Passando fome

Pandemia acelera volta do Brasil ao Mapa da Fome. Problema é agravado por desmantelamento de políticas de segurança alimentar nos últimos anos

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Demorou três meses para alunos da rede estadual de educação do Rio receberem das escolas a primeira cesta básica. Depois da longa espera, a surpresa foi negativa: uma quantidade ínfima de itens. “Aqui estamos vivendo só para comer, porque não sabemos como nem quando isso vai acabar. Pensei que a cesta seria uma ajuda por mais tempo. Na escola, não disseram nada sobre uma próxima doação. Onde moro, no bairro Cosmorama, tem pessoas em situação muito pior, que chegam a passar fome”, diz, no Globo, Fábila Silva. Em sua casa, está todo mundo – ela, a mãe e o noivo – desempregado. A irmã é estudante, e a única renda da família é a aposentadoria da avó, de um salário mínimo. Como sabemos, a merenda escolar é muitas vezes a única refeição consistente a que milhões de crianças e adolescentes brasileiros têm acesso.

Essa situação tem se repetido em todo o país, e a reportagem do site da Escola Politécnica da Fiocruz explica que o nó começou muito antes da pandemia, com reduções constantes do Programa Nacional de Merenda Escolar (PNAE) desde 2014. Só entre 2018 e 2019, houve uma queda de R$ 200 milhões nas despesas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação com o PNAE. Hoje, “o prato de um estudante sai, em média, de acordo com dados no Ministério da Educação, a R$ 0,60 por dia para alunos de creches, escolas indígenas e quilombos; R$ 0,30 para alunos da pré-escola, ensinos fundamental e médio e educação de jovens e adultos; R$ 0,90 para estudantes de ensino integral. Se pegarmos o valor e multiplicarmos por dias letivos, isso deveria garantir cestas básicas nos valores de R$ 13,20, R$ 6,60 e R$ 19,80, respectivamente”, diz a matéria. É impossível. Em vez de cestas, são entregues ‘kits’ compostos basicamente com o que dá para comprar. Muitas escolas acabam fazendo ainda uma triagem das famílias em pior situação – e só elas recebem os parcos alimentos.

A volta do Brasil ao Mapa da Fome, aliás, parece não ser mais uma ameaça. “O Brasil já está dentro do Mapa da Fome. Vamos ter que fazer todo um esforço de reconstrução”, diz ao Brasil de Fato Francisco Menezes, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). A crise gerada pela pandemia tem peso inegável nisso, mas não é o único fator para o desastre, como lembra ele. Não foi só a verba para merenda escolar que diminuiu: o enfraquecimento das políticas de segurança alimentar e nutricional, o desmonte do Consea e os cortes no orçamento para a agricultura familiar são anteriores ao coronavírus e amplificam muito os problemas da pandemia.  

Se mal dá para comer, imaginem estudar. Segundo uma pesquisa do Conselho Nacional da Juventude divulgada ontem, três em cada dez jovens brasileiros pensam em deixar a escola durante a pandemia, e 49% dos que planejavam fazer o Enem cogitam desistir. E olha que foi uma enquete virtual, de modo que os 33 mil jovens ouvidos são os que têm algum acesso à internet. Entre eles, 70% disseram que seu estado de saúde mental piorou; 50% disseram que as famílias perderam renda; 40% indicaram ter diminuído ou perdido seu sustento mensal, e 33% relataram ter buscado alguma maneira de complementar esse buraco.

Em tempo: já comentamos que escolas e universidades privadas estão enfrentando altos índices de inadimplência e evasão. Pois a Universidade Nove de Julho, em São Paulo, decidiu lidar com isso da pior forma possível. Não apenas demitiu professores, como avisou a eles por meio de uma mensagem automática na plataforma de aulas online. Eles entravam para lecionar e liam o recado.

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