Não há luz alguma no túnel da pandemia

Ao superar 1 milhão de casos e 50 mil mortes, Brasil segue vítima da ausência total de estratégias contra a covid-19 e de negligência ou pilhéria do governo. Mal feito e sabotado por Bolsonaro, afastamento social pode prosseguir sem fim à vista

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AS 50 MIL MORTES

O Brasil ultrapassou no sábado 50 mil mortes por covid-19, três meses após o primeiro registro. É a mesma quantidade de brasileiros mortos na guerra do Paraguai, que durou mais de cinco anos. O mesmo número de vítimas fatais de um ano inteiro da Guerra da Síria em seu momento mais violento do século 21. É mais do que as armas de fogo mataram em 2019 no Brasil; também é muito mais do que a soma de todos os acidentes de trânsito, aéreos e navais do ano passado; mais do que as doenças decorrentes do HIV nos últimos anos. O Estadão mostra graficamente o volume de mortes pelo novo coronavírus e o de 17 tragédias que marcaram o país nas últimas décadas, como os deslizamentos de terra no estado do Rio em 2011 e o rompimento da barragem em Brumadinho em 2019. Nada é comparável à covid-19.

Entre sábado e domingo, mais 601 mortes foram confirmadas pelas secretarias estaduais e saúde, levando o total a 50.659. Quase quatro mil óbitos ainda estão em investigação. Mas, além delas, há pelo menos outras 21.289 mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) que podem ter sido causadas pelo novo coronavírus. A informação é da Lagom Data a partir de dados do Sivep-Gripe, sistema do SUS usado para notificar os casos suspeitos. Nesse montante, entram as mortes por SRAG que ainda não tiveram um diagnóstico apontado (influenza, covid-19, pneumonia bacteriana etc.). O interessante (ou suspeito, como nomeia a matéria do Globo) é que esses casos são mais frequentes justo onde há baixa prevalência de covid-19. No Mato Grosso do Sul, que tem a maior discrepância, para cada morte com diagnóstico de covid-19 há outras nove por SRAG. 

E as mais de 50 mil mortes já adequadamente diagnosticadas e atribuídas ao novo coronavírus não se distribuem por igual no território. Até agora, o vírus matou 13 vezes mais no Norte do que no Sul. “Enquanto na primeira região 45,5 a cada 100 mil habitantes já morreram pela covid-19, na segunda esse número está em 3,4 até agora. Entre os dois extremos vêm Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, com taxas que variam de 27,8 a 5,9 respectivamente”, escreve a jornalista Júlia Barbon, na Folha. Isso se deve, provavelmente, às condições de vida e moradia, ao acesso desigual a serviços de saúde, à densidade e mobilidade e à fase atual da pandemia em cada lugar.

Mas precisamente nos locais mais precários, onde as chances de contágio e morte são maiores, há outras preocupações que a população precisa ter. Pesquisadores da USP e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento fizeram duas enquetes (uma em maio, outra em junho) com 79 lideranças de áreas periféricas em algumas das principais cidades do país, nas cinco regiões. Os maiores problemas vividos pelas comunidades, hoje, são insegurança alimentar e fome, que foram citados por cerca de 70% das lideranças nos dois meses. Em seguida vieram cestas básicas; trabalho e renda; falta de renda; desemprego; e acesso ao auxílio emergencial. A preocupação com o contágio pela covid-19 propriamente aparece em sétimo lugar, embora seja crescente (foi relatada por 6% das lideranças em maio, e 30% em junho). Em maio, o aumento das mortes não havia sido mencionado por elas; agora, foi relatado como preocupação por 16%.

DEPOIS DO UM MILHÃO

Na sexta, o Brasil chegou a um milhão de casos confirmados da covid-19. Até agora, essa marca só foi registrada em outro país, os EUA. Mas, apesar do número superlativo, não temos resposta para perguntas fundamentais sobre a epidemia brasileira. Por exemplo, sabemos da subnotificação de casos, mas não há consenso sobre o quão longe os registros oficiais estão da realidade. 

