No Pantanal, as terras indígenas arrasadas pelo fogo

Povo Guató já perdeu 83% do território. Socorro se concentra em áreas privadas. Brigadas do PrevFogo, em número insuficiente, tiveram redução no financiamento

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 18 de setembro. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Os incêndios no Pantanal este ano já devastaram pelo menos 83% da Terra Indígena (TI) Baía dos Guató, segundo o Instituto Centro de Vida. Foram 16 mil hectares perdidos. Na reportagem da Folha, moradores contam que precisam lidar praticamente sozinhos com o fogo: bombeiros e militares se concentram nas áreas privadas, como fazendas e pousadas, porque há acesso mais fácil, alojamento, alimentação e ajuda material (o que obviamente não é uma justificativa, mas algo a ser enfrentado). “Vieram aqui pra fazer o aceiro [faixa de terra exposta para isolar o fogo, para proteger algumas casas], mas depois embarcaram porque tinham de acudir Porto Jofre, que estava pegando fogo lá, porque lá tem hotel. E me deixaram sem  nada.”, diz diz a liderança Sandra Guató, que teve destruída toda a vegetação ao redor da sua casa. Só sobrou uma pequena horta.

Moradores de outra região da TI tiveram sorte ainda pior: os militares só chegaram depois que os moradores conseguiram salvar as casas sozinhos. A devastação causada pelo fogo – além da mata, foram perdidas roças de mandioca, cana, abacaxi, banana e outros alimentos – ainda é agravada pela falta d’água. O pequeno canal que abastece o território está quase seco, com a água enlameada disputada entre pessoas e animais. “Estamos bebendo urina e bosta dos jacarés e das capivaras. Porque não tem outra água aqui perto. Nunca secou assim. Estou com o estômago ruim, ruim, mas não tem outra água. E com essa seca, você fica o dia inteiro bebendo. Já bateu diarreia, vomitação, dor de barriga, tudo”, diz outra moradora, Antônia Oliveira. No posto de saúde não há luz e a água é armazenada em baldes.

É tudo ainda mais simbólico e triste quando se considera que os Guató são considerados o povo mais antigo da região. Ocupavam quase todo o sudoeste do Mato Grosso até começarem a ser expulsos no século passado pelo gado. Quase foram extintos. Finalmente conseguiram se reorganizar nos anos 1970, e a TI Baía dos Guató só foi homologada em 2018. 

O fogo também se espalha rapidamente por outras TIs do Pantanal: quase metade das áreas indígenas regularizadas ali já enfrentam queimadas, segundo um levantamento da Agência Pública a partir de dados de satélite do Inpe. Em vários dos locais incendiados, os focos surgiram e se multiplicaram primeiro em propriedades privadas – e parte deles começou em em áreas de reserva legal e de mata nativa de donos de terra, que, por lei, precisam ser preservadas. Foi exatamente assim que começaram os incêndios nas terras dos Guató. A reportagem também denuncia a falta de apoio dos indígenas para conter o fogo. Segundo as fontes ouvidas, além do Corpo de Bombeiros deveria haver muito mais brigadistas. As brigadas fazem parte do Programa Brigadas Federais do PrevFogo, do Ibama, mas entre 2019 e 2020 o governo federal reduziu em 58% a verba destinada a ele.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos