Avanços e limites dos medicamentos contra covid

Pfizer é segunda empresa a desenvolver fármaco que pode evitar sobrecarga dos sistema de saúde. Mas acordo de cessão parcial de direitos é visto como insuficiente pelos Médicos sem Fronteiras…

Polêmica e politicamente tensa, a busca das grandes empresas globais por tratamentos que evitam internações e procedimentos hospitalares mais complexos está dando frutos. A última novidade nesse campo veio com o fármaco Paxlovid, em fase final do processo de aprovação. Sua fabricante, a Pfizer, acaba de fazer acordo com a organização MPP (Pool de Patentes de Remédios) da OMS (Organização Mundial de Saúde) que irá permitir a fabricação do remédio com fórmula genérica, especialmente em países de baixa renda.

O Paxlovid é tomado por via oral e em casa, com muito menos desconforto para os pacientes. Ao evitar hospitalizações, pode poupar e estrutura de saúde frágil de muitas regiões. A concessão da Pfizer, voltada principalmente aos países pobres, também se estenderá, provisoriamente, a nações de renda média e de média-alta renda enquanto a OMS mantiver o estado de emergência em relação à pandemia. Impressiona a Pfizer ter chegado ao seu produto logo após a Merck ter criado o Molnupiravir, com base no mesmo processo biológico e também administrado por via oral.

Ambos inibem a reprodução do vírus por meio de substâncias chamadas inibidores de protease. O Paxlovid, tomado por via oral, parece ainda mais eficiente, evitando a hospitalização de 89% dos pacientes, contra 50% no caso do Molnupiravir. A Merck também fez um acordo com o MPP, considerado um pouco menos abrangente do que o da Pfizer, que incluiria mais países de renda média-alta.

As práticas dos grandes laboratórios globais sempre foram alvos de críticas. As empresas enfrentam questionamentos políticos. “Os acordos de licenciamento feitos por corporações farmacêuticas”, reagiu agora ao acordo da Pfizer a organização Médicos sem Fronteiras, “criam incertezas e segmentação para a produção e fornecimento de genéricos. Continuam a ser parte do problema, e não de uma solução real”. Além disso, o uso do Molnupiravir, por exemplo, poderia levar ao aparecimento de mutações, afirmaram recentemente virologistas importantes.

Essa disputa é especialmente séria já que o alto preço dos tratamentos – apesar dos vastos recursos públicos que as corporações recebem dos Estados – tende a excluir grandes parcelas da população. Esse fato histórico não se altera com acordos de cessão voluntária dos direitos, que sempre impõem muitas restrições ao acesso aos medicamentos. Mas a produção de conhecimentos novos é um fato de grande relevância para a perspectiva de enfrentamento dessa e de outras epidemias que afligem as populações globais. Até porque podemos ter de conviver com a covid por longo tempo.

É essa expectativa que anima a Unitaid, a agência global de saúde que criou o MPP há dez anos. Seu propósito é, pontua seu diretor, Philippe Duneton: “garantir licenças que aceleram o acesso a tratamentos de qualidade para pessoas em ambientes com recursos limitados. Esse acordo pode nos ajudar a alcançar mais pessoas mais rapidamente.” A pesquisa brasileira também avança nessa direção, conforme anunciou o Instituto Butantan ontem, ao iniciar os testes do seu novo soro anticovid em pacientes humanos. O primeiro paciente testado deu bons resultados, informa o instituto.

O soro introduz no organismo dos pacientes anticorpos de defesa produzidos previamente em animais. O soro é um tratamento posterior à infecção, e não uma vacina, que previne a doença induzindo a produção de anticorpos pelo próprio organismo do paciente. Segundo Ana Marisa Chudzinski, Diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan, o objetivo é usar o tratamento em pacientes que estejam infectados com o coronavírus e evitar que a doença se desenvolva para a forma grave e, portanto, reduzir as hospitalizações.

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