O estudo com testes sorológicos que está sendo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas, por exemplo, aponta que 2,6% já tiveram contato com o vírus – taxa que, se extrapolada, poderia corresponder a seis milhões de infectados no país. Mas como o coordenador da pesquisa aponta, é arriscado fazer essa transposição: “Se o número exato é quatro, cinco, seis ou dez milhões a gente não tem como saber, porque nossa pesquisa foi conduzida em 133 cidades e não em todo Brasil”, disse Pedro Hallal ao Globo

No universo dos modelos epidemiológicos, a aposta mais recente é que teríamos chegado aos oito milhões de casos – o equivalente a 4% da população. O número é da Universidade Federal de Juiz de Fora, que vem ‘rodando’ o modelo desde março. Suas projeções são usadas pela Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, e se baseiam numa comparação com Itália e Coreia do Sul. Isso porque esses dois países testaram muito – respectivamente, o dobro e dez vezes mais do que o Brasil, que até o começo de junho só havia realizado 1,08 milhão de testes.

Mas nem tudo que está fora das estatísticas é resultado da testagem falha ou de diagnósticos inexistentes. O estado de São Paulo está, simplesmente, ignorando uma parte considerável dos números enviados pelos municípios, de acordo com apuração da Piauí. Reportagem publicada na sexta dava conta de que nos 70 dias anteriores, 11.060 casos confirmados na capital tinham ficado de fora da contagem do estado. Em Osasco, eram 1.030. Em Santos, 528… Isso se dá devido a um “atraso” na atualização dos dados. “Atraso injustificável”, critica Otavio Ranzani, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. 

A propósito: na mesma sexta que atingimos um milhão de casos o estado de SP ultrapassou as 200 mil infecções.

E um levantamento do projeto de transparência Brasil.io revela que o novo coronavírus já chegou a 85% das nossas cidades. E pior: nada menos do que 98% da população brasileira reside nesses 4.742 municípios.

Jair Bolsonaro, é claro, não se abalou diante do um milhão de casos confirmados. Na sexta-feira, ele afirmou que “se dependesse dele”, o “pessoal não teria parado de trabalhar”. Continua batendo na tecla enganosa de que a covid-19 não é perigosa para jovens, mas ao invés dos 60 anos – idade que cita habitualmente – disse que “quem tem idade 40 para baixo” tem risco ‘ínfimo’ de desenvolver complicações. 

Aliás, um levantamento do jornal O Globo mostra que, desde março, apenas 7,4% dos compromissos da agenda do presidente foram relacionados diretamente à pandemia. A médica Nise Yamaguchi, entusiasta da cloroquina, foi recebida mais vezes por Bolsonaro (4) do que o ministro interino Eduardo Pazuello (2). A única viagem relacionada à crise sanitária feita pelo presidente foi a Águas Lindas, em Goiás, onde foi visitar obras e, depois, inaugurar o hospital de campanha financiado pelo governo federal. No dia 10 de junho, ele promoveu uma reunião com todos os secretários estaduais de Segurança Pública – o que nunca fez com os de Saúde. 

A marca do um milhão de casos e das 50 mil mortes mobilizou protestos presenciais e virtuais ontem em cidades como São Paulo e Fortaleza. “A gente sabe que não são todas as mortes por covid-19 que são evitáveis, mas muitas poderiam ter sido evitadas se a gente tivesse uma atuação central e organizada de combate. Não é o que a gente vê por parte do governo federal”, disse Aristóteles Cardona Júnior, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, ao Brasil de Fato. A Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia, que também organizou os atos, lançou este mês uma campanha pela saúde do povo brasileiro. Bem forte. 

Ontem também foi dia dos tradicionais atos contrários e favoráveis ao presidente. O destaque foi para Brasília, onde torcidas e movimentos sociais foram separados pela cavalaria da PM dos bolsonaristas. O domingo terminou com o levantamento mais recente da epidemia, feito pelo consórcio de veículos jornalísticos: 16.851 infecções. Chegamos oficialmente a 1.089.990 casos.

