As 50 mil mortes e o que está debaixo do tapete

Com nova marca, covid-19 já matou mais brasileiros do que guerra do Paraguai. Mas outros 21 mil óbitos por SRAG ainda não tiveram diagnóstico

Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

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O Brasil ultrapassou no sábado 50 mil mortes por covid-19, três meses após o primeiro registro. É a mesma quantidade de brasileiros mortos na guerra do Paraguai, que durou mais de cinco anos. O mesmo número de vítimas fatais de um ano inteiro da Guerra da Síria em seu momento mais violento do século 21. É mais do que as armas de fogo mataram em 2019 no Brasil; também é muito mais do que a soma de todos os acidentes de trânsito, aéreos e navais do ano passado; mais do que as doenças decorrentes do HIV nos últimos anos. O Estadão mostra graficamente o volume de mortes pelo novo coronavírus e o de 17 tragédias que marcaram o país nas últimas décadas, como os deslizamentos de terra no estado do Rio em 2011 e o rompimento da barragem em Brumadinho em 2019. Nada é comparável à covid-19.

Entre sábado e domingo, mais 601 mortes foram confirmadas pelas secretarias estaduais e saúde, levando o total a 50.659. Quase quatro mil óbitos ainda estão em investigação. Mas, além delas, há pelo menos outras 21.289 mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) que podem ter sido causadas pelo novo coronavírus. A informação é da Lagom Data a partir de dados do Sivep-Gripe, sistema do SUS usado para notificar os casos suspeitos. Nesse montante, entram as mortes por SRAG que ainda não tiveram um diagnóstico apontado (influenza, covid-19, pneumonia bacteriana etc.). O interessante (ou suspeito, como nomeia a matéria do Globo) é que esses casos são mais frequentes justo onde há baixa prevalência de covid-19. No Mato Grosso do Sul, que tem a maior discrepância, para cada morte com diagnóstico de covid-19 há outras nove por SRAG. 

E as mais de 50 mil mortes já adequadamente diagnosticadas e atribuídas ao novo coronavírus não se distribuem por igual no território. Até agora, o vírus matou 13 vezes mais no Norte do que no Sul. “Enquanto na primeira região 45,5 a cada 100 mil habitantes já morreram pela covid-19, na segunda esse número está em 3,4 até agora. Entre os dois extremos vêm Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, com taxas que variam de 27,8 a 5,9 respectivamente”, escreve a jornalista Júlia Barbon, na Folha. Isso se deve, provavelmente, às condições de vida e moradia, ao acesso desigual a serviços de saúde, à densidade e mobilidade e à fase atual da pandemia em cada lugar.

Mas justamente nos locais mais precários, onde as chances de contágio e morte são maiores, há outras preocupações que a população precisa ter. Pesquisadores da USP e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento fizeram duas enquetes (uma em maio, outra em junho) com 79 lideranças de áreas periféricas em algumas das principais cidades do país, nas cinco regiões. Os maiores problemas vividos pelas comunidades, hoje, são insegurança alimentar e fome, que foram citados por cerca de 70% das lideranças nos dois meses. Em seguida vieram cestas básicas; trabalho e renda; falta de renda; desemprego; e acesso ao auxílio emergencial. A preocupação com o contágio pela covid-19 propriamente aparece em sétimo lugar, embora seja crescente (foi relatada por 6% das lideranças em maio, e 30% em junho). Em maio, o aumento das mortes não havia sido mencionado por elas; agora, foi relatado como preocupação por 16%.

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