O alçapão no fundo do poço

Novo secretário de Atenção Primária estreou na vida pública em 2018, quando chamou pesquisas científicas sobre aborto de ‘fake news’

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Em uma demonstração de que o fundo do poço tem alçapão, o governo Bolsonaro nomeou ontem o médico Raphael Câmara como titular da Secretaria de Atenção Primária do Ministério da Saúde. Poucas reportagens saíram na imprensa sobre o assunto. Na mais completa delas, a Folha informa que ele faz coro à ministra Damares Alves quando o assunto é transformar a defesa da abstinência sexual em política pública em um pretenso combate às infecções sexualmente transmissíveis e gravidez precoce… 

Mas o que ninguém parece lembrar (e nós não conseguimos esquecer) é que Câmara fez seu debut na vida pública nacional em 2018, quando o Supremo Tribunal Federal promoveu duas audiências públicas para debater a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. No meio de especialistas como a pesquisadora Débora Diniz e o ex-ministro José Gomes Temporão, lá estava ele. O ginecologista carioca representou o Instituto Liberal de São Paulo (ILISP) na rodada do dia 3 de agosto. Sua intervenção pode ser vista no vídeo da audiência, a partir de 1:42

Nós resumimos pra você. Um tanto esbaforido, Câmara resolveu dar uma “aula” (com direito a PowerPoint), com os objetivos de  “mostrar as mentiras” que sustentariam a descriminalização e de argumentar que a adoção do aborto legal, sim, seria “uma questão de saúde pública”. Acusou a mídia de “fake news” por repercutir números presentes em pesquisas científicas. Colocou em questão a seriedade das revistas científicas, e a das suas “mantenedoras” também. “Essas ONGs pró-aborto fazem manual para os jornalistas”, disse, emendando citação a uma matéria do Globo que teria como título ‘Intelectuais defendem lei de aborto na Argentina’. “Alguém acha que é possível eu aparecer como intelectual? Meu sonho é aparecer no Globo como intelectual. Nunca vou aparecer porque a minha causa não me faz (sic.) como intelectual”. Pois é… 

A principal bandeira de Câmara é que as estimativas sobre o número de abortos induzidos no Brasil estão erradas. E a de mortes causadas pelo procedimento feito de forma insegura, porque ilegal, também. O primeiro dado, de um milhão por ano, é do Ministério da Saúde e foi informado na própria audiência do Supremo. O segundo varia, com estimativas que vão de 70 a 11 mil por ano. Tudo isso leva em conta a subnotificação. Câmara, na sua “aula”, deu a entender que, em primeiro lugar, não há possibilidade de estimar o número de abortos ilegais – “Porque é ilegal”. E também que gostaria que se levassem em conta apenas as notificações. “O ministro da Saúde inventa”, reclamou, referindo-se a Ricardo Barros. Ligou o aumento da mortalidade materna à atuação das enfermeiras obstétricas, negou que as mulheres negras sofram racismo institucional – “Vocês estão achando que médico é quem?” –; enfim. 

Nesse momento de suspeitas sobre manipulação de números e estatísticas que recai sobre o Ministério da Saúde, a nomeação de Raphael Câmara preocupa… e assusta. Ele vai compor uma equipe recheada de militares – que nos bastidores, são acusados pelos servidores de carreira de rechaçarem explanações técnicas com argumentos tirados do senso comum – e fanáticos, como Mayra Pinheiro e Hélio Angotti Neto. Sobre esses dois, a jornalista Malu Gaspar – que acompanhou uma audiência pública feita pelo Ministério Público – relatou um tanto impressionada que ambos demonstram um pensamento persecutório em relação à ciência mundial, como se as evidências (que eles não têm) sobre a eficácia da cloroquina para o tratamento da covid-19 estivessem sendo negadas graças a um grande complô. E comemoram que o Brasil vá se tornar o maior laboratório do mundo no uso do medicamento. No caso, a população é a cobaia.

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