A RETOMADA INSEGURA

Duas capitais do Sul recuaram no seu afrouxamento das quarentenas na última semana, porque a situação piorou rapidamente após a flexibilização: Curitiba e Porto Alegre fecharam novamente bares, shoppings, academias e igrejas. O movimento de abre-e-fecha observado também em outras cidades dá um nó na cabeça das pessoas e, ainda por cima, pode atrasar ainda mais a tão sonhada recuperação da economia, segundo especialistas ouvidos pelo El País. “A experiência internacional já demonstrou que, quando de fato há um relaxamento antes de uma queda acentuada e constante dos casos por vários dias, há essa volta ao isolamento e a economia sofre ainda mais”, afirma Juliana Inhasz, do Insper, completando: “Além disso, o risco é de se estender essa pandemia de uma forma absurda, de ela ficar muito mais longa do que imaginamos que poderia ser. Isso é um grande problema”.

Na véspera de o Brasil atingir a marca de um milhão de casos conhecidos, o Ministério da Saúde publicou duas portarias  com orientações para uma “retomada segura” da economia. O primeiro documento, um tanto vazio, reconhece que cabe às autoridades locais definir o momento das reaberturas, diz que os setores econômicos devem definir um “plano de ação” e justifica a necessidade de retomar atividades por conta do “adoecimento mental” que o confinamento e a “incerteza sobre o futuro” têm produzido.

As recomendações de prevenção para a população em geral são as mais básicas, como etiqueta respiratória e uso de máscaras. E a orientação para a reabertura de estabelecimentos passa longe, muito longe de ser segura: foca em triagem e monitoramento de pessoas que podem estar infectadas, medindo a temperatura (embora a maior parte das transmissões aconteça antes de qualquer sintoma ou no primeiro dia de sintomas) e não fala nenhuma vez na necessidade de testar trabalhadores, menos ainda seus contatos.

Os testes aparecem, sim, no segundo documento, que trata especificamente de orientações para os ambientes de trabalho. Mas não como uma obrigação: não deve ser exigida a testagem dos trabalhadores para retomada das atividades do estabelecimento, diz o texto. Ele foca na adequação dos ambientes (maior limpeza, distanciamento social de um metro, horários alternativos). Quanto aos funcionários de grupos considerados de risco, idosos com outras doenças devem ficar em casa ou em atividades de contato reduzido com outras pessoas, “quando possível”…

O único setor com regras mais rígidas é o dos frigoríficos, que teve medidas próprias publicadas em uma outra portaria, assinada pelos ministérios da Saúde, da Economia e da Agricultura. Também não fica estabelecida a testagem massiva, mas pelo menos o acompanhamento de sinais e sintomas de covid-19 e do afastamento imediato por 14 dias de quem tiver caso confirmado ou suspeito. Também devem ser afastados todos os funcionários que tiverem tido contato com doentes, e os afastados só vão poder retornar com exame descartando a covid-19 e se estiverem sem sintomas por mais de 72 horas.

PONTOS DE ATENÇÃO

A atividade de frigoríficos, aliás, tem sido alvo de preocupação há algum tempo. São ambientes fechados, com pouca possibilidade de distanciamento e condições muito ruins de trabalho, e se tornaram focos de surtos em vários países. No Brasil, o site O Joio e o Trigo já mostrou o papel desses estabelecimentos em levar o novo coronavírus a pequenos municípios, que têm sistemas de saúde mais frágeis.

No sábado, um frigorífico foi fechado na Alemanha depois que mais de mil empregados apresentaram diagnóstico positivo para a doença. O Exército foi enviado para ajudar nos testes, rastreamento e isolamento dos 6,5 mil trabalhadores do local. É o maior surto já registrado no país e, de tão grave, foi o maior responsável por a elevar a taxa de reprodução do coronavírus no país (o R), segundo o Financial Times. Se na sexta-feira o R era de 1,06, no domingo chegou a 2,88. Uma taxa de 2,88 significa que cada 100 pessoas contaminadas transmitem para outras 288 (ou que os mil trabalhadores infectados, se não isolados imediatamente, podem transmitir para 2.880 pessoas, e daí por diante).

E NA AMÉRICA LATINA, DOIS MILHÕES

Ontem foi o dia com o maior aumento de casos da covid-19 no mundo desde que começou a pandemia. Foram 183 mil, sendo o continente americano responsável por quase metade das novas infecções registradas. A América Latina tem se “destacado”: no sábado, alcançou os dois milhões de registros. E numa velocidade galopante: levou 20 dias para que o primeiro milhão dobrasse. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, vaticinou na sexta: “A pandemia está se acelerando“.

