Ato pró-Bolsonaro e passeata pela Bolívia

No domingo 17 de novembro de 2019, dois atos na mesma avenida Paulista. Um de Bolivianos e outro bolsonarista.

Saí da estação Consolação para acompanhar um ato de bolivianos no Brasil contra o golpe. Mas acabei trombando com um ato bolsonarista na mesma avenida Paulista, o que me surpreendeu. Não tinha chegado essa chamada coxinha na minha bolha, e os sites do MBL e do VemPraRua não tinham nada.

A imprensa de oposição, no dia seguinte, deu pouca importância às mobilizações nacionalmente. Parece que no Rio de Janeiro foi bem fraco. Mas achei que em São Paulo a presença no asfalto não foi desprezível e tentei avaliar as pautas e disposição do bolsonarismo “de raiz”. Avalio melhor abaixo, mas o foco era bem contra o STF, personificado na figura de Gilmar Mendes. Falavam em seu impeachemnt (e de Tofolli), mas evitavam falar em fechamento do Tribunal. Tal foco apresenta uma tendência de radicalização…

Mas parte da desmobilização poderia ser explicada pelo fato de que o clã Bolsonaro não achou tão ruim o miinistro Toffli ter pedido os relatórios das atividades do COAF. Uma prática corriqueira da Lava Jato era pedir informação informalmente ao órgão fiscal, o que é proibido. Foi isso que determinou a paralisação das investigações contra Fãvio Bolsonaro.

A investigação de Tofolli ofende a Lava Jato, mas não os pragmáticos do governo…

Eram 15h avenida estava cheia de gente, pois o sol brilhava e a avenida atrai muitos paulistanos e turistas no domingo, quando sempre é fechada ao trânsito.

Notei camisas da CBF pela avenida e estranhei. Mas, na altura da rua Itapeva, tinha mesmo um carro de som com razoável multidão verdeamarela. Ao final, avaliei que o ato tinha umas 20 mil pessoas.

Mas antes, em frente ao MASP, estavam os bolivianos que se reuniam contra o golpe de estado na Bolívia. Estava bem cheio, umas 3 mil pessoas. A imensa maioria era de imigrantes bolivianos, claramente indígenas. Uma mistura etária bem variada, muitas famílias.

Vi alguns militantes brasileiros com suas bandeiras: UJC, PSTU, AFRONTE, PT, Resistência PSOL Mas predominavam as bandeiras boliviana e a Wiphala. Alguns cartazes feitos à mão, incluindo um balão branco onde estava escrito “paz”. As mensagens eram no geral contra o golpe, pela paz e também pela volta de Evo Morales.

Mas quando cheguei no local, senti grande tensão. Havia um fluxo razoável de coxinhas passando ao lado do ato boliviano, que tomava toda a via que leva em direção à Consolação. O ato coxinha acontecia mais adiante, em frente à rua Itapeva.

Muitos verdeamarelos vinham checar o que era, e mais de um se juntou momentaneamente aos bolivianos pensando que era o ato verdeamarelo.

Saltaram faíscas, e alguns brasileiros hostilizavam coxinhas que passavam de cara feia ou que provocavam. Dois homens em particular gritavam muito, senhores de uns 50 anos – da esquerda.

Cheguei a conversar com eles e lembrar que a tarefa nossa ali era proteger os bolivianos e não brigar com coxinha.

Mas logo o ato pela Bolívia saiu em passeata e a tensão baixou. Eles seguiram para a Praça do Ciclista, junto à avenida Consolação. Segui um pouco com eles mas fui checar os coxinhas na esquina da rua Itapeva.

O companheiro E estava lá co a passeata e seguiu com eles até a praça. Ele achou a passeata bela e ficou tocado com a mobilização.

Eu cheguei em frente ao carro de som, que era do NasRuas. Este é um movimento bolsonarista, mais governista do que o VemPraRua e mesmo o MBL. De fato, vi muitas camisetas com o rosto ou nome de Bolsonaro, além da obrigatória CBF ou “Meu partido é o Brasil”. A defesa do presidente e do governo era pauta explícita, ao contrário do ato passado, aqui mesmo na Paulista, quando o VPR e MBL insistiam na campanha pela aprovação da PEC da Segunda Instância.

