Carreata pelo impeachment de Bolsonaro em São Paulo

A carreata pelo impeachment de Bolsonaro, chamada pela esquerda, percorreu as ruas da cidade em 23 de janeiro, inaugurando a estação de grandes manifestações.

Todas as imagens deste artigo foram cedidas por Alice Vergueiro.

Desci de bicicleta até a Assembleia Legislativa do Estado, de onde sairia uma carreata pelo impeachment de Bolsonaro. Eram quase 14h e já havia muitos carros na concentração.

Foi um grande alívio ver, pela primeira vez em talvez dois anos, as ruas do bairro livres de intervencionistas verdeamarelos. Muitas das carreatas contra a quarentena saíram de lá. Ademais, a região está cheia de instalações militares, o que dá certo desconforto quando me vejo cercado de bolsonaristas.

Vi três carros de som já estacionados , todos meio pequenos: da Frente Brasil Sem Medo, da UNE e entidades estudantis, e um do Acredito. Esse Acredito não sei bem quem seja, alguma organização “de centro” dedicada à formação de uma Frente Ampla. Tinha pouca gente deles.

Imagem de Alice Vergueiro.

O clima estava descontraído e o sol ainda brilhava sobre os carros e manifestantes que aguardavam a saída. Apesar de notar a presença de bandeiras da CUT, CTB, PT, MST, PCdoB, PSOL, CSP Conlutas e PSTU, fiquei feliz em ver muito cartaz feito à mão, o que no geral indica uma base mais motivada e inventiva, que usa o espaço público para encontros mais potentes.

Grande parte de tais cartazes pediam o impeachment, frequentemente telegrafado como “Fora Bolsonaro”, ou ainda mais concisamente no irretocável “Fora Bozo”. Um outro cartaz me chamou imediatamente a atenção, pela sua franqueza e radicalidade: “Vaginas salvam, ele não!”. Achei incrível colocar assim explicitamente a buceta no centro da luta, relembrando-nos do maior evento de resistência a Bolsonaro de todo o Brasil, que foi a manif no Largo da Batata das mulheres durante a campanha eleitoral de 2018. Achei que o ato ia ser muito mais radical do que esperava. Mas fiquei desapontado depois quando li o mesmo cartaz e percebi que a palavra grafada era “vacina”.

Imagem de Alice Vergueiro.

Muita gente foi chegando, e um anel de aço formado de automóveis cercou todo o quarteirão da Assembleia, e o ruídos das buzinas tomava o ar.

As juventudes e coletivos de partidos estavam presentes, tais como a UJS, Juntos, Afronte, Levante Popular da Juventude, assim como o coletivo Democracia Corinthiana, que levou uma grande faixa que afixou nas grades junto à calçada: “Coletivo Democracia Coritnhiana contra o genocida”.
Um vendedor de bandeiras do Brasil até que movimentava sua mercadoria. Vi muitas bandeiras nacionais na concentração, o que não tem sido tão comum em atos da esquerda.

Imagem de Alice Vergueiro.

Encontrei A e reclamamos como a CUT e o PT antes eram contra o impeachment de Bolsonaro, e que agora tinham mudado de ideia. Nos queixamos da distância que ainda há entre a direção e as bases das centrais e dos partidos. Ela comentou sobre uma treta dentro do PSOL que anima as redes no momento. Concordamos que a sorte do impeachment no Congresso é duvidosa, mas que fazer campanha na rua abre brecha.

A vacinação e o covid-19 eram muito citados em cartazes e bandeiras, o que não é surpreendente. Um pequeno A3 trazia “Viva a ciência, fora o obscurantismo. Impeachment já”. Mas achei que só um cartaz foi direto ao ponto que importa no momento – precisa cassar a chapa toda: “Nem Bolsonaro nem Mourão”.

Notei uma camiseta com a Graúna do Henfil, com os dizeres “Diretas Já”. E pelo menos três “Lute como uma garota”. Vi uma bandeira grande “Antifascist Action”, mas vi bem poucos autonomistas.

Imagem de Alice Vergueiro.

Depois de uma meia hora deu para arriscar uma avaliação do perfil dos manifestantes. Achei que tinha muitos “velhos petistas”, isto é, gente de 50 a 60 anos, às vezes com suas famílias. Além deles, os referidos jovens de partido e outros militantes. Até achei que havia uma classe média mais genérica, menos vermelha, mas foram poucos. Já na Paulista, vi um carrão com um jacaré inflável amarrado ao capô, e o motorista parecia bem coxinha.

Imagem de Alice Vergueiro.