O Brasil, óbvio, é quem puxa esse cordão. Atrás, vem o Peru, segundo país latino-americano com mais casos da doença – e que na sexta-feira ultrapassou a Espanha, alcançando com mais de 250 mil. Se desenrola por lá uma grande crise de abastecimento de um insumo fundamental: o tanque de oxigênio. Hospitais pedem que as pessoas levem seus próprios tanques. Desesperadas, famílias peruanas se endividam para conseguir comprar no mercado ilegal, no qual os preços podem ser dez vezes maiores. Segundo o Ministério da Saúde, há um déficit de 180 toneladas de oxigênio e serão necessários US$ 28 milhões para normalizar as coisas. Uma proposta de criminalização sobre estoque e especulação com suprimentos médicos foi encaminhada pelo governo ao parlamento. 

O Chile é o terceiro país mais afetado pela pandemia, com mais de 230 mil casos. Por lá, o sistema de saúde também está à beira do colapso devido ao crescimento exponencial de casos da doença: em um mês, foram 180 mil. De acordo com especialistas entrevistados pelo Globo, o problema por lá se deve à falta de uma estratégia focada na vigilância. O governo federal teria dado atenção somente à assistência, com compra de equipamentos e reforço dos hospitais, deixando de lado o acompanhamento dos casos em periferias, por exemplo.

Entre os países que estão acelerando as taxas de infecção latino-americanas atualmente está o México. O país, que nos últimos dias está atrás só do Brasil nos recordes de casos diários, tem 170 mil infecções e 20 mil mortes. E, no sábado, a Argentina alcançou as mil mortes por coronavírus. O país, com atualmente 41 mil casos, vê sua curva aumentar principalmente na região metropolitana de Buenos Aires.

A propósito: a Anvisa prorrogou por mais 15 dias a restrição da entrada de estrangeiros no Brasil, que começou em 22 de maio. 

‘PROVISÓRIO ETERNO’

O Conselho Nacional de Saúde aponta que 66% dos R$ 39 bilhões destinados à pandemia seguem parados no Ministério da Saúde. A pasta vai pior no gasto do dinheiro reservado para comprar equipamentos e insumos – 75% de R$ 11,4 bi sequer se transformaram em pedidos de compra, primeira etapa da execução orçamentária. 

Mas há problemas com o que já havia sido programado: uma compra de 12 milhões de testes rápidos, anunciada no fim de abril, está travada por suspeitas de irregularidades. Outra, de R$ 3,2 milhões, negociada ainda na gestão Mandetta com uma empresa que já foi proibida de fazer negócios com o setor público, foi questionada pela Controladoria Geral da União (CGU) e teve o valor retificado para muito, muito menos: R$ 22 mil

Aliás, os R$ 10 bilhões destinados pela medida provisória 969 continuam disputados pelo Centrão. Resumimos na sexta a informação de que o ministro interino da Saúde tinha adiado a decisão sobre os recursos. Agora, chega a notícia de que havia um acordo entre o general Eduardo Pazuello e os gestores estaduais e municipais para a partilha do dinheiro, com base em critérios objetivos como quantidade de habitantes e capacidade assistencial. Mas os partidos que agora são base do governo querem um repasse que favoreça seus currais eleitorais, e essa voracidade aumentou com a crise aberta pela prisão de Fabrício Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro.

O general Eduardo Pazuello está há quase um mês e meio no comando do Ministério da Saúde. Segundo a definição de Lígia Bahia, da UFRJ, ele é um “não ministro”, numa operação deliberada de “apagamento da tragédia sanitária e da instituição que deveria ser responsável pelas respostas“. A situação pode se estender, com Pazuello se transformando em um “provisório eterno”, já que o interino tem nomeado e discutido indicações para secretarias da pasta.

No terceiro escalão, suas escolhas também não são lá muito qualificadas. No dia 15 de junho, Pazuello nomeou como diretora uma pessoa que foi demitida do governo do Distrito Federal por suspeita de fraude em licitação. Trata-se de Andressa Bolzam Degaut, que se defende dizendo que foi “boi de piranha” no caso.

