A confirmação da ignorância e da irresponsabilidade

Festival de erros: infectado pelo novo coronavírus, Bolsonaro tira máscara perto de repórteres, Secretaria Geral da Presidência mente sobre protocolos e ministros fazem teste errado

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Jair Bolsonaro escolheu um punhado de emissoras de televisão parceiras para fazer o anúncio de que, sim, está com a covid-19. Aos jornalistas da CNNRecord e TV Brasil ele assegurou: “Confesso a vocês, estou perfeitamente bem. Estou tomando medidas protocolares, para evitar contaminação de terceiros”. A entrevista aconteceu naquele formato em que os jornalistas seguram os microfones, bem próximos do presidente. Ao final, ele pediu às equipes que continuassem filmando. “Espera um pouco que vou afastar aqui para vocês verem minha cara”, afirmou, se distanciando alguns metros. E retirou a máscara de proteção do rosto. O objetivo? De acordo com ele, mostrar que está “tranquilo”.

No anúncio (e ao longo do dia), Bolsonaro acionou o discurso de sempre, minimizando a pandemia. Mas as ações do presidente são mais eloquentes. De acordo com o Ministério da Saúde, o que deveria fazer Bolsonaro, ou “qualquer cidadão brasileiro”, como ele gosta de frisar? Com sintomas, evitar contato com outras pessoas. Diagnosticado, e com sintomas leves, isolar-se em casa.  Jamais tirar a máscara em espaços públicos. Não há nada que o presidente tenha afirmado na entrevista que não pudesse ser dito em uma transmissão pelas redes sociais – que é, aliás, a forma como ele se comunica semanalmente com seus apoiadores. A entrevista serve a outro propósito: tem uma carga simbólica. Reforça a narrativa de que as medidas de isolamento não passam de “exagero” e coloca os jornalistas na posição de cúmplices da irresponsabilidade. 

A Associação Brasileira de Imprensa e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) consideram que houve conduta criminosa por parte do presidente. Segundo a ABI, que pretende entrar com uma notícia-crime no Supremo, Bolsonaro infringiu os artigos 131 e 132 do Código Penal e colocou a saúde de terceiros em perigo. Já Freixo vai acionar o Ministério Público Federal para que o presidente responda por crime contra a saúde pública. Para criminalistas ouvidos pela BBC Brasil, a conduta é reprovável, mas não preenche os requisitos para sustentar um processo penal.

Mas tem mais: a Secretaria-Geral da Presidência da República divulgou ontem um documento em que afirma que “não há protocolo médico, seja do Ministério da Saúde ou da Organização Mundial da Saúde que recomende medida de isolamento pelo simples contato com casos positivos”. É mentira. No caso de quem esteve em contato próximo com pessoas doentes, a OMS recomenda que “o melhor a fazer é ficar em casa”. 

Já o Ministério da Saúde dá essa recomendação a familiares, mas não a colegas de trabalho que estiveram perto de quem se revelou infectado – o que diz muito sobre a situação de cerceamento da pasta sob Bolsonaro. No início da pandemia, várias empresas enviaram para casa funcionários que tiveram contato com outros contaminados. É, aliás, o que fizeram as emissoras de televisão da entrevista de ontem: afastaram as equipes que se aproximaram de Bolsonaro. E também um dos executivos que almoçaram com o presidente na última sexta-feira: Francisco Gomes, da Embraer, está seguindo o protocolo da empresa, “que prevê quarentena para qualquer pessoa que teve contato com alguém contaminado”. 

Bom senso que não se aplica à Secretaria-Geral da Presidência, que recomenda que seus funcionários adotem o isolamento apenas após o surgimento de sintomas. No Planalto já foram confirmados 108 casos – e mais de 90% deles se revelaram assintomáticos ou de pessoas que apresentaram sintomas leves. Como o número representa apenas 3,8% da força de trabalho da Presidência, o vírus ainda tem muito espaço para correr. Mas testagem em massa e rastreamento de contatos parecem ser conceitos extraterrestres para o governo. 

E, se a apuração do Estadão estiver correta, há outra obviedade ignorada por praticamente todo o governo. O jornal informa que ao menos 13 autoridades que se encontraram com Bolsonaro fizeram exames. Só que oito deles – incluindo Paulo Guedes (Economia), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Braga Netto (Casa Civil) – teriam feito testes rápidos, como são conhecidos os exames sorológicos que servem para detectar se uma pessoa contraiu o vírus no mínimo oito dias depois do início dos sintomas, não se está com ele na fase inicial da contaminação. Para isso, o exame deveria ser o RT-PCR – que foi feito por cinco ministros, incluindo gente que se abraçou ao presidente no final de semana, como Ernesto Araújo (Relações Exteriores). De posse do resultado negativo do teste rápido feito na segunda-feira (que não quer dizer nada nessa situação), Ramos recebeu pessoalmente dois parlamentares ontem, segundo a Folha

O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal emitiu comunicado pedindo que veículos suspendam a cobertura presencial no Palácio do Planalto. Por precaução, o ideal seria fazer o mesmo nos ministérios e órgãos comandados por pessoas que fizeram os testes errados. Talvez exposto, o governo tivesse de fazer por si o que não consegue fazer pelo Brasil: testar, isolar, rastrear. 

REAÇÕES

A notícia de que Jair Bolsonaro está com covid-19 rodou o mundo, é claro. O assunto foi tratado na coletiva de imprensa diária da OMS. “Todos somos vulneráveis, nenhum país está imune, nenhum indivíduo está completamente seguro”, notou o diretor-geral da Organização, Tedros Adhanom. “Ninguém é especial, todos estamos potencialmente expostos ao vírus. Sejamos quem formos, todos temos a mesma vulnerabilidade. Para o vírus, não importa se você é um príncipe ou um plebeu”, emendou Michael Ryan, diretor do Programa de Emergências da OMS. Ambos estimaram melhoras ao presidente. 