Mas foi junto à entrada do Círculo Militar que vi um Jeep com dois figuras muito estranhos. Parados como todos os outros carros dentro da enorme cobra de metal que mordia seu próprio rabo, dois homens de uns 30 anos faziam festa. Um deles trazia um livro à mão, que era a bibliografia do Marighella. A famosa canção de Vandré irradiava do carrão dos moços, que, apesar da camiseta preta, tinham um look totalmente bolsonarista: boné e óculos escuros, bermuda de corte caro, tecido novo e bem tratado. Achei que eram peixes fora d’água e mal intencionados. Desconfiei e fiquei um pouco para ver, achei tudo neles fake. Mas nada de conclusivo se apresentou.

Segui pela Abílio Soares até a avenida Pedro Álvares Cabral e notei que o acampamento de extrema-direita ainda está lá na praça. Eles estão lá há pelo menos dois anos, umas três barracas grandes com faixas “Endireitando São Paulo” e outras pedindo o impeachment – de Dória. Somente três homens tristes estavam no local, afogados pelas buzinas e palavras de ordem.

Um vendedor ambulante percorria o espaço entre os carros gritando “Água antifascista e água Fora Bolsonaro olhaê”.

Imagem de Alice Vergueiro.

Eram quase 15h quando pareceu que sairíamos. Saí com o carro de som da UNE e estudantes, mas deu para ver que ia demorar até destravar e escoar o tráfego de veículos.

Contornamos o Monumento às Bandeiras, onde uma enorme faixa trazia “Queremos respirar, impeachment já. Chega de sufoco. Frente Brasil Sem Medo”. Saímos em direção à Sena Madureira, que leva o tráfego até a avenida Domingos de Morais, esta já na crista do espigão onde também fica a avenida Paulista.

Imagem de Alice Vergueiro.

Existe algo inerentemente broxante na carreata. O confinamento dentro do automóvel, a emissão de gases tóxicos, o isolamento… A esquerda em geral gosta da manifestação como lugar de encontro, uma espécie de performance da potência do lugar público. Buzinar de dentro do carro é mala. Mas curiosamente o formato tem boa presença no cenário urbano da cidade. Parece que os passantes e pedestres dão atenção ao automóvel, e o auê nas ruas era bom.

Subi até a crista do espigão com o carro de som, mas me adiantei até a esquina da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, achando que a carreata poderia ter mais de um tentáculo – o que não foi o caso.

Imagem de Alice Vergueiro.

Aguardei que chegasse a carreata, liderada por um grupo de umas 60 bicicletas e lambretas, e segui com ela. Eram 16h. Já chovia mas a animação estava boa. Muita buzina. Ouvi o Guilherme Boulos falar do alto do carro de som. Ele disse que “Este é o dia D e a hora H. O Brasil não tem medo de Bolsonaro e seus milicianos. A vida vai vencer esse governo da morte”.
No caminho, vi a bandeira da UNEGRO, a plurinacional boliviana, uma LGBTQ, uma com os dizeres “Acabou Porra!” e outra Dilma Presidenta, e ainda um cacho de bandeiras do PDT. Passamos pelo MASP e já havia uma outra manifestação com seu próprio carro de som. Passamos por ela sem mais, era alguma campanha em prol de uma condição médica.

Imagem de Alice Vergueiro.

Nessa hora decidi não acompanhar a carreata até a Praça Roosevelt, mas fazer o caminho inverso e contar todos os carros. Calculei uns mil automóveis, o que não é mal mas parecia menos do que havia na ALESP.
A PM estava pouco agressiva mas escrota, interrompendo a carreata nos semáforos. Um orador disse que os motoboys presentes estavam reclamando que os policiais estavam multando todos as motocicletas da carreata. Quando acompanhei as carreatas da morte bolsonaristas, contra a quarentena, o apoio da PM era explícito.

No total achei uma boa carreata, expressiva em termos de números. O potencial de mobilização da campanha pelo impeachment é alto, dá para ver que a sociedade está sensível ao chamado, possivelmente depois dos eventos catastróficos de Manaus. A carreata de hoje foi mais institucional, com muito militante. Mas vai valer a pena sair à rua.

Acompanhei outra manifestação pelo impeachment de Bolsonaro, pequena, na mesma avenida mas no domingo dia 17 de janeiro. Só jovens, mobilizados por Facebook. Achei que há essa vontade mais autônoma, especialmente de jovens, de organizar essa luta. Há neste momento uma disputa pelo protagonismo do movimento, grandes interesses. Mas ainda há espaço para pequenas e médias mobilizações auto-organizadas, mais múltiplas e interessantes.

Pedalei pela Vergueiro e fui para casa.

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