O general também tem um plano para os hospitais e institutos federais no Rio de Janeiro: pretende redefinir as atribuições da superintendência que coordena essa rede no estado, dando mais poder a ela

QUASE NADA

Desde que o primeiro caso de covid-19 foi registrado no Brasil, a Funai só gastou R$ 6,6 milhões em medidas para proteger a população indígena, segundo o Brasil de Fato. O valor representa 1,18% do orçamento anual do órgão. Ele não engloba serviços como tratamento e assistência médica (estes ficam a cargo da Sesai, secretaria do Ministério da Saúde), mas sim gastos com cestas básicas, produtos de higiene e limpeza e equipamentos de proteção individual. Quando se divide o total pelos 800 mil indígenas que vivem no país, dá um gasto de R$ 8,35 por pessoa.

Para Luiz Eloy Terena, representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Funai poderia utilizar mais recursos com outras finalidades: “Poderiam colocar bloqueios nas terras com presença de índios isolados, combater o garimpo e desmatamento ilegal e perfurar poços nas áreas que não têm acesso à água, especialmente nos territórios dos povos Guarani e Kaiowá”. Mesmo as cestas básicas começaram a chegar muito tarde. O Outra Saúde já mostrou como indígenas precisaram se organizar autonomamente para garantir isolamento, comida e campanhas de prevenção.

Quando se trata de acesso a serviços, o panorama continua muito ruim. Na semana passada o Mato Grosso do Sul registrou a primeira morte de um indígena, em Dourados. Em sua aldeia, a Bororó, mais de 50 pessoas estão com sintomas de covid-19. E o único posto de saúde da região tem só um médico e um enfermeiro para atender a 17 mil indígenas.

De acordo com as organizações indígenas, que desde o começo da pandemia têm feito um mapeamento próprio, já são 110 os povos atingidos; houve mais de sete mil indígenas infectados e 332 mortos. Os números da Sesai, que englobam apenas os indígenas aldeados e os territórios regularizados, contam quatro mil contaminações e 117 óbitos.

FRUTOS DA ESCASSEZ

Nas UTIs públicas, morre-se duas vezes mais por covid-19 do que nas privadas, segundo um levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Com base em informações de quase 14 mil pacientes, verificou-se que a mortalidade nas unidades privadas ficou em 19,5%, enquanto, nos hospitais públicos, chegou a 38,5%.

Não se tratade uma diferença na qualidade do atendimento, mas, principalmente, da demora de acesso dos pacientes aos serviços no SUS. Com o tempo passando, a condição se agrava e, com isso, as chances de sobreviver diminuem. Um dos critérios que indicam a gravidade é uma pontuação chamada SOFA; nas UTIs públicas, essa pontuação foi de em média 5,7 – quase o dobro dos 3,1 pontos verificados nos hospitais particulares. Mais uma mostra de que os doentes do SUS chegam à UTI em estado pior é o percentual deles que precisa de ventilação mecânica: 66,5%, contra 36,8% nos serviços privados. 

As filas de espera por leitos de UTI são determinantes para esses desfechos, e isso tem tudo a ver com a discussão sobre a fila única que temos feito há muito tempo no Outra Saúde. Enquanto pacientes do SUS morrem ou têm seus quadros agravados durante a longa espera, sobram leitos particulares. A Época mostra o caso da família do comernciante Fábio dos Santos. Para não vê-lo morrer na fila, eles decidiram interná-lo por alguns dias num hospital privado. Não faziam ideia do quanto isso poderia custar. Fábio precisou ficar em UTI, mas, depois de uma semana, não sobreviveu. Agora, resta uma conta impagável de R$ 170 mil.

PELO RALO

O Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército já gastou mais de RS 1,5 milhão para ampliar em cem vezes sua capacidade de produzir cloroquina, segundo um levantamento da Repórter Brasil. Foram ao menos 18 acordos para a compra de cloroquina em pó e insumos de fabricação, como papel alumínio e material de impressão. Tudo sem licitação, e tudo servindo para nada em relação ao controle do coronavírus no Brasil, já que não há nenhuma evidência da eficácia do remédio. A não ser que tenhamos um grande boom nos pacientes de malária, lúpus e reumatoide – condições para as quais a cloroquina realmente serve –, terá sido dinheiro jogado fora.

Em tempo: até os Estados Unidos suspenderam seu estudo governamental sobre a hidroxicloroquina.

