África, sem imunizantes, pode gerar novas cepas do coronavírus

Multiplicam-se os sinais de racismo vacinal: há menos africanos vacinados do que pessoas protegidas com três doses, no resto do mundo. Indústria farmacêutica não transfere tecnologias – e comemora lucros de mil dólares por segundo

Podemos chamar de racismo o que está sendo feito com a África em relação às vacinas contra covid-19? Matéria da revista Peoples Dispatch argumenta que há grandes indícios que sim. Mas, antes de qualificar, vamos aos fatos: apenas 142 milhões de africanos tomaram ao menos uma dose de vacina, o que corresponde a 10,3% da população. O número é significativamente menor do que as 209,7 milhões que já tomaram a dose de reforço, no mundo. Em outras palavras, países onde há amplo acesso à vacina já estão dando suas terceiras doses, enquanto a África permanece estagnada – e nem as iniciativas como a Covax estão cumprindo seu combinado de entrega de vacinas ao continente.

E isso se dá, segundo a matéria, especialmente por causa de governos de países ricos, que se recusam a cumprir suas promessas de doação de vacinas. O acordo inicial já era muito limitado: a iniciativa não oferecerá o suficiente sequer para vacinar 20% da população africana. O Parlamento Panafricano estabeleceu uma força tarefa para compra conjunta de vacinas para todo o continente, mas relatou imensa dificuldade fazê-lo mesmo por meio de aquisições.

Uma maneira de diminuir a desigualdade e acelerar a imunização no continente seria a produção local de vacinas, mas a indústria farmacêutica não parece interessada em qualquer acordo que retire seus poderes ou toque em seus lucros milionários. Os acordos firmados entre a África do Sul, tanto com a Pfizer quanto com a Johnson & Johnson, são bastante restritos, e não incluem a transferência de tecnologia para produção do IFA (ingrediente farmacêutico ativo). Permitem apenas o envase das vacinas no território africano.

“Segundo cálculos divulgados em relatório no começo de outubro pela organização Médico Sem Fronteiras (MSF), há 870 milhões de doses sem uso nos dez países mais ricos”, complementa matéria da revista da Escola Politécnica da Fiocruz. A organização critica as falhas no sistema da Covax, e a sua governança questionável e sem transparência. É bom relembrar: esse problema não é apenas de “um continente na periferia do capitalismo”. Com apenas 10% de sua população vacinada, a África pode vir a ser o novo foco da pandemia, origem de novas variantes mais perigosas. Mas enquanto a desigualdade se alarga, os lucros das farmacêuticas vão muito bem, obrigada: estima-se que Pfizer, BioNTech e Moderna, juntas, lucram mil dólares por segundo

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