Chile, 1973: Noites de vigília e porotos

Memórias de um revolucionário brasileiro: num aparelho, jovens rebeldes esperam uma resistência que nunca virá. Mas, em vez de armas, eis que chega um saboroso feijão com linguiça. Na mudança de refúgio, militares e “acidente” à vista

Quarta parte do relato de Mário Maestri sobre o golpe no Chile. Leia a primeira, segunda e terceira

O companheiro caminhava pela rua, em nossa direção, com passos pequenos e tranquilos, o que já era pra lá de estranho. Mas sobretudo me causava curiosidade os volumes que trazia, na mão direita, com o braço semi-alçado, e na esquerda, com o braço rente à perna. Seriam armas? Não eram, não. Eram coisas melhores. Com toda a calma do mundo, como se fosse uma noite como qualquer outra, em um dia tranquilo dos primeiros meses do governo da Unidad Popular, que já não mais existia, empurrou com o pé a pequena porta de ferro do pequeno pátio dianteiro, e parou, diante de nós, agachados, como se estivéssemos em plena guerra civil!

Buenas noches, compañeros! Vimos que vocês entraram no local do MIR e acreditamos que talvez não tivessem nada para comer. Dito isso, depositou a panela pesada, tampada, ainda quente, que portava na mão direita, já cansada, sobre o muro baixo atrás do qual tentávamos nos esconder. Na outra mão, trazia uma garrafa de vinho, intocada, pronta para ser bebida, com metade da rolha para fora do gargalho.

Temi que o companheiro solidário acendesse um cigarro e se sentasse a fumar no murinho, junto à calçada da casa que certamente os moradores da rua e do bairro sabiam ser esconderijo do MIR. Convidei-o a entrar. Agachados, vencemos os poucos metros do pátio dianteiro, de terra seca, que nos separavam da porta. O companheiro nos seguiu, ereto, sem perder a pose, com uma tranquilidade que não era fingida. Na panela, feijões chilenos – brancos – com linguiça! O vinho era uma garrafa de Gato Negro, da vinícola San Pedro.

O companheiro viera pedir notícias, saber se tínhamos armas – seu grupo seguia aquartelado, sem saber o que fazer. A direção do MAPU mandara recuar, creio. Não se demorou muito. Desejou-nos boa sorte e despediu-se com um Venceremos! Saiu pela porta e atravessou a rua, para nosso horror, com a calma e tranquilidade com que chegara.

Menos de uma hora mais tarde, novamente junto ao murinho, guardando com minha Beretta 6.35 a entrada do nosso esconderijo, vi a porta da esquina se abrir, iluminando outra vez aquela parte da rua, e o mesmo companheiro se dirigir em nossa direção, com a mesma tranquilidade. Ao chegar aonde eu estava, perguntou, sempre de pé: – Já terminaram os porotos? Vim buscar a panela. É da companheira minha mãe.

Fui buscar a panela, na qual não sobrara um pobre poroto, e entreguei-a, não esquecendo a tampa, para que não voltasse, desejando-lhe novamente boa sorte. Abaixado, no local de vigilância, acompanhei já quase despreocupado o companheiro de “santo forte”, que atravessou a rua sem acelerar o passo um momento sequer, levando na mão a panela recuperada.

Dos dias seguintes ao 11 de setembro, em que a Revolução Chilena ruía em frangalhos, e eu junto com ela, tenho recordações gravadas à fogo na memória. Porém, jamais consegui reorganizá-las em forma cronológica, orgânica. Recordo fatos determinantes sobretudo em blocos, autônomos, com dificuldades em encadeá-los. Descrevi aqui os que mais me marcaram naqueles dias.

Nessas recordações seguras, há interpolações, fluídas, um pouco sem escoras, ou demasiadamente redondas. Minha prática de historiador me obriga a hipotizar que sejam acréscimos ou retoques inconscientes na sintaxe de minha memória dos acontecimentos. A garrafa de vinho é líquida e certa. Lembro-me em não ter abusado nos três goles que dei, maravilhosos. Mas o fato de ser um Gato Negro, meu vinito preferido, que bebia na meia-garrafa, uma no almoço, outra no jantar, já me parece de mais. Não assino em baixo.

Não cofio plenamente na veracidade da notícia que recebemos, não sei quando, não sei onde, não sei de quem, que dois dos soplones que nos infernizaram a vida haviam sido encontrados, com as mãos atadas, degolados, na praça central da población, onde estivemos a maior parte do tempo, como uma mensagem de claros objetivos pedagógicos, enviada pelos cogoteros del pueblo. Mas, “se non è vero, è ben trovato.”

Em verdade, sequer sei quantas noites passei pulando de casa em casa, naquele vai e vem desesperado. Nara, irmã de Sandra, minha então companheira, acaba de me propor que eu teria estado fora uma semana. Parece-me um pouco demais. Talvez cinco, ou no máximo seis dias. Não sei também se os sucessos que passo a narrar ocorreram antes ou após nossa parada no local clandestino do MIR, no qual nos demoramos pouco por razões de segurança.

