Chile, 1973: A luz no fim do túnel vem duma Mercedes

Um revolucionário brasileiro perambula há dias por Santiago. Sua casa foi revirada. Há bloqueios militares por toda parte e sua prisão é iminente. Mas o resgate chega, em “camuflagem burguesa”. O asilo político já não parece tão distante…

Sexta parte do relato de Mário Maestri sobre o golpe no Chile. Leia a primeira, segunda e terceira e quarta e quinta

Voltei para casa. Estava imobilizado. Não via saída. Se me encontrassem, rezava para que apenas me levassem preso. Tendo militado no Brasil em fins dos anos 1960, mais do que a morte, temia a tortura. Nem tento descrever como me sentia. Não via luz no fim do túnel escuro como breu. Mas havia, sim. Logo vi os faróis piscando de um magnífico Mercedes Bens branco, que se aproximava de mim, após entrar no impasse.

Não acredita no que via. O carro parou na frente de minha casa e Guillermo Bedregal debruçou-se e me disse através da janela do carona: – Entra, companheiro. Não o via desde o dia 11. Sentei-me no banco da frente. Contou-me que era a segunda vez que vinha ao condomínio ver se eu voltara. Em sua casa estavam Sandra, minha então minha companheira, e Nara, sua irmã. Nunca pude lhe agradecer por ter possivelmente me salvado a vida. Morreu poucos anos depois, em um acidente automobilístico.

Nosso bairro se encontrava em uma região, na zona leste de Santiago, onde se localizavam conjuntos habitacionais, em geral de casas unifamiliares, habitados por empregados, trabalhadores, aposentados. Havia conjuntos habitacionais melhores e piores. Não muito longe, encontravam-se velhas e novas “ocupações” que se esforçavam para urbanizar-se, entre elas, Lo Hermida. Era uma região onde dominava a esquerda e a Unidade Popular. Terra libertada.

A norte do centro de Santiago, precisamente na Praça Itália, iniciava-se a zona dos ricos, o “bairro alto”, com destaque para a Providencia, que eu praticamente desconhecia. Era região dos “momios” – múmias -, dos “pitucos” – esnobes -, dos exploradores. O bairro era visto pelas classes populares como local de devassidão, de desregramento moral. Uma mãe de família trabalhadora não deixava uma filha adolescente ir à Providencia, sem acompanhamento.

Havia no Chile da Unidade Popular praticamente dois povos, com zonas intermediária de transição. O povo da esquerda, nós, e o povo da direita, eles. A divisão era também étnica. Em Providencia e bairros finos dominavam os jovens rúbios – loiros -, com ascendência espanhola, alemã, eslava. Nos bairros populares, imperavam os chilenos e chilenas com cabelos negros, lisos, a pele mais ou menos bronzeada. A ascendência indígena era forte nas “ocupações” e “poblaciones” mais pobres. Seus habitantes eram designados em forma depreciativa de “rotos”, rústicos, mal vestidos, etc.

Viajamos por pouco mais de meia hora, através daquelas duas cidades estranhas e opostas. Inicialmente, atravessamos parte da cidade derrotada, cruzando os bairros das classes populares e médias. Neles e mesmo no centro de Santiago viam-se apenas patrulhas militares circulando ou postadas nas esquinas. Ouvia-se ainda, vez e outro, tiros, em geral de franco-atiradores que não se rendiam. Eram raríssimos os transeuntes, de cabeça gacha, de passos apressados. O caminho era meu conhecido, por fazê-lo centenas de vezes, de ônibus, do Pedagogico da Universidad de Chile, em direção ao Centro, através das avenidas Macul, Irrazával e finalmente Vicuña Nackena.

Ao chegarmos à Praça Itália e emborcarmos a avenida Providencia, a paisagem mudou bruscamente. Entramos na cidade vitoriosa, em festa, com carros carregando bandeiras do Chile e do movimento fascista Patria y Libertad, com jovens e adultos celebrando pelas ruas. Se diria vitória da seleção nacional na Copa do Mundo. Passávamos por todos, sorrindo. Guillermo buzinava festejando, eu fazia o sinal “V” de vitória com a mão direita fora do carro. Afinal de contas, furar o cerco, enganar aquela cáfila de energúmenos era uma vitória, ainda que minúscula, na imensa derrota.

Finalmente chegamos à nossa destinação, no bairro Las Condes. A casa era, realmente, imponente, com um largo jardim dianteiro, em uma avenida com grandes moradias e pequenos palacetes. Ao entrar na casa, lembrei-me do filme “E o Vento Levou”, com as mansões de dois andares, com suas enormes escadarias no amplo hall de entrada. Encontrei Sandra, Nara e diversos outros jovens, de ambos os sexos, a quem Guillermo dera abrigo. Espaço não faltava. Nara recorda que haviam almoçado e jantado em uma mesa longa, com diversos comensais. Creio que fiquei ali apenas dois ou talvez até mesmo um dia.

