Ato contra o corte na gratuidade do passe livre dos idosos no transporte

No dia 3 de fevereiro de 2021 um ato por direitos do transporte sonegados é reprimido com violência pela polícia de São Paulo.

Foto: Movimento Passe Livre (MPL)

Saí da estação Sé do metrô às 17h para o ato do Movimento Passe Livre em frente à prefeitura de São Paulo. O MPL já vinha fazendo ações contra o corte do benefício, e hoje era um ato público. O atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas, aumentou o próprio salário no mesmo dia que cortou o benefício histórico dos idosos. Ironicamente, quem instituiu a gratuidade dos idosos no transporte público foi seu avô, o então alcaide Mario Covas, quando o PSDB era social-democrata. O mundo dá voltas.

Caminhei até o viaduto do Chá ponderando qual seria a atitude da PM de Dória. Hoje, quarta-feira, fazia apenas três dias que o governador do estado viu sua candidatura à presidência ruir quando seu parceiro de chapa, o DEM, aderiu a Bolsonaro. Notei que Dória apareceu em inúmeros programas jornalísticos nos dias subsequentes à votação no Congresso em Brasília, tentando achar um lugar de fala. Queria saber como isso se espelharia na atuação contra o movimento social.

Aconteceu que a atuação policial foi ilegal e profundamente antidemocrática. Apesar do governador ter se declarado “amargamente arrependido do Bolsodoria”, a repressão á defesa de direitos sonegados por uma política privatista cantou forte hoje.

Logo ao chegar à praça do Patriarca, deu para notar a grande presença policial. Depois contei mais de 150 policiais presentes na operação. Eram uns 120 PMs de jaleco verde, com escudos e cassetetes, umas 15 motocicletas, e uns 20 soldados do BAEP, que é a tropa de choque, com atiradores (dois pelo menos) e equipamento pessoal pesado. Contei pelo menos 15 viaturas.

Cheguei no local e já havia manifestantes, além de uns 10 fotógrafos, dentre eles A, com quem conversei. Falamos do impeachment e das contradições da política partidária atual.

Logo vi, presa à grade, a faixa principal: “Nenhum direito a menos, nenhum centavo a mais”. Vi uma tesoura de cartolina, que enganchou depois com a palavra de ordem “tira a tesoura da mão! Tira a tesoura da mão e investe no transporte e no buzão!”.

Reconheci um figura ao qual já me referi no passado. Ele é fotógrafo, que mantém um site de extrema-direita. Me falaram que ele teria revelado que registra atos do MPL para um cliente no ABC, que é o MBL, o movimento direitista do Kim Kataguiri e o execrável da Mamãe. Puxei conversa e ele tinha uma leitura razoável da política geral, mas totalmente equivocada no política da rua. Deu muita importância aos poucos “marxistas” presentes (quase só a POR4, trotskistas) e não sabia quem fossem os “autonomistas”, que historicamente estão junto do MPL e cujo ethos emprestam ao movimento.

A PM tem sempre uma ou mais equipes de filmagem, e era o caso desta vez. Filmaram as negociações e o andar das passeatas, sem dúvida para fins de identificação e de apresentação de provas se tiver processo. Ademais, o site da PM também publica seu portfólio iconográfico e suas “stories”. E muitos soldados registram cenas com seus telefones privados.

Ainda havia um fluxo de pedestres pelo viaduto, e tinha manifestante panfletando. Aqui aconteceu a melhor interação com o público, pois depois a PM envelopou a passeata e sufocou o ato.

A manifestação foi enchendo ao longo da hora, e contei uns 50 manifestantes ao todo. Havia instrumentos musicais e uma diminuta batucada animava o ambiente. Vi cartazes feitos à mão: “Covas pilantra”, “Covas aumentou seu salário em 46% e tirou o passe livre dos idosos (60-64 anos)”, “Passe Livre 60+ fica”, e “Pessoas idosas têm direito à cidade”. Vi também uma máscara de papel xerocopiada do prefeito.

A certa altura colou um moço da rua, com uma barraca meio destroçada na mão. Contou que era de Pernambuco e e que tinha tomado “uns corote”. Contou que o Bolsonaro tinha passado por sua barraca e roubado um shortinho rosa que era dele. “E uma calça também”. Era cortês e aceitou um cigarro.