Outra pessoa que teve de lidar com Bolsonaro muito de perto na pandemia foi mais direta: “É crime quando alguém tem consciência que está com doença infecciosa e contamina o outro intencionalmente. O presidente precisa tomar cuidado com o protocolo e com seu temperamento”, constatou Luiz Henrique Mandetta, para quem Bolsonaro “passou a acreditar” na narrativa criada por ele mesmo, de que a doença não passava de gripe. Mas notou o que sempre passa desapercebido pelo presidente: o novo coronavírus não tem uma letalidade tão alta, se comparado a outras doenças, mas como contamina muita gente “é mais letal para o sistema de saúde”. 

No mundo político, os adversários usaram o caso para criticar Bolsonaro direta ou indiretamente. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, afirmou: “Este vírus não diferencia entre governantes e governados. Todos e todas estamos ameaçados e por isso os cuidados devem ser extremados. Acho que assim o entendem nossos povos que enfrentam esta tragédia com integridade e responsabilidade”. Por aqui, os rivais mais comuns do presidente – os governadores de SP, João Doria (PSDB), e do Rio, Wilson Witzel (PSC) – recomendaram que ele siga recomendações médicas e desejaram recuperação. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), foi mais enfático: “Espero que ele não utilize para cuidar da saúde nenhuma das bravatas que ele utilizou neste período. (…) A melhor forma de recuperar a saúde é não usar ideologia e política, mas o bom senso e a ciência”, afirmou.

A imprensa internacional deu ênfase à contradição. New York TimesWashington Post The Guardianlembraram que Bolsonaro negou sistematicamente a gravidade da pandemia, ou trivializou-a, e sempre se disse cético em relação ao vírus. A revista especializada Foreign Affairs deu como manchete no site: “Bolsonaro transformou o Brasil em pária da pandemia”.   

O CASO SCHWARTSMAN

O colunista da Folha, Hélio  Schwartsman, escreveu um artigo de opinião poucas horas depois da confirmação do resultado explicando ‘por que torce para que Bolsonaro morra’. Ele começa o texto citando uma doutrina filosófica, o “consequencialismo”, segundo a qual “ações são valoradas pelos resultados que produzem”. “A vida de Bolsonaro, como a de qualquer indivíduo, tem valor e sua perda seria lamentável. Mas, como no consequencialismo todas as vidas valem rigorosamente o mesmo, a morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas. Estamos?”, questiona, para citar na sequência um estudo que comentamos por aqui e, até semana passada, não havia sido revisto por pares. 

“No plano mais imediato, a ausência de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la. Isso salvaria vidas? A crer num estudo de pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP, cada fala negacionista do presidente se faz seguir de quedas nas taxas de isolamento e de aumentos nos óbitos. (…) Ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta. Bolsonaro prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida.”

O governo reagiu – e, mais uma vez, tenta lançar mão da Lei de Segurança Nacional, editada em 1983 em plena ditadura, contra a imprensa. O ministro da Justiça, André Mendonça, anunciou no Twitter que pedirá a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para ‘investigar’ o texto opinativo. Embora não tenha explicado direito, parte do argumento de Mendonça parece ser o de que Schwartsman usa as liberdades de expressão e imprensa – direitos fundamentais, mas não absolutos – para caluniar o presidente. Um pouco parecido com o episódio da charge de Aroeira, em que Bolsonaro aparece mudando o símbolo dos serviços emergenciais de saúde (uma cruz vermelha) para uma suástica. 

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, também se pronunciou. Disse que o artigo é “um ataque claro à instituição da Presidência da República” e argumentou que, no país, “foi estabelecida uma linha invisível e subjetiva onde qualquer ministro, senador, deputado ou até mesmo um apoiador que participa ou expressa opiniões ditas ‘antidemocráticas’, a responsabilidade é sempre atribuída ao presidente Jair Messias Bolsonaro”.  

O secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fabio Wajngarten, também usou a falsa comparação, mas com o agravante de que, na sua avaliação, pedir sistematicamente intervenção militar em frente ao Quartel General do Exército ou lançar fogos contra o prédio do STF é menos grave do que assinar um artigo de opinião em um jornal de grande circulação. “Desejar a morte do presidente é um ato antidemocrático e carregado de significações. Por muito menos, algumas pessoas foram presas recentemente”, disse.   

AINDA EM CAMPANHA

Além da entrevista coletiva em que tirou a máscara, Jair Bolsonaro também divulgou um vídeo ontem. Na gravação ele toma hidroxicloroquina e propaga: “Eu confio, e você?”. Mais cedo, ele havia dito aos jornalistas que se tivesse tomado a hidroxicloroquina “como preventivo, como muita gente faz”, estaria sem sintomas da covid-19, “trabalhando até”. “Obviamente poderia estar contaminando gente”, refletiu. Segundo o presidente, a sua equipe médica “resolveu aplicar a hidroxicloroquina, também a azitromicina”. A propaganda presidencial fez com que o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, gravasse um vídeo desmistificando o uso.

Lembramos que, a essa altura do campeonato, a eficácia da substância para o tratamento da covid-19 já foi descartada e seu uso proibido pela agência sanitária dos EUA – e que, diante das evidências científicas, a OMS desistiu dos testes clínicos em seu projeto de pesquisa.  

A propósito: uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina conclui que quase metade dos médicos (48,9%) relatam pressão de pacientes e familiares por tratamentos que não têm qualquer comprovação científica

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