Primeiro ato bolsonarista pós-Queiroz

No domingo 21 de junho 2020, a primeira reação pública da base bolsonarista após a prisão de Fabrício Queiroz…

Imagem: Ronaldo Miranda

Saí às 13h30 para ver o ato bolsonarista na avenida Paulista em São Paulo. Era a primeira manifestação de apoio ao presidente desde a prisão de Fabrício Queiroz. Este foi um evento que põe em risco o projeto bolsonarista, e potencialmente contamina tá presidência com a pecha da corrupção, o que potencialmente traz dilemas morais para a base. Hoje tentei detectar como isso afetou o apoio público ao presidente.

Cheguei ao ato perto das 14h e estavam lá em frente ao Shopping Paulista, e não na FIESP, que fica a poucos metros de lá, como é de costume entre eles. Tinha um carro de som e umas 150 pessoas – ao final chegou a umas 250-300.

Logo ouvi o orador falando da Polícia Militar. Agradecia seu trabalho lá e afirmava que eles bolsonaristas tinham o apoio da corporação, assim como das forças armadas.

Imagem: Ronaldo Miranda

As pautas Fora Dória e contra a Globo prevaleciam nas mensagens escritas. As três ou quatro grandes faixas de costume, contra o governador, foram estendidas. Mas notei que havia muitos cartazes feitos à mão, inclusive um de um casal negro, que me chamou a atenção: “Preta Pobre Estudante Bolsonarista. Não me vendo para o sistema”. Outras mensagens manuscritas: “Supremo é o povo”, “Fome, e daí, Dória faz isso para seu bem”, “Prisão para crimes da toga”, “Fora Tofolli e Gilmar”.

Ouvi uma mulher no carro de som que falou muito de valores cristãos e contra o comunismo. Mas, no geral, no que tenho visto de manifestação de direita, questões de moral e religião são secundários e ocupam a pauta só quando os temas mais políticos são evitados. De fato, ouvi um outro orador ser muito explícito, dizendo que “não queremos a intervenção militar, somos democráticos. Não queremos o fechamento do STF, temos que ser pacientes e fazer isso dentro da democracia”. Isso estava em vivo contraste com algumas camisetas e faixas que vi lá, e também com o tom das manifestações dos últimos meses. O viés insurrecional e revolucionário parece ter sido atenuado hoje por medo de sanção legal – muitos sites e blogs de direita estão tirando vídeos do ar (mais de 700), numa tentativa de apagar rastros de ação ilegal. O Supremos Tribunal abriu processos contra atos antidemocráticos, seus financiadores e difusores.

Vi um faixão verdeamarelo no chão, de uns 5×20 m, com o escrito “O povo contra a corrupção”. Vi uma faixa “#Libertem Sara Winter”.

No carro de som, vi bandeiras do Brasil, da Ucrânia fascista, da Espanha, e da Liga Cristã Mundial, além da faixa “Você cristão, lute conosco”. No meio do povo, vi bandeiras do estado de São Paulo, uma camiseta “300”, outra com “Intervenção Militar com Bolsonaro no poder”. Vi máscaras com a efígie de Bolsonaro e também com a bandeira de Israel.

Vi que umas daquelas estátuas humanas, um anjo todo de branco, segurava uma bandeira do Brasil. Acho que é mais oportunismo do que patriotada do anjo-artista, a exemplo do sósia do Roberto Carlos, que frequentemente canta na avenida Paulista aos domingos. Ele aparecia muito de terno verdeamarelo durante as jornadas do impeachment de Dilma, mas já o vi em um terno vermelho e branco, que usa em atos de esquerda.

Imagem: Ronaldo Miranda

Chegou R e fomos checar o resto da avenida, para ver se havia movimentação. Ele contou que tinha faixas militaristas na esquina da Brigadeiro, mas não vimos mais nada até a Praça do Ciclista, quase na Consolação, que também estava vazia. O aparato policial numeroso mas discreto.

No caminho, uma senhora bolsonarista nos ouviu conversando e provocou. Não resisti e logo perguntei “e o Queiroz?”. Faz tempo que evito discutir na rua (é infrutífero e convida à violência), e me arrependei em seguida. Mas foi notável que a reação tenha sido contra o Lula. Acho que o Queiroz de fato pegou pesado entre eles e reverteram ao ultrapassado antipetismo.

Voltamos ao ato e vi uma faixa “Movimento pela reabertura dos ‘comércios’ de Mogi das Cruzes’. Mogi das Cruzes não pode quebrar”.

Vi uma bandeira do Brasil imperial, que é uma posição política difícil digerir. Vi uma camiseta “Foda-se a esquerda” e outra “Olavo tem razão”.

Imagem: Ronaldo Miranda

O carro de som irradiou aquelas músicas da campanha presidencial cujos cantores tem um sotaque hispânico, de novo. Era um rap meio fascista, e o sotaque me sugeria que há uma aliança direitista latino americana que produz tal material. Logo depois tocou a cançoneta “Eu te amo meu Brasil”, dos tempos da ditadura, que esse povo adora e para a qual fazem sua canhestra dancinha.

Vi dois pixulequinhos, que são aqueles bonequinhos infláveis: um de Bolsonaro e outro de Dória-Hitler.

Vi os cartazes: “Nunca troque a liberdade por segurança”, e outro “Use sua liberdade para trabalhar”, “Policial bom, policial vivo”.

Passadas as 16h, já estávamos exaustos: a reiteração era forte, nada de novo era enunciado.

Caminhamos pela avenida e vimos as faixas na esquina da Brigadeiro: “We don’t want communism. SOS FFAA”.

No total, achei que o ato pode ser lido como uma reação instintiva inicial, e que o revelador vai ser nas semanas seguintes, quando detalhes das transações do clão Bolsonaro ganharem o noticiário, como colocou R. Com o Gabinete do Ódio avariado, vai ser mais difícil o bolsonarismo defletir as más notícias e manter apoio vivo. A base do presidente acorreu hoje como vinha acorrendo nas semanas passadas, nas carreatas e tal. Mas seus números ainda são reduzidos, e certamente não estão capilarizando sua mensagem pela sociedade. O real engajamento das polícias ainda é uma incógnita. O presidente acuado é um perigo, mas o poder real de suas cartas ainda está coberto pelo blefe.

Atravessei o viaduto e fui para casa.

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