Uma terapia contra o vírus e seu preço assustador

Um coquetel de anticorpos monoclonais da corporação Regeneron ajuda os pacientes cujo sistema imunológico não reage contra o vírus. Reduz mortalidade em 20%. Fabricante estabelece preço R$ 15 a 25 mil por tratamento

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SÓ NA HORA CERTA

Pela primeira vez, o Recovery – maior ensaio clínico do mundo para testar terapias contra a covid-19 – mostrou que um tratamento que combate diretamente o vírus pode evitar a morte de pacientes hospitalizados. Trata-se do coquetel de anticorpos monoclonais da Regeneron, que já mencionamos várias vezes por aqui. O Recovery já havia apontado redução na mortalidade pelo uso de esteroides, mas eles não combatem o SARS-CoV-2, e sim neutralizam a resposta excessiva do sistema imune ao vírus. 

O estudo envolveu mais de nove mil pacientes e a terapia não serviu para todos os casos: apenas para quem ainda não havia produzido seus próprios anticorpos. Nesse caso, as mortes foram reduzidas em um quinto e a duração média da internação caiu de 17 para 13 dias. 

A descoberta deve influenciar a decisão dos médicos sobre quando usar ou não essa terapia. Se, a ser internado, um paciente tiver resultado positivo para teste de anticorpos, não vai se beneficiar; mas, se o resultado for negativo, o tratamento aumenta suas chances de sobreviver.

Até agora, pesquisas haviam mostrado que, quando administrado no início do curso da doença, o coquetel evita a necessidade de hospitalização. No entanto, ainda não haviam evidenciado benefícios para quem já estava internado.

No Brasil, ele foi autorizado pela Anvisa em abril para uso em pacientes ambulatoriais que tivessem risco de progressão para a fase grave da doença.

O maior desafio para seu uso continua sendo o custo. “Estimo que um único tratamento com Regn-CoV2 pode custar algo entre R$ 15 mil e R$ 25 mil. Isso é muito limitante para nossa realidade em relação aos custos e ao enorme número de novos casos”, estimou no Estadão, ainda em abril, o professor da USP Adriano Andricopulo.

DE INTERESSE

Há uma nova variante de interesse no radar da Organização Mundial da Saúde, e vem aqui de perto. Em seu boletim semanal, a OMS tratou da Lambda, que foi identificada no Peru em agosto do ano passado. A cepa vinha sendo monitorada e ganhou a nova classificação ontem. Segundo o documento, ela tem sido associada a taxas substanciais de transmissão na comunidade em vários países, com aumento da prevalência ao longo do tempo junto ao aumento da incidência de covid-19. Até agora, foram encontradas amostras dela em 29 nações, a maioria na América do Sul.

O governo peruano diz que 81% dos casos relatados desde abril são da Lambda; na Argentina, em maio, ela foi responsável por 37% das amostras sequenciadas; no Chile, está em 32% dos casos sequenciados nos últimos 60 dias, com uma proporção semelhante à da variante Gama, que surgiu primeiro em Manaus (33%) e muito superior à da Alfa, identificada no Reino Unido (4%).

Ainda segundo a OMS, essa variante tem uma série de mutações com implicações fenotípicas suspeitas, como um potencial aumentado de transmissibilidade ou possível aumento da resistência a anticorpos neutralizantes. No entanto, as evidências sobre a extensão do seu impacto são limitadas até o momento.

TRAGÉDIA MAIS DO QUE ANUNCIADA

Duas cartas entregues à CPI da Covid mostram que a White Martins já alertava o governo do Amazonas sobre o risco de desabastecimento de oxigênio medicinal seis meses antes do colapso no estado.  Em 16 de julho, a empresa informou que trabalhava “sob a máxima capacidade” e defendeu ser “imperioso” que as autoridades levassem em consideração o aumento do consumo, aditivando em 25% o contrato.