O golpe se consolidava, sem qualquer oposição organizada, e crescia a dificuldade de encontrarmos onde ir. Outra vez, foi Pablo que apontou a saída. Falou-me de canteiro de obra na borda do bairro em que estávamos, onde se construíam alguns alojamentos ou coisa parecida. No meio do amplo terreno, havia um barracão de madeira, onde eram guardadas as ferramentas e dormiam alguns trabalhadores. Podíamos passar a noite ali.

Perguntei-lhe se havia alguém ainda dormindo no barracão e se eram de esquerda, confiáveis. Respondeu-me que a maioria dos operários voltara para casa, fora dois ou três. Sobre eles, não sabia se tinham militância e qual era, mas os garantia como confiáveis. Eram conhecidos seus e, sobretudo, trabalhadores.

A descrição feita no relato anterior, do nosso pequeno grupo correndo encurvado pelas ruas menores do bairro, rente às portas e janelas, aos muros baixos de tijolo ou às grades de ferro das moradias, cruzando as esquinas, um a um, comigo à frente, com minha poderosa Beretta 6.35, capaz apenas de um só tiro provável, de pouco alcance, mas que nos dava uma segurança, ainda eu irreal, foi um script vivido diversas vezes.

A diferença é que, dessa vez, articulo com facilidade essa aproximação até o limite do bairro. Ele era delimitado por uma rua longa e larga, margeada por um fosso não muito profundo, que corria rente a uma rede de arame de uns três metros da altura. Creio que eu era acompanhado apenas por Pablo. Ou seja, talvez tenha sido precisamente a última noite, após termos recebido ordens peremptórias do MIR de nos desmobilizarmos, como a imensa maioria do partido fizera, sob ordens da direção, ainda na noite do 11 de setembro. Explico a seguir a razão dessa possibilidade.

Combinamos a arriscada travessia da quase avenida. Abaixado, corri rápido até o fosso, onde, deitado e voltado para a rua, esperei que Pablo me seguisse, protegendo-o sempre com a briosa Beretta engatilhada. Creio que não éramos acompanhados pelos dois outros companheiros. Pablo passou e, ágil, começou a subida da cerca de arame trançado, o que causava um ruído infernal, no silêncio da noite, cortado, ao longe, por gritos, tiros isolados e de metralhadoras.

No preciso momento em que Pablo passava a perna para o outro lado, entraram pela esquina, a não mais de uns trinta metros, um Jeep com uma metralhadora pesada, seguida por um ônibus, do qual se viam apenas, nos dois costados, nas janelas, os cascos de combate e canos de fuzis. Os veículos vinham de faróis apagados. Olhei rapidamente para Pablo, cavalgando a rede divisória, iluminado pelo magnífico luar. Imóvel, parecia um galo orgulhoso no seu poleiro, para descrever a cena com um pouco de compaixão para com o amor próprio do querido companheiro. Meti minha cara na grama, já descrente da pistolinha. Ia ser um massacre, a queima roupa, a uns quinze metros de distância.

Senti apenas o ruído dos veículos se aproximando e, a seguir, rufando, diante de nós. Naquele momento, certo da morte, não pensei em nada glorioso ou épico. Pensei apenas que nunca mais veria minha filhinha Marina. E, como chegaram, os veículos malditos passaram, sempre se arrastando, e seguiram, e se afastaram, levando os oficiais, sub-oficiais e praças, certamente para cometerem outros crimes contra a população que os alimentava.

Até hoje pergunto se saltei a cerca, em um só pulo. O certo é que me lembro apenas de me encontrar, magicamente, do outro lado, correndo como um desesperado, com Pablo na minha frente, a poucos metros, até junto ao barracão.

Sentamos ao lado de um barril velho de metal, com a água, quase pelas bordas, usada para fazer cimento.

Peço licença aos leitores e leitoras para tentar reconstruir, em castellano, o diálogo que tivemos.

Pablo me disse, sério: – Compañerito, me cagué de miedo!

E eu lhe respondi: – Yo también, compadre. Un miedo bestial!

E ele respondeu, pronto: – No, compadre, me cagué mismo!

E, à continuação, tirou as calças e a cueca, e com o poto – bunda branco e desnudo refletindo o luar, passou a lavar com cuidado as peças do seu vestuário de jovem trabalhador, feridas não mortalmente no combate inglório.

Protegidos pela distância, não conseguíamos parar de rir, talvez pelo incomum da cena, talvez por termos escapados vivos. Foram os únicos momentos de alegria profunda e total que vivi naqueles dias, nas semanas e meses seguintes, que me recorde.

Lembro-me que víamos no horizonte próximo, explosões fortes, talvez de canhões, acompanhadas de tiros de metralhadoras e fuzis. Vinham da direção da Nueva La Habana. Já não mais rindo, Pablo me assegurou que não era um ataque à población miserável fundada e dirigida pelo MIR, odiada como nenhuma outra pela direita chilena. Os companheiros moradores e militantes a abandonaram ainda no dia 11, pela manhã – me assegurou.

Os disparos eram tantos que pareciam fogos de artifício, festejando o massacre de um povo, de suas ilusões e de suas esperanças.

* Mário Maestri, 72, rio-grandense, é historiador. Em 1971-73, estudou, viveu e militou, como refugiado político do Brasil, em Santiago do Chile. [email protected] É autor de Revolução e contra-revolução no Brasil: 1530-2019. https://clubedeautores.com.br/livro/revolucao-e-contra-revolucao-no-brasil

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