Chile, 1973: memórias de um revolucionário brasileiro (1)

As contradições entre Allende e o MIR, de extrema-esquerda. Em agosto, certeza de que haveria luta. Duas decisões: mandar a filha, bebê, de volta ao Brasil, e pegar em armas. O início do golpe de Pinochet, em 13 de setembro

Por Mario Maestri, no Correio da Cidadania

Em agosto de 1973, creio que pela manhã, em minha casa, na Calle El Remanzo, nas Torres de Macul, gueto de refugiados brasileiros, escutei estarrecido Salvador Allende acusar a descoberta e repressão de conspiração revolucionária entre os marinheiros chilenos, dirigida pelo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), organização na qual eu militava.

Enquanto fazia a denúncia pérfida, a rádio silenciou, com a explosão por direitistas de torre de transmissão. Os suboficiais e marinheiros presos e torturados pela oficialidade eram os dirigentes de amplíssimo movimento na marinha chilena em defesa do governo da Unidade Popular (UP). Participei ao lado de Jorge Magasich, meu colega de curso de História e de militância no MIR, de desmilinguida marcha chamada em defesa dos valentes marinheiros traídos por aquele que pretendiam defender. Compreendi naquele momento que a derrota seria a mais provável resolução do confronto que era agora questão de semanas ou dias.

Desde o tancazo, fracasso golpista de 29 de junho de 1973, com a ocupação geral das fábricas, empresas e fazendas pelos trabalhadores através do país, o confronto militar se tornara saída incontornável para o acirramento extremo da luta de classe no país. Salvador Allende e a direção da UP tentavam conter o inevitável, com todas as formas de concessões, que apenas fortaleciam a direita e debilitavam e lançavam na confusão as forças populares. Allende permitiu que o exército golpista penetrasses em qualquer moradia para procurar armas da esquerda – allenamentos!

Após o Tancazo, consciente da proximidade do golpe, tomei duas grandes iniciativas. A primeira, foi um total sucesso. A segundo, pra lá de meia-canela.

Em acordo com minha então companheira Sandra, mandamos nossa filha Marina, bebezinha, nascida em fevereiro, para o Brasil. Decisão e separação de dilacerar o coração. Ela foi entregue aos meus pais, no Rio de Janeiro, pela solidária irmã carioca da Dora, que visitara Santiago e voltava para o Rio de Janeiro. Dora era companheira do querido amigo e companheiro João Heredia, rio-grandense, falecido há alguns anos. Os dois eram ex-militantes da POLOP refugiados em Santiago.

Minha filha Marina deixando Santiago

A segunda grande decisão foi me armar para o confronto. Não importa o que viesse, pretendia não arredar o pé, mas enfrentar o monstro calçado.

Um antigo amigo rio-grandense, militante da esquerda militarista, andava oferecendo armas. Vendeu-me uma Beretta, 6.35, lindíssima. Já era alguma coisa, se não fossem as quatro balas do carregador, uma confiável, três enferrujadas. Meu dealer prometeu-me coisa melhor. E me explicou que estavam vendendo por maior preço para a direita, para descontar as vendas para a esquerda. Diante da minha surpresa, disse-me que, se ele não vendesse para a direita, outros venderiam.

Não retruquei, para não desagradar o fornecedor. Sua trajetória posterior, como político, no Rio Grande do Sul foi, no mínimo, coerente, com sua estratégia de vendas. Encurtando a história, me trouxe, dias mais tarde, um fuzil semiautomático 22, moderno, de cano curto, culatra dobrável, e um pente grande com vinte balas. Todas novas! Não era nenhuma AK-47, que nunca vira, mas não chegaria à festa sem nada nas mãos!

Ficamos sabendo do golpe pela manhã do dia 11. Corremos para o Pedagógico da Universidade de Chile, onde estudávamos, e havia farta militância mirista, com alguns dirigentes estudantis, com os quais estávamos bastante estranhados. Com Jorge e alguns outros poucos companheiros, defendíamos que o golpe seria confronto geral, terrível, em que se jogaria o tudo ou o nada, como na Espanha, em dias, talvez em horas. Chamavam-nos pejorativamente de “insurrecionalistas”.

A direção do MIR, estudantes jovens sem experiência política suficiente, com os sonhos guerrilheiros da época, preparavam-se para guerra “longa, dura e prolongada”, nas cidades, nos campos, nas cordilheiras, ao igual que em Cuba ou na China. Deu no que deu, como veremos.

Santiago, na manhã do 11 de setembro de 1973

A confusão era geral. As rádios eram silenciadas e passavam para as mãos dos golpistas. Allende transmitiu um discurso derrotista, mandando todos ficarem em casa, dando o golpe por vitorioso. Não deu uma só instrução à população, abandonada à sua sorte. O mesmo ocorreu com os demais dirigentes da UP. Um horror! Poucos dias antes, centenas de milhares de populares e trabalhadores haviam desfilado pelo centro de Santiago, em apoio ao governo, decididos a tudo. Sobretudo setores de esquerda do PS haviam preparado algumas armas, meses antes. Havia ainda importantes setores constitucionalistas e mesmo de esquerda nas forças armadas.

Ficamos como baratas tontas, discutindo se devíamos abandonar ou resistir no Pedagogico, covil da esquerda. Já se ouvia os disparos de armas pesadas, e algumas respostas, de armas leves, possivelmente da esquerda. Na afobação, cruzei com o companheiro Afonso Chanfreau, da direção estudantil do MIR. Perguntou-me, qualquer coisa como, “e agora, companheiro, o que fazemos”?. Eu era mais velho – dois anos! – e vivera o golpe no Brasil. Devia saber algo. Respondi qualquer coisa como “não tenho a mais mínima idéia”. Nos despedimos, desejando boa sorte. Apenas nos últimos anos se esfumaça minha memória de seu rosto assustado e tenso, certamente um espelho do meu. Seguiu na clandestinidade, foi preso e possivelmente executado em meados do ano seguinte, com 24 anos.