Números apresentados na comissão pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM) mostram que o contrato previa o fornecimento mensal de 250 mil m³ de oxigênio mas, àquela altura, a empresa já estava antecipando volumes contratados para meses seguintes, chegando a fornecer 413 mil m³. 

O primeiro alerta foi ignorado pelo governo do Amazonas. Isso levou a White Martins a fazer novo contato, em setembro, quando o consumo já tinha aumentado mais um pouquinho, para 424 mil m³. “Reiteramos e pedimos urgentes medidas, para não haver fornecimento sem cobertura de saldo contratual”, destacou a multinacional. Mais uma vez, ficou sem resposta. 

Em seu depoimento ontem, o ex-secretário estadual de Saúde Marcellus Campêlo confirmou os contatos. Cínico, respondeu que, mesmo que o pedido da empresa fosse atendido, o acréscimo de 25% “não faria frente à demanda”. 

Em novembro, o consumo já havia chegado a 582 mil m³. Foi só no dia 23 daquele mês que a secretaria concluiu documentação para resguardar a compra de quantidade extra do insumo com a White Martins. O Departamento de Logística da pasta era favorável a um aditivo de 46,9% – o que foi negado pela Secretaria de Gestão Administrativa do Amazonas. No fim, o governo aumentou o valor do contrato com a empresa em… 25%. 

Não foi o único alerta ignorado pelo ex-secretário. Ele admitiu que a Fundação de Vigilância em Saúde o avisou sobre o crescimento de internação por covid-19 na rede privada na segunda quinzena de setembro. Mas, segundo Campêlo, foi apenas no fim de dezembro que deu para notar “que havia alguma coisa diferente na contaminação, que estava sendo muito mais rápida, no número de internações e no perfil dos pacientes que chegavam muito agravados”.

Mesmo assim, o ex-secretário afirmou à comissão que “ainda não havia sinais” da iminente falta de oxigênio no dia 4 de janeiro, quando a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, desembarcou na capital amazonense para promover o uso da cloroquina

Em 7 de janeiro, contudo, Campêlo disse que telefonou à Eduardo Pazuello para informar sobre o iminente colapso do oxigênio no Amazonas. Na narrativa do ex-ministro da Saúde à CPI, o problema só chegou ao seu conhecimento no dia 10 de janeiro, véspera do lançamento do aplicativo TrateCov.

Campêlo também mentiu sobre a extensão do colapso. Segundo ele, houve “intermitência de fornecimento de oxigênio” na rede pública estadual apenas nos dias 14 e 15 de janeiro. Na comissão, foi confrontado com vídeos mostrando a corrida da população por cilindros para os seus familiares – um deles de uma reportagem da BBC publicada em 26 de janeiro. Depois, o ex-secretário mudou ligeiramente o discurso, tentando fazer uma distinção entre a crise “no mercado” que, de acordo com ele, teria durado “20 dias”, e a situação das unidades da rede estadual – como se sua obrigação como autoridade máxima de saúde do Amazonas não fosse olhar o todo. 

O depoimento de Marcellus Campêlo teve mentiras e imprecisões – compiladas pelo Estadão Verifica –, além de evasivas. Tudo isso dito num tom meio desalmado. “O secretário é o depoente mais calmo que esteve nesta CPI, não sei se o senhor toma um floralzinho, ou se é frieza, porque eu não consigo ficar tão calma diante da situação. É revoltante”, resumiu a senadora Soraya Thronicke (PSL-MS). 

FRONT JUDICIAL

Hoje é a vez do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel depor à CPI. Ele vai à comissão amparado por um habeas corpus concedido ontem por Kassio Nunes Marques, que permite que Witzel exercite a estratégia de ficar em silêncio quando for conveniente

Além disso, a comissão deve votar mais requerimentos de quebra de sigilo, desta vez também bancário e fiscal, dos sócios de empresas que podem ter sido favorecidas pelo governo federal durante a pandemia. São elas a Precisa, firma que intermediou a venda da vacina indiana Covaxin, a Vitamedic (suspeita de ter financiado remédios sem eficácia contra covid-19) e a Apsen (fabricante de hidroxicloroquina citada por Jair Bolsonaro em conversa com o premiê indiano).

