Segunda Carreata pelo Impeachment de Bolsonaro em São Paulo

Stop Bolsonaro Day tem carreata que saiu às ruas de São Paulo, em 31 de janeiro de 2021. A Polícia Militar de Doria sabota…

Todas as imagens cedidas por Rogerio de Santis:

Saí de casa de bicicleta e cheguei à Praça Charles Miller, que é em frente ao estádio do Pacaembu. Eram 9h15 e o pequeno carro de som já estava lá.

A carreata foi boa, mas existe algo de contraditório nessa campanha que não consigo explicar bem…

O calor já prometia um dia insuportável, e os usuários usuais da praça estavam lá: a turma do fitness, cachorros e seus donos, ciclistas, colecionadores de carros antigos (reconheci um Maverick e uma Belina, além de 3 fuscas), casais e famílias. Um grupo de motociclistas – uns 15 homens brancos de 50-60 anos – se agrupavam, contrariados, mas não hostilizaram a galera.

Logo vi C, que, ao microfone, lembrava que o estádio antigamente ficava aberto ao público aos domingos, era possível correr e passear dentro dele. Hoje está sendo privatizado por Bruno Covas.

Vi várias bandeiras e alguns cartazes feitos `mão. Alguém trouxe um lote de uma dúzia de latas de leite condensado que arranjou sobre um banquinho, com o cartaz “R$ 6,49 R$ 163”, uma referência ao preço pago pelo governo pelas hoje notórias latas de leite condensado. Muitos escreveram mensagens com fita adesiva em seus para-brisas.

Apesar de exemplares preciosos de mídias caseiras – vi um “Fora Bolsonaro” escrito a caneta Bic numa bandejinha de isopor! – as bandeiras institucionais dominaram o evento: vi da CUT, CPM, PcdoB, PSOL, PT, PSTU, CSP-CONLUTAS, uma do Boulos e Erundina. da Frente Brasil Sem Medo, além de camsietas do MST, MTST.

Vi bandeiras do Brasil. Elas devem ser um termômetro da adesão de pessoas fora da bolha da esquerda institucional.

Saímos da praça ao som de uma deliciosa cançoneta de Chico César: “Eu vou tomar vacina, quem não quiser que tome cloroquina. Eu não vou passar vergonha, quem quiser que escute esse pamonha!”.

Fiquei feliz de ter música nova para estar em público, especialmente neste formato “acústico”, onde marchinhas de folia de rua ganham entonação mais intimista, mais bossa nova. No seu melhor, é como Caetano sozinho no palco, no seu pior é como Juca Chaves ou o Ronaldo em Londres.

Outra novidade em termos de música, além de outras marchinhas anti-Bolsonaro, foi uma nova versão de “Sujeito de Sorte” (Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro), do Belchior. Esta versão é mais roqueira do que a do falecido cantor, soube depois que é com Emicida, Pablo Vittar e Majur. Achei muito melhor do que tocar a MPB dos anos 60 ou 70, menos nostálgico e museológico.

Apesar de aliviado de poder finalmente, depois de uns 5 anos, sair gritando contra o autoritarismo, senti falta de mais “civis”. Quem tocava o ato eram sindicalistas e as juventudes partidárias. Achei as falas boas, especialmente das novas bancadas (mulheres, negrxs e trans), todas na pauta da vida, genéricas o suficiente para não assustar ninguém, mas firmes no Fora Bolsonaro.

Mas senti falta do novo, de uma visão de futuro, de uma forma nova de estar na rua.

Uma palavra de ordem nova no cancioneiro de verão dos protestos:

“É bom jair comprando, deixa estocado, 15 milhões em leite condensado!”

No carro de som, a faixa: “Sem vacina, sem oxigênio sem governo. Fora Bolsonaro. Em defesa da vida, impeachment já”.

Mas só o PSTU pede também a saída de Mourão, o que acho acertado. Existe o plano de queimar Bolsonaro preservando os militares.

Notei que a figura de Lula voltou ao repertório dos vendedores de camisetas. Uma delas trazia seu rosto encimado pela palavra “Metalúrgica”, escrita com os caracteres da banda Metallica, e “justice for all” embaixo. Também vi duas camisetas “antifa” na banca, o que não é comum.