A mãe de Guillermo estava à beira de um ataque de nervos, e com razão. Era quase impossível que os vizinhos, todos “momios”, não acompanhassem a estranha movimentação na moradia, desde o dia 11. E a senhora tinha recordações doloridas. Espanhola, ainda menina, de família aristocrática, fora levada por um empregado da zona republicana para o território franquista transportada, em parte, debaixo de uniformes de soldados destinados ao despiolhamento.

Guillermo e eu conversamos sobre a situação e concordamos que ela era insustentável. Guillermo distendera a corda da solidariedade até o limite que sua mãe podia aguentar. Entretanto, a senhora, uma verdadeira dama, jamais deixou transparecer a angústia em que se encontrava. Perguntei se ele podia nos deixar diante de uma Embaixada que estivesse ainda recebendo refugiados.

Guillermo respondeu-me que não era necessário. Na sua rua, havia algumas, a poucas centenas de metros! Era definitivamente a localização ideal! Sempre acreditei que a avenida se chamasse de las Naciones, inexistente no mapa de Santiago, naquela região. Certamente uma rasteira de minha memória. A moradia se localizava possivelmente na avenida Presidente Kennedy.

Guillermo insistiu que eu e Sandra fossemos bem vestidos. Escolheu-me uma sua camisa marrom de gola rolê, como se usava na época, de ótima malha. Não disse nada, mas achei que ficaria apertada. Ele era mais alto do que eu e magro. Eu estava pra lá de gordo, com os meses de desabastecimento, comendo “fideos con Pomarola” – massa com massa de tomate -, “arroz”, “porotos” e “ovitos revueltos com hallulla” – ovos mexidos com o pão chileno chato, redondo e pequeno.Em minha casa, era eu que, digamos, cozinhava, já que Sandra e Nara não se davam bem com as panelas.

Tomei um longo banho, cortei a barba rente. A camisa quase ficou grande. Subi na balança e constatei assustado que estava no mínimo uns oito quilos mas magros que no dia 11! Corpinho de bailarino espanhol, mais devido ao estresse do que à pouca comida daqueles dias.

Nos despedimos de Guillermo e de sua mãe. Nara resolveu ficar e tentar sair legalmente do país. Saímos em busca da Embaixada da Colômbia, a uns duzentos metros. Íamos com o coração na mão, pois temíamos não receber refúgio e, até mesmo, sermos presos ao tentar obtê-lo. Não foi difícil identificar o prédio, com a bandeira desfraldada e… dois pacos – carabineiros no portão. Porém, eles nem piscaram. Em verdade, tudo faziam para não serem transferidos devido a uma reclamação do embaixador para as operações arriscadas que se realizavam em Santiago.

Toquei na campainha e um oficial, com uniforme parecido ao da Força Aérea chilena, entreabriu o portão, com uma cara pouco amigável. Perguntou o que queríamos. Enquanto respondia, empurrei a Sandra pelo braço, que compreendeu o movimento, e entrou para dentro do pátio dianteiro ajardinado. E eu, atrás. Estávamos agora em território colombiano, cercado, e queria ver quem nos arrancaria dali! – pensei.

Era impressão minha. O oficial nos introduziu em uma sala muito bem mobiliada, com um tapete fofo, e nos fez sentar em duas poltronas do mais fino couro. Logo, um senhor alto, jovem, entrou por uma porte lateral e sentou-se na escrivaninha, diante de nossas poltronas.

Tomei a palavra para dizer que éramos apenas inocentes estudantes brasileiros, que procurávamos refúgio, temendo por nossa vida. Ele me interrompeu com a gentileza de um diplomata. Disse que pouco importava quem éramos, que ficássemos tranquilos, desde aquele momento gozávamos do direito de refúgio, oferecido e garantido por seu governo. Apenas queria saber se tínhamos armas e somas altas de dinheiro. No primeiro caso, era obrigado a recolhê-las, sem devolução. No segundo, faria o mesmo até viajarmos. Nos daria recibo.

Não tínhamos nem umas nem outra. Em verdade, tínhamos apenas nossos documentos e cinquenta desprezíveis dólares.

Sempre aprendi que devemos agradecer sobretudo pelo que nos é dado da mão beijada. Antes que o embaixador se levantasse, falei-lhe que, em nome de minha esposa e meu, agradecia imensamente a ele e ao governo colombiano pelo refúgio solidário que recebíamos.

Sorrindo, ele disse que, caso quiséssemos agradecer ao governo colombiano, teríamos que deixar o prédio e nos dirigir à duas ou três casas antes, pela qual havíamos passado. Ali era a embaixada do México!

Respondi-lhe que não, obrigado, quase gritando, !Y que viva Zapata!

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Um comentario para "Chile, 1973: A luz no fim do túnel vem duma Mercedes"

  1. Gostaria de saber se há continuação desse relato e se Mario Maestri pretende publicar (se não o fez ainda) um novo livro com tais relatos.

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