NÃO É SEGUNDA ONDA

A Casa Branca informou ontem que está se preparando para uma possível segunda onda nas infecções nos EUA. Segundo uma reportagem do New York Times republicada pela Folha, o número de casos no país cresceu 15% nos últimos 15 dias, com 12 estados batendo recorde de novas infecções na semana passada. Mas se referir a isso como uma “segunda onda” é errado segundo as próprias autoridades sanitárias do país. “Você não pode falar de uma segunda onda porque ainda estamos na primeira. E queremos acabar com ela. Depois veremos se conseguiremos manter a situação assim”, disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, ao Washington Post.

Ele prosseguiu: “O que eu gostaria de ver, seja numa região, estado ou cidade, é que a porcentagem de testes positivos para a infecção continuasse a diminuir e diminuir até chegar a um dígito. Quando chegarmos nesse ponto, então podemos achar que há um bom controle de modo que, no caso de uma nova onda de infecções, você consegue evitar que ocorra um ressurgimento de muitos, muitos casos mais”.

O presidente Donald Trump já anunciou que pretende fazer menos testes para encontrar menos casos. O fato é que, neste momento, sua popularidade vai mal. E um belo termômetro disso foi o retorno de sua campanha eleitoral em Tulsa, no estado de Oklahoma, que vem batendo recordes de casos diários. Eram esperadas 20 mil pessoas, mas metade da arena ficou vazia.

Mesmo com um público muito abaixo do esperado (o que parece ter sido obra de uma sabotagem de internautas), há preocupação sobre o que comícios do tipo podem representar para o espalhamento do coronavírus. Seis membros da equipe de campanha de Trump que trabalhavam nos preparativos receberam diagnóstico positivo, e só eles foram afastados. O governo jogou para seus apoiadores a responsabilidade pela própria contaminação. Ao comprar ingressos para entrar na arena, eles tinham que assinar um termpo de compromisso: “você reconhece que existe um risco inerente de exposição à covid-19”, dizia o texto. Se eles saem do evento espalhando o vírus aos quatro cantos, isso não parece ser um problema.

AINDA WEINTRAUB

Além de sair desabalado do Brasil rumo aos EUA, um dos últimos atos de Abraham Weintraub como ministro da Educação foi autorizar o ensino a distância para cursos da saúde. Agora, os conselhos federais da área se organizam para entrar com ações na Justiça pedindo a revogação da portaria 544, editada terça-feira passada. 

Para reduzir parte do estrago feito pelo ex-ministro será necessário mais protagonismo na resposta à pandemia. “O MEC tem sido praticamente ausente na manutenção de aulas remotas e na definição de protocolos de retorno às aulas, e —fato considerado mais grave— não criou qualquer linha de financiamento para mitigar os efeitos da pandemia”, nota Paulo Saldaña.

Agora, quem responde pela pasta interinamente é Antonio Vogel, que exercia o cargo de secretário executivo do Ministério. Mas há uma linha de apostas que vai de encontro ao olavismo, segundo a qual Weintraub seria substituído por alguém ligado à área da educação

 A propósito: o senador Fabiano Comparato (Rede-ES), que tinha pedido ao STF a apreensão do passaporte de Weintraub enquanto durar o inquérito das fake news, desconfia que o ex-ministro tenha fugido da Justiça. E a sociedade civil tenta pressionar embaixadores para que o ex-ministro não assuma a vaga no Banco Mundial

OCULTAÇÃO DE INFORMAÇÕES

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, diz o slogan bíblico adotado por Jair Bolsonaro ainda em sua campanha eleitoral, forjada sobre notícias falsas. De lá para cá a frase é repetida em todas as oportunidades, mas o empenho de Bolsonaro para reduzir o acesso à verdade só faz crescer. Desde janeiro de 2019, foram ao menos 13 medidas para dificultar ou sonegar informações, segundo um levantamento feito pela Folha. Entre elas está a intenção de esconder mortos pelo SARS-CoV-2. Mas teve mais: o governo tentou mudar duas vezes a Lei de Acesso à Informação, esconder pesquisas da Fiocruz sobre drogas e retirar dados de violência policial do anuário de direitos humanos, por exemplo.