Estavam lá em corpo, bandeira ou faixa os jovens do Afronte, Juntos, UJS, UNE, UEE, Movimento Negro Unificado, APEOESP, Metroviários, FACESP, SINTRAJUD, uma LGBTQ. Vi 3 camisas do Palmeiras.

Saímos em direção à avenida Angélica, percorrendo parte da avenida São João que fica embaixo do Minhocão. O som lá reverberou muito bem e fizemos boa presença. Notei que a recepção no geral era boa, tinha gente que batia panela nos prédios, e tinha muito homem mal-encarado nas numerosas oficinas mecânicas da avenida.

Os 70 ciclistas abriam o cortejo, e dobramos à direita na avenida Angélica e subimos a passo lento, dando a volta na praça Buenos Aires e atingindo a Consolação através da rua Piauí.

A esta altura eu começava a querer que fosse maior e mais diverso. Ouvir os gritos de Fora Bolsonaro ecoarem pelas ruas onde os moradores apoiaram o capitão era muito bom, um alivio forte depois de tantos anos como alvo de agressão – e a vibração amiga de Santa Cecília nos tinha atingido.

Mas ao mesmo tempo me recordei de como foi o Fora Temer, que também tinha apoio ambíguo dos partidos institucionais. A potência do chamado pelo impeachment, pela vida, é muito forte e reverbera, mas de novo comecei a duvidar que o carro de som e o discurso sindical sejam a linguagem adequada. Tem que ir pra rua como der, mas temos que ser portadores do novo, de um Brasil onde dê vontade de estar. A rebelião tem que ser abraçada, senão ela volta à direita. Não há estado democrático normal para o qual voltar.

Vi o fotógrafo S e nos cumprimentamos.

Imagem de Rogerio de Santis

Chegamos à avenida Paulista e foi lá que ouvi a única fala de potência e de futuro. Quase em frente ao MASP, com seus passantes e pedestres, policiais e turistas, jovens e famílias, soou uma voz que dizia ao microfone:

“Nasci com um rosto de homem (…) mas tenho alma feminina (…) e tenho a maior certeza disso, porque foi Jesus que me falou, e nenhum homem, nem mesmo Bolsonaro presidente, pode falar que a verdade é mentira… eu sou mulher sim, e sou mulher preta também, e somos rainhas desta cidade“…

Imagem de Rogerio de Santis

Vi que a mulher de vestido rosa e panela na mão que tinha visto na rua Piauí tinha caminhado até a Paulista também.

Notei que uns 10 manifestantes faziam um protesto pró-Novalny, que é uma figura de oposição a Putin na Rússia. Os cartazes eram em russo e em inglês.

Avancei para a esquina da Brigadeiro Luiz Antonio, esperando a carreata que desceria para o Ibirapuera.

E aí testemunhei mais uma vez a PM sendo escrota: a polícia de Doria fez o possível para interromper a carreata em todo o seu trajeto – e conseguiu. Nem a PM nem a CET, também presentes, manejaram o trânsito. Ao contrário, ficaram parados nos semáforos multando quem avançasse o sinal. Também paravam as viaturas no meio da carreata para deixar o carro de som se distanciar do corpo dos carros. Além disso, vi que pelo menos 10 PMs revistavam todos os passageiros que entravam ou saíam da estação Brigadeiro do metrô. Uma policial fotografava o RG de uma moça em seu celular privado.

Imagem de Rogerio de Santis

O contraste com carreatas e atos verdeamarelos é gritante: a PM adere e facilita. Bolsonaro pode até cair, mas o bolsonarismo está incrustado nas instituições…

Ainda conversei com um fotógrafo, parado na esquina. Ele não era de São Paulo e disse que esta carreata era maior do que a da semana passada, mas a essa altura, na Paulista, ela já tinha se desfeito.

Saí de lá sem seguir para o Ibirapuera. Pedalei e fui para casa.

Imagem de Rogerio de Santis
Imagem de Rogerio de Santis

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