A posse do general

Cerimônia vira peça publicitária da cloroquina; agora efetivo, ministro quer kit-covid no Farmácia Popular

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Eduardo Pazuello tomou posse como ministro da Saúde. Seu diferencial, na comparação com os 47 antecessores que comandaram a pasta, é ser general da ativa do Exército brasileiro. Na cerimônia lotada de gente, Jair Bolsonaro fez festa, chamando-o de “meu colega paraquedista”, já que ambos compartilham dessa formação. A imagem não deixa de ser certeira. Quando Pazuello caiu de paraquedas no mais importante cargo do SUS, o Brasil tinha 14 mil mortes causadas oficialmente pelo novo coronavírus. Ontem chegamos a 134 mil. Quando Bolsonaro foi alçado ao mais importante cargo da República, o país não tinha uma necropolítica.

Como era de se esperar, o presidente fez da cerimônia mais uma peça publicitária da cloroquina – droga que, segundo os mais robustos estudos científicos do planeta, não tem eficácia no tratamento da covid-19, e pode fazer mal em alguns casos. Fazendo referência a um estudo obsevarcional feito pelo Mediterranean Neurological Institute em parceria com a Universidade de Pisa, Bolsonaro afirmou que “por volta de 30% das mortes poderiam ser evitadas caso fosse ministrada a hidroxicloroquina”. Lembramos que estudos observacionais não são os mais adequados para verificar a eficácia de tratamentos. O presidente  deu, mais uma vez, mostras da sua (falta de) lógica: “Aceito mesmo não sendo médico qualquer crítica a ela [cloroquina], mas por parte de pessoas que possam apresentar uma alternativa”, afirmou. Como já apontamos muitas vezes por aqui, alternativas existem – mas elas não recebem nenhum destaque por parte do governo federal. Já foi comprovada a eficácia do remdesivir, que diminui o tempo de internação, e de corticoides que diminuem mortalidade nos doentes graves. 

Mas a opção do Ministério guiado por um general obediente a Bolsonaro pode ser a de destinar ainda mais recursos públicos para medicamentos sem comprovação. Ontem, Pazuello admitiu que o chamado ‘kit-covid’, composto por hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, pode ser incorporado ao rol do Farmácia Popular, programa que disponibiliza à população medicamentos gratuitamente ou com desconto. Segundo o Estadãoo kit todo custa em torno de R$ 75. Esse valor seria totalmente subsidiado pelo governo. O jornal revelou que uma portaria sobre o tema está em estudo desde julho. 

Na cerimônia de ontem, Pazuello não deixou de citar os conselhos de secretários municipais e estaduais de saúde que dividem com o Ministério a responsabilidade de gerir o SUS. Mas a pasta, em nota enviada ao Estadão, reconhece que a ideia de incluir o kit-covid no Farmácia Popular não foi apresentada a esses gestores. A reportagem apurou que Pazuello ainda espera que a distribuição no Farmácia Popular não seja necessária, pois, para ele, a “curva” de casos da doença deve cair “drasticamente” até o fim de setembro. 

O general exaltou o número de 3,6 milhões de pessoas que, segundo o discurso governamental, estão “curadas” da covid-19. De acordo com Pazuello, é um “dos maiores índices do mundo”. É claro que isso vem acompanhado de um dos maiores índices de casos e mortes do planeta, o que naturalmente não merece a atenção do ministro, nem do presidente. Se a pasta estuda o impacto da inclusão do kit-covid no orçamento de 2021, nenhum plano para fazer frente ao tratamento das variadas sequelas causadas pela doença desponta no horizonte. Também segue sem definição o que fazer com os 13 mil leitos hospitalares criados durante a pandemia. O assunto, objeto de grande preocupação entre gestores estaduais e municipais, é tratado com evasivas.   

Pazuello, que assim que assumiu a Secretaria Executiva ainda na gestão Nelson Teich recebeu uma aula sobre o Ministério da Saúde, voltou a demonstrar desconhecimento do SUS. O ministro afirmou que o Sistema não entrou em colapso durante a pandemia, mesmo que a realidade em estados como Amazonas, Pernambuco, Maranhão e Ceará, para citar alguns, diga o contrário. Faltaram leitos de UTI. O general se referiu ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) como um “plano nacional”. E prometeu que a vacina de Oxford estará disponível em janeiro, ou antes. Quem será vacinado primeiro? Não se sabe. “Não tem nada pronto ainda, mas eu adianto ainda que o plano nacional de imunização é uma expertise do nosso país. Nós temos o maior plano de imunização do mundo em termos de área abrangida e efetivo”, disse. 

Há uma coisa sobre a qual Pazuello tem certeza: ele não quer pendurar a farda. “Reserva é uma possibilidade não é uma obrigação”, respondeu quando questionado pela imprensa.

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