Carreata e Ato: caminhoneiros, entregadores e motoristas de aplicativos

No dia 19 de março em São Paulo, a promessa de uma grande mobilização reunindo trabalhadores estratégicos é chamada pela extrema-direita. Será que deu faísca?

Imagem: Chernobyl

Saí de casa e fui checar a mobilização chamada para hoje. Seria uma grande carreata e ato dos entregadores motorizados (IFood, Rappi, Glovo etc) e dos motoristas de aplicativo (Uber, 99 etc) mais caminhoneiros. Vi chamadas no twitter depois do toque da companheira G. Os motoboys sairiam do Pacaembu, e o resto do Terminal João Dias em Santo Amaro e do Shopping Aricanduva.

Os entregadores de aplicativo têm sido palco de interessantes disputas. Mais recentemente um grupo antifascista tem buscado protagonismo nesse setor que conseguiu realizar greves dentro de contexto de extrema precarização. O setor também é cortejado por sindicatos e pelos “empreendedoristas”, um embate que por vezes se traduz na discussão se é mais vantajoso se sindicalizar ou permanecer autônomo (CLT ou PJ).

Como setor estratégico, eles são de incrível potência política, pois dominam a logística da cidade, mas o setor é novo e ainda cheio de desafios de organização. As empresas de transporte estão ganhando muito dinheiro com o aumento significativo de negócios desde o confinamento. Mas observadores apontam que o grande influxo de desempregados de outros setores colapsados da economia forçou o algoritmo a recalcular para baixo a remuneração por corrida e os trabalhadores de aplicativos não estão se beneficiando da bonança nos negócios.

Já os motoristas de aplicativos devem estar na mesma situação, não sei bem o que está pegando entre eles. Já os caminhoneiros são um grupo fragmentado, com fortes vínculos patronais e muitos deles são bolsonaristas de coração. Mas o aumento do preço nos combustíveis simplificou as discussões e os colocou em pé de guerra.

A convergência dos três setores tem enorme potencial político, mas a presença da esquerda nestas mobilizações não é forte, e na atual conjuntura de embate político, poderia ser explosiva para o mal. Parte da minha investigação hoje era adivinhar como estas partes interagiriam.

Cheguei às 14h ao prédio da FIESP, à espera das carreatas que acorreriam à avenida a qualquer momento. Vi que já tinha uns 7 bolsonaristas, com caixa de som e microfone, camisas da CBF e faixas contra o governador Doria na calçada.

Notei o contingente policial, uns 60 pela avenida, incluindo um terço deles com escudos, e um atirador. Fiquei à espera no vão do MASP e às 14h45 ouvi as motocicletas na avenida e desci uns dois quarteirões na direção do Paraiso para encontrá-los.

Eram uns 150 a 200 motoboys, com algumas poucas bicicletas. Faziam muito barulho com suas buzinas e motores. Notei que a maioria eram do IFood, menos do Rappi. Não traziam faixa ou mensagem escrita. Uma ou duas bandeiras do Brasil era o máximo de expressão visual.

Passamos em frente aos bolsonaristas na frente da FIESP, que tinham vindo ao meio fio e saudavam os motoboys. Estes saudaram de volta, alguns até gritaram “Fora Doria”, mas não senti uma super indentidade entre os dois grupos.

Os motoboys tinham descido de suas motos e as empurravam pelo asfalto, e respeitavam os semáforos. Estavam escaldados de outras ocasiões quando a PM multou seus veículos em carreatas.

Seguimos até o MASP e lá as motos pararam. Depois de negociação com a PM, os motociclistas pararam seus veículos nas duas faixas mais próximas do edifício, liberando outras duas para o trânsito. Notei que ainda se lê claramente no chão “Vidas Pretas Importam”, fruto de uma manifestação de ativistas negros de meses atrás.

Começou a chover, e todos viemos para o generoso abrigo do vão. Ali pude observar melhor quem eram eles e conversar um pouco.

A maioria era de homens ao redor dos 25 anos. Na duvidosa sociologia das aparências, achei que eram na maioria periféricos e negros. Vi uma ou outra camisa da CBF, e umas 5 bandeiras do Brasil, algumas delas certamente propiciadas pelo vendedor que as comercializava ali mesmo. Mas não vi mensagens políticas. Vi camisetas usuais da juventude: “School of Rock”, “Futebol Bola de Fogo. Raimundinho”, “Adidas” e uma camisa do Corinthians.