O carro de som era adornado com as faixas “Movimento Conservador”, “Endireita SBC”, “Estamos juntos capitão”.

A responsabilização da esquerda aparecia sempre nas falas inflamadas, e a demonização do Lula é tática recorrente. De fato, ao lado do carro de som tinha um grande boneco inflável, que era a figura de Gilmar Mendes com as cabeças de Lula e José Dirceu aparecendo por trás, escudados pelo ministro. Uma faixa grande de plástico trazia a figura de Mendes. Corrupção-STF-Lula (esquerda) era o eixo temático central.

De novo tive a sensação de que um levante bolsonarista é uma fantasia: os tiozões e tiazinhas aqui presentes não vão levantar barricadas nem dar tiro na esquerda.

Os militantes do NasRuas e demais grupos de direita sim (jovens conservaores, empresários, milicianos e gângsters), mas me pareceu que a bolha deles também está estacionada por ora. A julgar pelos números nas ruas, os governistas detém uns 20 mil apoiadores de raiz aqui na cidade, mas precisam do apoio do coxinha genérico para que uma aventura autoritária prospere. Acho que o tempo corre contra eles, o governo vai se desgastando semana a semana.

Mas chamou-me a atenção que havia uma certa diversidade social no dia de hoje. Além da classe média alta que mora na região, e da classe média-média que vem sempre, achei que havia também alguns que chamo de “perdedores da meritocracia”. São menos brancos, menos ricos, mas parecem compartilhar do discurso do ressentimento e da responsabilização da esquerda. Talvez o extremismo bolsonarista tenha logrado capilarizar mais na sociedade como um todo do que o projeto mais “centrista” e abertamente classista do VemPraRua.

Pode ser apenas a minha impressão, mas achei um ato chato, e achei que todos ali achavam o mesmo. Como sabemos bem na esquerda, há um limite na energia dispendida na rua. Ou sentimos que a mobilização transforma a realidade ou caímos na melancolia da tarefa militante. A manifestação boa atrai sub-eventos e pessoas interessantes, ou no mínimo oradores instigantes, uma pauta inspiradora, alguma coisa que toque a alma. Só medo e repulsa não parecem bastar.

Por isso acho que o bolsonarismo vai precisar criar um fato muito mais incontornável e assustador do que a simples defesa de Bozo ou mesmo o esvaziamento da Lava Jato (que já ocorreu), algo como a invasão da embaixada da Venezuela em Brasília.

Suspeito que nem o julgamento da suspeição do ministro Sérgio Moro e consequente anulação dos processos contra Lula vai mobilizar tanto assim.

Vi umas três bandeiras imperiais, e algumas pessoas com camiseta ou calça de camuflagem.

Os militaristas parecem ter se recolhido um pouco. Faz umas dua ou três manifestações que não os vejo uniformizados ou fantasiados. Pode ser que estivessem lá mas com outras roupas, ou pode ser que quem é militarista não está bolsonarista.

Vi uma camisa do Juventus, uma do Corinthians e outra do Palmeiras.

Vi um bonequinho inflável do Lula presidiário e outro “Ele sim” com o Bolsonaro.

Vi um cartaz “Robô? É a mãe!”, outro “Gilmar, seu dia vai chegar!”

Fiquei um pouco mas logo avancei para o segundo carro do ato, que estava na esquina da rua Pamplona. O carro trazia as faixas “Nós vamos mudar a história juntos. Movimento República de Curitiba”, outra “Movimento Direita Digital. O povo não pede, o povo decide”, “Movimento Brasil Conservador”.

O orador defendia muito o ministro Sérgio Moro, dizendo “nossos herois estão sendo atacados, os corruptos estão trancando a Lava Jato”. O povo gritou muito “Deltan, Deltan, Deltan!”.

Vi máscaras de papel com o rosto de Moro, vi uma camiseta “Bolsonaro por uma família melhor” e outra que era da CBF mas com motivos cristãos. Vi, duas bandeiras de Israel e uma LGBT.