No front judicial, a Advocacia Geral da União entrou com recurso no Supremo para tentar reverter a decisão do ministro Ricardo Lewandowski que manteve a quebra dos sigilos telefônico e telemático de Eduardo Pazuello. 

E o plenário do STF pode debater a quebra dos sigilos ainda esta semana, diante de teses conflitantes que estão sendo usadas por diferentes ministros para decidir ora a favor, ora contra as quebras requeridas pela CPI. 

FORA DO ESQUEMA

A prefeitura de Betim, na grande Belo Horizonte, anunciou que vai vacinar estudantes de 12 a 14 anos da rede pública municipal com doses recebidas do imunizante da Pfizer, único já aprovado para essa faixa etária. O objetivo é “garantir a volta às aulas 100% segura”, disse o prefeito, Vittorio Medioli (PSD), ao Estadão.

Na prática, a decisão está bem desconectada das necessidades mais urgentes da população e evidencia que, às vezes, o limite entre a autonomia dos municípios e a completa desordem pode ser tênue.

A epidemiologista Carla Dominguez, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, vai diretamente ao ponto no G1: “A bagunça está generalizada totalmente no país. Não tem nenhum critério, cada um fazendo o que pensa”. Ela também afirma: “[É] desperdiçar doses. Essas vacinas estão sendo distribuídas para vacinar grupos com comorbidade, a população acima de 50 anos – que efetivamente é o grupo que tem maior risco de adoecer, ter complicação e óbito. Sequer terminou esse grupo [em Betim] e já está indo vacinar adolescente, que é o grupo com menor risco”. O município está vacinando pessoas de 59 anos.

Medioli argumenta que “esses meninos são os maiores vetores e são assintomáticos”. Mas as evidências não apontam que essa faixa etária seja a que mais transmite a doença, e, embora alguns estudos indiquem que a vacina da Pfizer reduz a transmissão, esse nem é o objetivo da vacinação nesse momento.

Ainda segundo o prefeito, os alunos “estão na faixa etária do maior índice de analfabetismo funcional e já perderam um ano inteiro“. Nisso, concordamos. Porém, a escolha por focar a resolução do problema na imunização dos adolescentes parece se apoiar na ideia – que em alguns ambientes é senso comum – de que as crianças só deveriam poder voltar às salas de aula quando vacinadas.

Sem entrar na discussão sobre protocolos que de fato permitem um retorno seguro (com ênfase em ventilação e boas máscaras), ressaltamos que experiências no mundo todo têm mostrado como a melhor maneira de proteger o ambiente escolar é protegendo a comunidade. Seja com medidas não-farmacológicas de controle do vírus, seja com a vacinação, mesmo quando só de adultos: como já comentamos aqui, a experiência de outros países mostra menos adolescentes adoecendo quando adultos são vacinados em massa. 

A propósito: o calendário de vacinação do Exército está correndo mais rápido que o da população em geral. A Folha diz que, em Brasília, já foram convocados militares da ativa de 43 anos, enquanto a imunização de outros moradores com 50 a 59 anos tem sido adiada por falta de doses. De acordo com as notas técnicas do Ministério da Saúde, as Forças Armadas estão nos grupos prioritários, mas só podem ser incluídos os militares que atuem na linha de frente.

UM CONVITE

Acontece no sábado a segunda rodada de manifestações nacionais contra Jair Bolsonaro, já confirmadas em mais de 180 municípios. Por aqui, entendemos a necessidade de ocupar as ruas e, ao mesmo tempo, a preocupação com a circulação do vírus.

Por isso, vamos conversar hoje à noite com a médica de família e comunidade Júlia Rocha, que vai falar sobre segurança e tirar todas as nossas (e as suas) dúvidas. Vai ser ao vivo, em nossa página no Instagram. Apareça e divulgue.

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