Por falarem acesso à informação, algo importantíssimo para entender a dinâmica da doença no Brasil e formular políticas de combate está sendo deixado de lado por secretarias estaduais de saúde. Só oito das 27 unidades da federação divulgam dados sobre a raça/cor dos mortos e infectados.

MOVIMENTAÇÕES

O agora ex-advogado de Flávio Bolsonaro, Frederick Wassef, deu declarações à Folha no sábado. Investiu na versão de que tudo não passa de uma “armação para incriminar o presidente”. Não explicou de que forma Fabrício Queiroz ter sido encontrado em um imóvel seu poderia ser uma armação, mas deu a entender que “seu escritório estava em obras” e “vazio”. 

A história, que nem chega a ser história, não para em pé. E quem sabe disso é o Centrão. À coluna de Mônica Bergamo, líderes das legendas reconheceram que está difícil sustentar uma defesa convincente. Para fidelizar essa base contra o andamento de um processo de impeachment, o Planalto prevê que terá de entregar ainda mais verbas e cargos de maior relevância no governo. Outro líder que preferiu se manter no anonimato disse à Folha que “se a situação de Bolsonaro se agravar muito, não adianta dar cargos e liberar emendas”, pois no fim, “todos sempre acabam abandonando o governo”.

Ainda na sexta-feira, o Planalto enviou em uma espécie de missão diplomática os ministros Jorge de Oliveira (Secretaria-Geral) e André Mendonça (Justiça) à São Paulo, para uma conversa com Alexandre de Moraes, que relata alguns dos inquéritos mais preocupantes para o governo. Ministros do STF avaliam, reservadamente, que a movimentação foi inadequada do ponto de vista institucional: deveria ter sido feita em direção ao presidente da Corte, Dias Toffoli, para não passar a impressão de que os emissários eram “advogados de defesa do presidente”. Da parte do governo, Moraes teria tido uma postura “indiferente”.

Em outra frente, Jair Bolsonaro tenta, através de interlocutores como o presidente do Senado Davi Alcolumbre, se aproximar de Luiz Fux, que assumirá a presidência do Supremo em três meses. 

UM FUTURO PRÓXIMO

A tuberculose afetou a forma como os prédios eram projetados. Os arquitetos modernistas se esmeraram em projetar janelões que facilitassem a circulação do ar e a entrada da luz, condições necessárias para prevenir a transmissão da bactéria. O novo coronavírus terá impacto semelhante na arquitetura? Vários especialistas apostam que sim.  Não só em escritórios e espaços de lazer, como restaurantes, mas nas casas e até num nível macro, no urbanismo. Tudo será pensando levando em conta distanciamento e melhor aproveitamento do espaço ao ar livre, onde o vírus se dissemina com menos facilidade. “A suspensão momentânea do status quo permite que todos vejam o que é possível”, diz Georgeen Theodore, uma das fontes ouvidas pela New Yorker, que junto com clientes como universidades e museus, tem se dedicado a avaliar de que forma aulas, exposições e palestras podem ser feitas do lado de fora dos prédios com conforto.

Outro desafio que não tarda é a valorização do cuidado à saúde mental. Andrew Solomon, que ficou conhecido mundialmente pelo bestseller “O Demônio do Meio-Dia”, acredita que temos uma subnotificação “catastrófica” de depressão na pandemia. Em entrevista à Folha, ele aconselha: “É racional a sensação de que estamos vivendo tempos muito estranhos, que não poder sair de casa e encontrar pessoas é muito ruim e triste. Mas a sensação de que toda a sua vida desapareceu e nunca mais vai voltar ao normal é provavelmente fruto de uma depressão. Essencialmente, seja uma depressão que saiu do nada, como ocorre com muitas pessoas, ou uma depressão decorrente das circunstâncias atuais, as duas são muito incapacitantes. Elas são depressão e provavelmente são tratáveis. Se você está preocupado, mas ainda está conseguindo funcionar, você provavelmente está apenas lidando com o que está acontecendo. Mas se você chega a um ponto em que não consegue dormir, come o dia inteiro ou não consegue comer nada, sente uma ansiedade enorme quando se senta para fazer coisas rotineiras, tudo isso são indicações de depressão. O perigo é que as pessoas pensam que estão ansiosas porque estamos vivendo em tempos horríveis e deixam de procurar tratamento.”    

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