Do outro lado da rua, um senhor muito irado e portando dois crachás, gritava muito alto, dialogando consigo mesmo, muito bravo na sua viagem interna.

Conversei com um ciclista que me perguntou quando os caminhoneiros iam chegar. Tentei um diálogo sem me posicionar muito, mas ele logo viu que eu não era bolsonarista, e ele sim. Ele desfiou a conspiração das grandes empresas de fármacos contra o Brasil, falou dos 135 bilhões que o presidente teria dado ao estado de São paulo, que os hospitais estão vazios. Ele admite que há mortes por covid, mas que não é tudo isso que a imprensa fala. Tentei introduzir os bancos como benficiários gerais da crise, mas não colou. Estava firme dizendo que o que vai salvar tudo é o trabalho, que precisamos trabalhar normalmente.

Logo começou um pé d’água que realmente encharcou quem estava na rua – no caso, uma coluna de uns 20 PMs que se perfilavam na ilha central. Os moços motoboys comemoraram dois ou três trovões mais ruidosos. Ouvi ainda um jovem entregador dizer “haha, bem feito paus mandados do Doria”, referindo-se aos PMs que recebiam uma pesada carga d’água.

Mas rolou que os policiais acabaram por buscar abrigo debaixo do vão, onde todos estávamos. Só que aí a liderança dos motoboys puxou um aplauso para os PMs, que foi robustamente executado por todos.

Vi três fotógrafos profissionais, mas não conhecia nenhum.

Logo os motoboys se agruparam para fazer uma oração. De mãos ao alto, entoaram o pai nosso, sob a forte chuva que tudo embranquecia na rua, sob o olhar mau-humorado da coluna policial ali pertinho.

Um dos bolsonaristas tinha vindo da FIESP, de camiseta negra do Bolsonaro e bandeira do Brasil aos ombros. Destoava um pouco da galera, ele branco alto, bem escovado. Estava irradiando ao vivo por seu celular: cobrava do governador baixa nos impostos, baixa no preço dos combustíveis. Dizia que “todos os trabalhadores são essenciais, todo trabalho é digno”.

Alguns bolsonaristas estavam lá conversando com lideranças dos motoboys e policiais. Apesar de relativamente numerosa, a PM estava muito amistosa, conspiratória mesmo. Logo ao lado, uma das lideranças garantia, ao celular, que eram 10 mil motoboys, um evidente exagero, certamente conversando coma carreata que se aproximava emalgum ponto da cidade. Ouvi depois uma discussão que era acerca da visibilidade da pauta deles no contexto da manifestação quando o trio elétrico chegasse com a carreata. Alguém falava que “vão chegar e vai ser ‘Fora Doria, Fora Doria’ e não vai ter espaço para a nossa pauta, que é o algoritmo.”

De fato chegou o trio elétrico às 15h45, com uma faixa “Fora Doria” ao lado. Eram seis pessoas em cima do carro, que tocava muito alto uma música do Legião. Um dos oradores cantava em cima da melodia. Os motoboys vibraram muito e a cada vez que a canção perguntava “Que país é esse?”, eles respondiam gritando “É a porra do Brasil!”. Os bolsonaristas tinham camisas amarelas e duas bandeiras do Brasil.

NEssa hora reparei que o homem irado de dois crachás estava entre nós, só que ele modulara sua raiva e cantava também “que país é esee?”.

O carro de som seguiu até a frente da FIESP e os motoboys ficaram onde estavam. Tentei verificar quantos carros tinha a passeata, mas ainda chovia e era difícil identificar quem fosse do evento. Mas contei no máximo 100 carros, dentre eles uns 15 veículos de auto-escola, umas três vans e um ônibus de viagem. Achei pouco. Não tinha caminhão e esperava algo maior. Na FIESP, umas 30 pessoas só. No geral, a maioria de homens de 40-50, mais jovens militantes de 30, também homens. Algumas senhoras.

A tônica das mensagens era o trabalho. O direito ao trabalho, a necessidade do trabalho e a recusa de ter que depender do estado. Mas percebi que quando diziam “queremos trabalhar”, pareciam querer dizer “quero que meus empregados trabalhem”.

Um quadrado de pano, já encharcado, trazia escrito, no lado de um carro: “Cortem o salário dos governadores, prefeitos, vereadores, deputados e senadores durante o tempo que durar o lockdown”.

