Consultório na rua: para cuidar de “quem todo mundo já desistiu”

Como trabalham as 158 equipes do SUS que atendem a população – cada vez mais numerosa – em situação de rua? Em reportagem da revista Radis, o esforço diário da equipe de Manguinhos, no Rio, para socorrer os brasileiros vivendo na mais extrema exclusão

Pela carga de afeto que comporta e pela preocupação radical de democratizar a Saúde, a estratégia de atender pessoas em situação de rua com abordagem multiprofissional constitui uma das experiências mais notáveis instituídas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Ela animou a revista Radis, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, a acompanhar, em Manguinhos, Rio de Janeiro, a rotina de uma das equipes de Consultório na Rua criadas para executar aquela estratégia do SUS.

A reportagem, intitulada “No olho da rua”, conta que há, no país, 158 equipes de Consultório na Rua que luta para prestar assistência a uma população estimada em cerca de 222 mil pessoas, conforme levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A maioria, detalha o estudo do Ipea, vive em grandes cidades do Sudeste, Nordeste e Sul. Em conjunto, essa população cresceu 140% a partir de 2012. A Radis descreve algumas dessas pessoas e suas vidas terríveis. Entre elas, Camilinha (todos os nomes são pseudônimos) sofre cronicamente com a tuberculose e a depressão. Hélio preocupa pela hipertensão. Débora tem uma grave lesão ocular provocada por uma lente de contato que derreteu no olho.

Implementado em 2011 como parte da Política Nacional de Atenção Básica, o Consultório na Rua não encaminha, apenas, essas populações excluídas a uma unidade de saúde. “[É] uma equipe de saúde da família como a que atende a mim e a você”, explica Marcelo Pedra, pesquisador do Núcleo de Pesquisa Pop Rua (Nupop), da Fiocruz Brasília. A equipe de Manguinhos é formada por 11 profissionais, conforme a Radis: duas médicas, um enfermeiro, uma técnica de enfermagem, um psicólogo, um dentista, três agentes sociais ou articuladores, um assistente social e uma técnica de enfermagem. Servindo-se de uma van, seus profissionais se revezam para fazer as visitas diárias na rua.

Em três meses, chega a fazer 600 atendimentos. Na rua, constrói vínculos, pensa diagnósticos, faz todo o processo de cuidados básicos e em muitos casos até os exames preventivos ocorrem ao ar livre. A equipe mantém uma sala permanente na Clínica da Família Victor Valla, no bairro, e aí atende tanto a demanda que chega espontaneamente, quanto a que vem a partir do trabalho na rua.

Mais amplamente, opera em articulação com outras clínicas em 26 bairros na Zona Norte do Rio. Ao mesmo tempo estabelece associação com serviços das áreas de desenvolvimento social, trabalho e renda, habitação, cultura, arte e saúde mental.

Na sensível definição de Marcelo Pedra, as equipes de Consultório na Rua são uma singularidade na Saúde. “Ela insiste no cuidado quando todo mundo já desistiu”. O acesso ao SUS e o vínculo, diz ele, são os dois aspectos relevantes do trabalho das equipes – verdadeiras “produtoras de cidadania”, para uma população fortemente invisibilizada. Com suas imensas dificuldades, ainda assim o SUS faz diferença, e a experiência de Consultório na Rua efetivamente produziu acesso onde a exclusão é mais radical.

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