A vacinação de adolescentes em Betim

Prefeito da cidade da Grande BH anuncia que vai direcionar vacina da Pfizer para estudantes de 12 a 14 anos e põe fogo na discussão sobre falta de critérios para a imunização no Brasil

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A prefeitura de Betim, na grande Belo Horizonte, anunciou que vai vacinar estudantes de 12 a 14 anos da rede pública municipal com doses recebidas do imunizante da Pfizer, único já aprovado para essa faixa etária. O objetivo é “garantir a volta às aulas 100% segura”, disse o prefeito, Vittorio Medioli (PSD), ao Estadão.

Na prática, a decisão está bem desconectada das necessidades mais urgentes da população e evidencia que, às vezes, o limite entre a autonomia dos municípios e a completa desordem pode ser tênue.

A epidemiologista Carla Dominguez, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, vai diretamente ao ponto no G1: “A bagunça está generalizada totalmente no país. Não tem nenhum critério, cada um fazendo o que pensa”. Ela também afirma: “[É] desperdiçar doses. Essas vacinas estão sendo distribuídas para vacinar grupos com comorbidade, a população acima de 50 anos – que efetivamente é o grupo que tem maior risco de adoecer, ter complicação e óbito. Sequer terminou esse grupo [em Betim] e já está indo vacinar adolescente, que é o grupo com menor risco”. O município está vacinando pessoas de 59 anos.

Medioli argumenta que “esses meninos são os maiores vetores e são assintomáticos”. Mas as evidências não apontam que essa faixa etária seja a que mais transmite a doença, e, embora alguns estudos indiquem que a vacina da Pfizer reduz a transmissão, esse nem é o objetivo da vacinação nesse momento.

Ainda segundo o prefeito, os alunos “estão na faixa etária do maior índice de analfabetismo funcional e já perderam um ano inteiro“. Nisso, concordamos. Porém, a escolha por focar a resolução do problema na imunização dos adolescentes parece se apoiar na ideia – que em alguns ambientes é senso comum – de que as crianças só deveriam poder voltar às salas de aula quando vacinadas.

Sem entrar na discussão sobre protocolos que de fato permitem um retorno seguro (com ênfase em ventilação e boas máscaras), ressaltamos que experiências no mundo todo têm mostrado como a melhor maneira de proteger o ambiente escolar é protegendo a comunidade. Seja com medidas não-farmacológicas de controle do vírus, seja com a vacinação, mesmo quando só de adultos: como já comentamos aqui, a experiência de outros países mostra menos adolescentes adoecendo quando adultos são vacinados em massa. 

A propósito: o calendário de vacinação do Exército está correndo mais rápido que o da população em geral. A Folha diz que, em Brasília, já foram convocados militares da ativa de 43 anos, enquanto a imunização de outros moradores com 50 a 59 anos tem sido adiada por falta de doses. De acordo com as notas técnicas do Ministério da Saúde, as Forças Armadas estão nos grupos prioritários, mas só podem ser incluídos os militares que atuem na linha de frente.

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