Chile, 1973: O armamento enguiçado da revolução

Memórias de um revolucionário brasileiro: gritos, choros e disparos ressoam em Santiago. Allende está morto. Jovens ousados (e ingênuos) de esquerda preparam-se para contra-atacar. As armas: meia dúzia de espingardas velhas

Esta é a segunda parte do relato de Mário Maestri sobre o golpe no Chile. Leia a primeira parte da série

Informado que, em uma moradia das proximidades, estava aquartelado o “grupo de combate” do MIR de meu GPM, me dirigi para lá, confiante. Tinha certeza que, armado com um AK-47, um M-16 ou coisa semelhante, que diziam abundarem na organização, estaria pronto para enfrentar o que viesse!

Não me lembro como achei e entrei na moradia onde estava aquartelado o “grupo de combate” do GPM 3, minha circunscrição de militância, onde pertencia a uma célula de bairro, com Jimena, Mário, Lucho, Roberto e um ou dois companheiros cujos nomes me escapam. E me desempenhava também como coordenador de pequeno núcleo de jovens “pobladores” – moradores. Já lá se vão 47 anos. Foram horas e dias de grande tensão. Aprendi como historiador que a memória nos passa a perna e nos engana, ao seu bel-prazer, fundindo fatos, reorganizando datas, retocando relatos que repetimos diversas vezes. Não raro transformando em realidade o imaginário.

Fui abordado pelo comandante do pequeno grupo aquartelado na moradia popular, de sala, cozinha e dois quartos. Ele era chamado por todos de “Pato Malo”. Ou seja, “Pato Malvado”, apelação muito chilena, com o significado de alguém que bordeja a delinquência, que deve ser temido. Era porém um mirista jovem, talvez menos de vinte anos, moreno e baixo, que se esforçava para inspirar segurança e autoridade. Há alguns anos, deparei-me na internet com uma foto certamente sua, entre as centenas de miristas mortos pelos militares, no seu caso, creio que nos primeiros meses da ditadura. Eu já um velho, ele, eternamente jovem. Difícil expressar a emoção que me causou.

Pato Malo me conhecia, de ouvir falar. Eram poucos os brasileiros que se integraram organicamente no MIR, e à Revolução Chilena. E eu estava ligados ao seu GPM, após militar por alguns meses no grupo do Pedagógico, onde se encontravam jovens rio-grandenses como o Marconi, o Daniel, o Taradinho, o Nílton (Bem Bolado) e o Felipe. Nilton foi morto, antes do golpe, em um confronto com organização fascista. Felipe escapou de Santiago e desapareceu em Buenos Aires, onde seguiu militando, ligado à Junta de Coordenação Revolucionária, tentativa de colaboração de organizações militaristas do Cone Sul sob duros golpes.

Pato Malo perguntou-me se tinha formação militar, antes de me aceitar no grupo. Disse que não, mas que atirava bem, de revólver e de espingarda, no que não mentia. Ainda guri, na fazenda de uma tia-avó, atirava amiúde com escopeta de caça, de dois canos, calibre 16, contra as caturritas que voavam nos pinheirais, após se saciarem nos milharais. Ao fazer 18 anos, comprara um 38 e, logo, um fuzil 22, de cano longo, carregador curto, de munição barata. Saía com ele para o campo e matava tudo que encontrava pela frente – quero-quero, joão-de-barro, chimango, ratão do banhado e por ai vai. Poupava as capivaras apenas por jamais ter me defrontado com uma. Coisa da idade e da época, que me horroriza e me envergonha ainda hoje.

Pato Malo alegrou-se com a aquisição do combatente e, sobretudo, logo compreendi, com o que o novo guerrilheiro portava. E foi ali, em forma quase imediata, que ruíram as expectativas que me levaram a procurar o núcleo armado mirista. Num rápido relance de olhos, vislumbrei o arsenal do nosso grupo, em uma mesa, junto a uma parede, sobre uma bandeira do MIR, rubro-negra, como a do 26 de Julho, cubana, que inspirava nossa direção, atrapalhada entre os sonhos guerrilheiros e a luta de classe real. Sobre a artilharia de que dispúnhamos, falo a seguir. Mas compreendi, sem delongas, os olhos grandes que Pato Mato lançava sobre meu humilde fuzil 22.

Disse-me logo que as armas eram centralizadas. E sem muito mais, avançou a mão para meu fuzil semi-automático 22, com os olhos brilhando. Desde então, se passou de um lado para o outro, com a arma na mão. E, insaciável, apontou para minha pequena Beretta 6.35, à vista em minha cintura, pois retirara o poncho ao entrar na casa. Salvou-me a presença de espírito nascida do desespero. Falei-lhe claro, com autoridade de brasileiro que vivera sob a ditadura militar, o que não queria dizer nada, convenhamos. Com voz alta, falei, para ser escutado por todos – Lei da guerrilha impede que o combatente seja despojado de todas as suas armas! Pato Malo um pouco espantado, desculpou-se. Não conhecia aquela determinação guerrilheira. E eu saí de fininho, com minha pistolinha, agora enterrada no bolso, para examinar o armamento grosso de nosso grupo.

Aproximei-me da mesa, junto à parede. Mentiria se descrevesse todas as armas em detalhes. Mas não erro no essencial. Elas se compunham de duas ou três espingardas velhas e desconjuntadas, mas ainda, creio, funcionando, e uns dois ou três revolveres também veteranos. Um deles tenho ainda diante dos olhos, ao escrever essas recordações, por me ter causado uma profunda surpresa e definido de certo modo a realidade dos fatos. Repito que, no presente relato, procuro dar uma ordem lógica às minhas lembranças, que obedeça minimamente aos sucessos que vivi naqueles dias terríveis.

Nos filmes sobre o faroeste estadunidense, que assistia nos cinemas em Porto Alegre – não havia filmes na televisão -, sobretudo quando dos esperados e emocionantes duelos, os caubóis sacavam a arma com a mão direita e a engatilhavam, batendo com o dorso da mão esquerda sobre o gatilho, para após atirarem. Não compreendia a razão do ato. Ao manipular o, acho, Colt 45, tive a resposta imediata. Havia que engatilhar manualmente, para após apertar o gatilho e disparar. Tinha diante de mim revólver de talvez meados do século 19, com três balas que seriam as avós das da minha Beretta 6.35!

Nosso grande recurso bélico eram uma dúzia, ou mais, de granadas artesanais de trotil, ou seja, TNT, estabilizadas com algum composto sólido que não me recordo mais qual fosse. No topo, tinha uma espécie de pavio, a ser acendido, antes de serem jogadas contra o inimigo. Eram fabricadas pelo próprio MIR, que almejava a auto-subsistência, me explicou Pato Malo. E, quase rindo, me informou que as granadas eram chamadas de “fifty-fifty”, já que apenas cinquenta por cento explodiam, após serem lançadas. Nos dias que seguiram, até minha desmobilização, em uma Santiago já totalmente subjugada pelo golpe, portei comigo minha pistola, minhas quatro balas e três daquelas granadas, que pareciam velas brancas de cera, na cor e na dimensão.

Perguntei ao Pato Malo por que o grupo não estava melhor armado, já que tudo, há meses, apontava para o golpe. Se eu conseguira duas armas funcionando, por que eles não haviam feito melhor. Disse-me que as melhores armas estavam centralizadas e que a filosofia militar da organização não era comprar armas, mas conquistá-las em batalha. Cada vez mais assustado com o surrealismo e a incompreensão política total da situação, não sei o que pensei na hora. Mas foi certamente qualquer coisa próximo ao samba-canção de Noel Rosa: “Com que roupa que eu vou, pro samba” a que os golpistas nos convidavam!

Mudamos logo da casa de aquartelamento, sob o perigo de sermos denunciados, para uma segunda moradia, com os fuzis enrolados em cobertores leves, as granadas distribuídas entre os membros do grupo, que seriam, creio, em torno de uma dúzia, ou pouco mais. Marchava atrás do grupo, com minha pistolinha. Pato Malo ia na frente, com meu fuzil. Dois ou três companheiros haviam tomado outra orientação. Nos recebeu uma companheira, em uma casa de classe média, de dois andares, bem mobiliada em relação às anteriores e posteriores, na periferia da “población” onde estávamos.

Sabíamos que o Palácio da Moneda estava cercado e resistia. Ouvia-se tiros por todos os lados, na cidade. As informações chegavam à conta-gota e desencontradas. Na época não havia celular nem WhatsApp! Mais tarde, sobretudo à noite, ouviam-se entre os disparos, muitos gritos de mulheres. Logo, a rádio noticiou a morte de Allende, confirmada por um companheiro que trouxe informações e confabulou em um canto com Pato Malo. O desalento da companheira proprietária da moradia era de cortar o coração. Chorava como uma criança. Recriminava-se por ser apenas uma pequeno-burguesa progressista, creio radical de esquerda.

Repetia que não queria viver, sem seus companheiros de partido, sem sua marchas, sem a Unidade Popular. Repetia que fora uma pequena-burguesa que “acaparara” – estocara – o que pudera, para não lhe faltar alimentação. Foi na sua casa que realizamos a última refeição digna do nome daqueles dias. Até chocolate comemos! O café era o chileno, tradicional – Nescafé, batido como gemada, com um pouco de água e açúcar, antes de verter a água quente. Um horror! A companheira repetia sem cessar, desolada, o nome de Allende, usando um diminutivo carinhoso – Mi Allendito, mi Allendito! Intuía com precisão os longos anos que se seguiriam.

Já no exílio, na Bélgica, fiquei sabendo que, pela tarde do 11 de Setembro, a direção do MIR mandara sua militância recuar, para preparar-se para a guerra “dura, longa e prolongada”, que diziam que seguiria ao golpe de Estado e ao massacre e repressão que ele impôs. Guerra que jamais aconteceu, nem de perto, após a derrota geral de setembro. Pato Malo teria recebido a instrução e se negado, possivelmente a obedece-la, ou interpretando-a ao seu modo. Seguiu por uma semana, com seu grupo de jovens desesperados e corajosos, fazendo jus ao nome que portava.

A seguir, o grupo se dividiu em três, para passar desapercebido. Como era militante e mais velho, coube-me o “comando” de três jovens, de uns dezoito anos, e olhe lá, trabalhadores na construção. Entretanto, creio que na tarde de 12 de setembro, antes da divisão, possivelmente já em uma nova moradia, preparamo-nos para uma iniciativa militar. Assaltar um retén de carabineiros, ou seja, um pequeno destacamento de qualquer coisa semelhante à polícia militar brasileira.

Pato Malo explicou o plano: atacarmos de todos os lados e apoderarmo-nos das armas em combate, como na bela canção Oltre il Ponte, de Italo Calvino, sobre jovens guerrilheiros comunistas, entre os quais ele se encontrava, que descem a montanha com poucas armas, mas armas que funcionavam, para atacar destacamento alemão. Como as nossas armas, que eram pra lá de poucas, e de funcionamento apenas provável Pato Malo escolheu cinco ou seis do seu grupo original, com os revólveres e espingardas que dispúnhamos. Vejo-o ainda saindo pela porta. Talvez me engane, mas acho que foi a última vez que vi o companheiro e, com ele, meu fuzil semi-automático 22! A descrição do resultado do assalto dos membros do GPM 3 fica para amanhã.

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