Alfredo Chanfreau (1950-1974)

Não recordo como retornei para casa, para me armar, e procurar algum ponto de resistência. Era conhecido nas Torres de Macul, por minha militância, na “frente de pobladores”, nas vilas vizinhas. Havia organizado, meses antes, marcha no estilo mirista, todos em fila, esparsos, para parecer mais numerosos, através da vila Frei, ao lado de nossa “población”, onde a direita tentava disputar o “território” à esquerda.

Diante da marcha colocamos o companheiro “Dentinho”, o Marconi, rio-grandense, altíssimo e magro, com uma cabeleira negra, crespa, despenteada, vestindo um sobretudo velho que meu pai deixara em uma visita. Carregando um enorme pedaço de pau, que mais servia para assustar – e realmente assustava – do que para golpear. Nos preocupávamos mais com a fila seguinte, onde marchava o companheiro Éder Sader, que insistira em participar, apesar de suas condições de saúde. Estavam na marcha o Turco, o Jaimão, todos rio-grandenses, e muitos outros companheiros brasileiros e chilenos.

– !Pueblo, conciencia, fuzil! MIR! – gritávamos pelas ruas escuras.

As casas dos “momios” permaneciam na escuridão. Vizinhos da UP saíam para nos aplaudir e alguns aderiam à marcha. Na noite seguinte, os garotos do núcleo juvenil mirista que eu coordenava – operários, desempregados, estudantes – quebraram as vidraças das poucas casas que ainda portavam algum cartaz anti-UP. Logo, logo, os direitistas abandonaram suas casas e procuraram abrigo em território direitista. A vila fora conquistada para a esquerda com alguns gritos e vidros quebrados!

Na entrada da Vila Macul, me parou um companheiro brasileiro ligado também a uma organização armada. Queria informações. Saber as embaixadas que estavam recebendo refugiados. Pedi que me acompanhasse até minha casa e que vigiasse pela grande vidraça da sala enquanto eu retirava a pistola de um respirador da porta da cozinha. Não me recordo onde escondera o fuzil.

No meio da minha operação, ele, assustado, disse que tinha que ir e saiu apressado, deixando a porta entre-aberta. Pela grande janela, vi que ultrapassava, de cabeça baixa, um Jeep de caçamba coberta por lona verde-escura, como a carroceria. Não falo do meu susto e angústia. Meu glorioso fuzil estava ao meu lado. Engatilhei e me propus a dar alguns tiros e sair correndo pela porta da cozinha, saltando para a casa lindeira. O problema que o tiro de 22 não faz quase barulho – e se não escutassem que eu estava atirando?!

O Jeep parou duas ou três casas antes da minha e um companheiro socialista saiu dele, olhou para todos os lados, também assustado, recebeu um pacote de sua mulher e deu meia-volta.

Jamais me esqueci do companheiro brasileiro, que pouco conhecia, saindo de fininho, sem me avisar, esperando escapar antes que começasse o tiroteio.

Peguei meus documentos, cem dólares – que valiam uma fortuna no câmbio negro chileno -, coloquei a pistolinha na cintura e vesti um poncho, que cobria o fuzil, e fui ao encontro dos companheiros e companheiras no Pedagogico.

Muito logo, um caminhão do exército, com uma metralhadora ponto30 no capô, parou ameaçador no portão de entrada do Campus. Com outros estudantes, saímos por porta lateral, caminhando através da avenida Grécia, onde havia um supermercado sob a intervenção da UP.

No grupo estavam, que me lembre, a Sandra, minha companheira, a Nara, sua irmã, o Marconi, talvez o Taradinho e o Daniel, o Guillermo Pedregal, companheiro boliviano, simpatizante do MIR, a quem possivelmente devo a vida. E caminhava conosco o “Pantera”! Não me lembro como se chamava o companheiro. Era negro, magro, de estatura mediana, com uma linda cabeleira “black”. Daí o apelido. Como no Chile quase não houve escravidão e, portanto, racismo antinegro, era uma quase novidade e fazia um sucesso imenso com as estudantes chilenas, que pediam para tocar seu cabelo.

Agora, o “Pantera” era um problemão. Ele marchava conosco, pelo meio da avenida, e do lado mais habitado, “momios” se aproximavam, apontando e denunciando o “cubano”. Eu entregara o fuzil e o poncho para o Marconi, que se pôs à esquerda do nosso grupo, enquanto eu caminhava, à direita, com a pistola engatilhada, rente à parede, rezando para que, se necessitasse, ao menos a melhor bala posta na agulha disparasse. Quando os grupos esparsos de direitistas tentavam se aproximar, o Marconi levantava o poncho e mostrava a “metralhadora”. Era uma debandada só. O “Dentinho” era o único que tinha realmente formação militar, já que servira havia pouco na Polícia Militar do Exército brasileiro.

Logo, isso me contaram, o “Pantera” foi posto por alguns chilenos no porta-mala de um carro que percorreu as embaixadas até depositá-lo a salvo em uma embaixada ou consulado. Não poucos afrocubanos ou afrolatino-americanos detidos como tal foram executados, sem delongas.

Informado que, em uma moradia das proximidades estava aquartelado o “grupo de combate” do MIR de meu GPM, ou seja, circunscrição de militância, me dirigi para lá, confiante. Tinha certeza que, armado com um AK-47, um M-16 ou coisa semelhante, que diziam na organização abundarem, estaria pronto para enfrentar o que viesse!

O que me esperava, fica para o próximo capítulo.

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