Kirill Dmitriev, reforçou a correria: disse que a vacinação geral pode começar no início de outubro, assim que saírem os primeiros resultados da fase 3. Para se ter uma ideia, a vacina de Oxford começou os testes dessa fase em julho. E a possível reação adversa foi verificada que pausou o ensaio por alguns dias foi observada dois meses depois. 

Fica cada vez mais claro que os governos estão abrindo mão da precaução. Na sexta, a imprensa internacional começou a repercutir uma entrevista dada na última segunda-feira por Zhou Song, conselheiro-geral da estatal chinesa Sinopharm à rádio nacional de lá. Segundo ele, um dos dois imunizantes da empresa e a candidata da Sinovac – que estão na fase 3 de testes – já foram aplicados em “centenas de milhares de cidadãos chineses”. Ou seja, a China começou a vacinação em massa antes da Rússia – e, silenciosamente, sem registro. 

Num esforço diferente para apressar o fim da fase 3, a Pfizer anunciou no sábado que vai ampliar o escopo do teste clínico de 30 mil participantes para 44 mil

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