Reconheci um P2 que sempre está presente em atos do MPL. Às 18h20 a PM começou a aproximar as suas três colunas e a isolar os manifestantes, impedindo o fluxo de pedestres que começava a minguar. As negociações estavam a cargo do tenente Cruvel e a atitude da polícia era impositiva e ilegal. Ela não quis autorizar o deslocamento para a praça da Sé e depois seguir para a praça da República, que era o que o movimento queria fazer. Ele impunha um único itinerário, pela calçada, de lá para a praça da Sé. Houve pelo menos três encontros de negociação e acompanhei de perto. A atitude do tenente era escorregadia e bruta. Interrompia as negociadoras do MPL e insistiu na posição inconstitucional de arrogar para a PM o poder de determinar o percurso de uma manifestação garantida pela carta magna. Seu discurso era da segurança impositiva, cheio de “estamos aqui para sua própria segurança”, claramente um sofisma perverso. “Se vocês desobedecerem as determinações estará encerrado o ato”, determinou Cruvel. Disse ainda: “Vocês têm 15 minutos para preparar o pessoal e sair no deslocamento”.

Às 18h45 uns 150 PMs cercavam todo o ato, com escudos e atiradores, e impediam as pessoas de sair. A tensão foi aumentando, ainda sem saber o que o movimento decidiria.

Às 19h fizemos um jogral, onde as pautas foram elencadas e os manifestantes reafirmaram sua vontade protestar.

O Brasil em geral está um barril de pólvora, mas o centro de São Paulo está mais: muito sem-teto na rua, desemprego forte. A lembrança de 2013 e também do Chile assombra todas as forças de repressão. O potencial de descontrole social cresce a cada dia e de fato parece ser a política bolsonarista. A necropolítica não é uma metáfora, é um procedimento. Falta a faísca.

Acabado o jogral, o ato começou a sair, a faixa de frente avançou em direção à coluna que bloqueava a passagem, na calçada. A coluna policial meio que cedia, mas seu objetivo era fazer fricção e forçar a quebra do bloco manifestante, deixando apenas um canto do quadrado que nos cercava aberto, desfigurando o ajuntamento.

Aí o movimento se adiantou, correu para a rua através da brecha e se pôs avante da massa policial. Lembrei de passeata dos secundaristas, onde seus corpos jovens e ágeis eram muito mais velozes do que os trintões meio gordos que tinham que correr atrás, bufando com seu equipamento pesado.

O movimento de furar e adiantar-se trouxe descontrole ao comando policial, que teve que correr também e tentar impedir o avanço do movimento. Muita manobra, ordens gritadas e bate-cabeça.

Minutos depois, as colunas policiais conseguiram cercar por dois lados e esmagar os manifestantes que estavam no meio, com pancadas e agressões, incluindo o rasgo da faixa. Duas manifestantes foram presas, muita gente apanhou.

Às 19h10 o ato estava disperso, muita gente espalhada pela esquina da Xavier de Toledo, de pé na noite agora escura iluminada pela luz piscante das viaturas. Consegui parar o tenente Cruvel e perguntar qual lei os manifestantes tinham quebrado para justificar a ação repressiva, ele não soube responder, mas perguntou meu nome.

Segui pela Barão de Itapetininga até a rua Dom José de Barros, mas o acesso à República estava fechado pela PM. Deu para ver que o percurso imposto pela PM era uma armadilha: a República estava cheia de viaturas e atiradores prontos para receber uma multidão que estaria cerca por todos os lados. A esquina estava cheia de gente, nos bares e no calçadão.

Sentei num banco na boca da Barão, agora já na República, e perto de mim um grupo de seguranças do metrô se reunia, uns sete deles. Um passante os provocou, “sei que vocês são tudo bolsonarista”. Um deles negou em voz alta, e ouvi logo depois eles fazendo pouco da ação policial: “Olha que bonito, ‘Quebra da Ordem’. Eles não economizam com a PM”. Mas essa brecha de possibilidade crítica logo se dissipou quando ouvi os mesmo seguranças falarem “é o MPL. Dá pra ver por aquela coisa do cabelo, cheio de cor”, referindo-se a uma moça que tinha tingido seu cabelo de vermelho. Repressão é repressão, e a polícia do metrô já agrediu manifestante de montão.

Lembrei de como a polícia sempre trata bem os verdeamarelos, um contraste gritante. Às vezes é impossível negar que não há polícia reformada, polícia republicana ou polícia justa. É guerra de classe, não adianta.

Tomei o metrô pensando que o Brasil é mesmo um laboratório da repressão global. Vai ser difícil fazer movimento de rua, a repressão parece estar forte logo no começo, com medo que cresça. Talvez haja brecha onde Dória não quer caos social mas Bolsonaro sim. Mas talvez eles saibam que a ordem é precária e que tudo virá abaixo se assoprar.

Peguei o trem e fui para casa.

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