Ouvi de novo, a partir do carro de som do Movimento República de Curitiba, o tal tenor que canta nos carros de som da ultra-direita.

Ouvi-o cantar um Aleluia, e depois a paródia do Nessum Dorma, uma famosa ária que tem tons heroicos e que serviu de trilha sonora a uma das Copas do Mundo.

Sei que há vários tipos de ópera, e que no século XIX foi também um tipo de entretenimento popular. Mas hoje em dia o que resta é o brega como símbolo de um retorno a uma arte pura e elevada, um impulso bem pequeno-burguês que não aguenta a ópera completa mas serve-se de “grandes árias”, entoadas por farsas como Andrea Bocelli ou os Três Tenores. Tudo isso como alternativa de qualidade ao demonizados “funk” e “Pablo Vittar”.

A versão do tenor trazia “Mas Sérgio Moro vai ficar, a Lava Jato não vai parar, com esperança para apoiar, com coragem e força Bolsonaro vai governar…”

A trilha sonora precisamente exata para uma “República de Curitiba”.

Caminhava à frente do Shopping São Paulo, ainda sob o alcance das árias líricas do tenor quando vi um bonecão do Mickey na calçada. A pessoa dentro do boneco ajustava a cabeça – ela enxergava através da boca do famoso rato, e então me apreceu que Mickey estava levando as mãos à boca em desespero, balançando nervosamente a cabeça, de orelhas caídas, como uma pintura de Munch em cenário pós-bolsonarista.

Vi o Major Olímpio tirar muitas selfies com fãs, no asfalto.

Vi uma camiseta com o rosto do ministro Paulo Guedes, com óculos de lacração e a inscrição “Tchutchuca é a mãe”. Outra camiseta trazia a figura de um homem negro e a inscrição “Sargento Ruas. Preparatório. O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”.

Voltei ao carro dos NasRuas e o orador atacava a jornalista Vera Magalhães. Declarou que “este é o melhor governo que já tivemos, 11 meses de governo sem um único caso de corrupção!”. O povo aplaudiu muito.

Outro orador tomou o microfone e disse: “Meu nome é Vlad, sou fisioterapeuta e sei que tem muita gente doente. Hoje vamos fazer a história mudar”.

Mais de um orador chamou “palmas para cada um de vocês que vieram aqui”.

Passou um faixão imenso, horizontal, sustentado por muitas mãos, inscrito “impeachment do STF”.

Vi um cartaz de plástico com os rostos de Gilmar, Toflli e Davi Alcolumbre. Atiravam tomates contra eles. Logo acima, impassível, quase do mesmo tamanho, a figura da Mona Lisa, parte da publicidade de uma exposição de arte.

Vi uma bandeira “Direita Minas [Gerais]” e uma camiseta “Amar com o amor de Jesus é possível. Impacta São Paulo”, e ainda outra “Movimento Direita Piracicaba”.

Outro orador falou muito em deus e no Brasil, na base cristã de nossa cultura etc. Outro orador imitou a voz de Lula em seu discurso. Outro ainda puxou a palavra de ordem “STF, presta atenção, que a sua toga vai virar pano de chão”.

Vi uma mulher que se pintou de palhaço e trazia uma bandeira do Brasil às mãos. Ela percorria a avenida, se deixando fotografar. Na minha má vontade, achei que parecia um meio termo entre o Coringa e o palhaço Bozo, como que atestando para a incapacidade da classe média de formar um projeto de sujeito à altura do momento histórico.

Vi dois moços negros, que eram uma equipe de gravação da Jovem Pan. Um tinha um microfone e outro a câmera.

Era 16h45 quando fui embora.

Mas vi ainda um grupo de chilenos numa calçada da avenida. Erma uns 50, com cartazes, velas e também uma banda de música. Um coxinha colou e conversava (isto é, discursava) meio surtado, sublinhando a atuação do primeiro ministro Putin na região, mas negando a participação americana.

Alguns chilenos tentavam conversar, como infinita paciência.

Segui a pé e fui para casa.

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