Um orador garantia que “o presidente Bolsonaro está assistindo agora ao vivo!”. Também pediu que todos usassem máscara em cima do carro. Esta seria uma exigência da PM. Já vi a polícia impedir carro de som da esquerda sair por causa disso. Vi que o Paulo Kogos mais outra mulher não usavam as suas, lá em cima os dois.

Aliás reconheci vários veteranos das mobilizações bolsonaristas. O figura do Vlog do Lisboa estava lá filmando, vi o gringo magrinho que dança, a moça negra que hoje estava triste…

Um moço maquiado de Coringa, de camisa amarela, segurava um cartaz “Fora Doria”. Este era o terceiro ou quarto Coringa que eu já vira na direita desde o lançamento do filme. Eu sempre estranhei que a direita não tivesse conseguido incorporar o personagem de maneira satisfatória ao seu repertório de fantasias públicas e produzir uma caracterização realmente boa. Até hoje.

Vi uma camiseta “Olavo tem Razão”.

Ao chão, no asfalto, uma faixa “Intervenção federal em São Paulo”. Do outro lado do carro, uma faixa grande: “Doria, você está demitido! Impeachment Já! Os comerciantes de São Paulo não lhe querem. Canalha!”.

Paulo Kogos falou ao microfone, e avisou os presentes acerca dos perigos da ditadura comunista, e afirmou que a esquerda governa o país. E ele ainda puxou uma palavra de ordem que nasceu na esquerda autonomista, uma que acaba com “Se o povo se unir, a tarifa vai cair, vai cair, vai cair!” – só que agora alusiva ao governador.

Na ilha central, no chão, uma outra faixona: “Doria e Covas, o resultado da gestão de vocês está aí: + de 65.519 mortos pela covid em São Paulo. Nós comerciantes não seremos prisioneiros do comunismo”. Ainda chovia.

Ouvi com mais atenção os oradores e por um lado nada ouvi de novo. Mas também notei que as narrativas estão melhores do que aquelas dos primeiros meses da pandemia. Nas “carreatas da morte” de 2020, o negacionismo era mais estridente. Hoje a estratégia narrativa mudou um pouco, agora usam muito a inversão e apropriação. A forma mais acabada desse tipo de semântica foi a frase “Genocida é quem nega o tratamento precoce”. Eles incorporaram a palavra “genocida”, só que inverteram seu alvo. O mesmo acontece com a insistência na perda de direitos e da atual “ditadura”. “Estado de sítio”, “estado de exceção”, “fechamento” foram expressões muito usadas hoje. A impressão que dá é querem relativizar os termos para poder precisamente impor um regime de fechamento. Só que aí, na saturação de nomes, eu quero ditadura, você quer ditadura, então ficam elas por elas e eu fico por cima porque somos patriotas e eu te mato. Esvaziam nosso grito de alarme.

Até mesmo o lockdown foi incorporado. Ouvi o orador dizer “Lockdown só o do presidente com o estado de guerra”.

Ele falou diretamente com a PM. Dizia que o Doria era um traidor e que cortou o salário dos policiais. Convidou-os abertamente a desobedecer o governador. Ameaçou-os dizendo que se o comércio não abrisse eles não iam ganhar salário. O comando presente conversava muito amistosamente com militantes que vinham prosear.

Afinal cansei e tomei o caminho de volta.

Pensei que por um lado o evento tinha sido pequeno e ainda não tinha realizado a simbiose explosiva da convergência entregadores-uberistas-caminhoneiros. O potencial levante pela direita parece ter ainda chão a percorrer. Mas é alarmante que só tenha trabalhador e fascista na rua. A ausência da esquerda no asfalto está gerando um enorme déficit de credibilidade e mobilização.

Notei uma escalada na retórica, estão falando abertamente de intervenção. E acima de tudo me parece é a primeira vez que um ato carreata da direita ocorre num dia da semana. Acho que estão ensaiando parar a cidade e deixar os preguiçosos domingos ensolarados para trás.

Ficou claro, porém, que a cartada do caos de Bolsonaro é forte. Ele está empurrando o país para o colapso e para o pânico. Ele domina as polícias estaduais e pode modular a violência social e fazer parecer que os governadores perderam o controle, justificando uma interevenção federal. A retórica está aí, os instrumentos também.

Eram quase 17h quando saí fora e deixei a manifestação para trás. Pedalei e fui para casa.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *