Quarto Ato do MPL contra o Aumento da Tarifa

No dia 23 de janeiro de 2020 o movimento contra a política de transporte de São Paulo continuou com novo ato e passeata no centro da cidade. A PM agrediu…

Todas as imagens: Rogério de Sanctis

Encontrei E na catedral da Sé e fomos até o Terminal Parque D. Pedro para o ato do MPL. Chegamos às 17h15 e já tinha gente lá – e também a PM.

O Terminal é grande e também um importante portal para a Zona Norte da cidade de São Paulo, uma área estrategicamente sensível.

O entorno imediato do lugar é dominado pela economia do transporte que ali aflue: muitos botecos, restaurantes populares e lojas abrem suas frentes para o Terminal. Além disso, a rua 25 de Março, com seu intenso movimento de mercadorias, fica logo ao lado, então muita gente passa, fica ou trabalha pelo local: ambulantes, desocupados, trabalhadores intermitentes, prostitutas, sem-tetos, carregadores e motoristas, que se cruzam pelas praças que perfazem o lado de cá (Sé) do grande charco que era esta planície (a ladeira Porto Geral era exatamente onde acostavam as piraguas que circulavam nos igarapés hoje soterrados).

O Terminal fecha de noite, mas a vida a seu redor continua, especialmente na madrugada, quando os trabalhadores que descarregam os caminhões que abastecem o Mercado Municipal vêm descansar e socializar ao redor de fogueiras no chão e do pequeno comércio noturno. Foi ao lado do Terminal que vi pela primeira vez o que então, mais de década atrás, achei inédito e incrível: o karaokê de forró ao vivo.

Então a potência de um ato contra o aumento da tarifa naquele lugar é muito grande.

Foto: Rogério de Sanctis

Mas a PM estava lá e novamente buscou esvaziar o local e isolar a manifestação. O mesmo aparato da semana passada foi mobilizado, e os ambulantes que normalmente ficam embaixo da passarela foram todos varridos.

Logo vimos M, mais os fotógrafos A e R. A trouxe o seu trompete e peças de bateria completaram a fanfarra, que ficou conosco até o fim.

Depois do violência da semana passada na praça da República, havia muita tensão no ar. O que aconteceria hoje? Mais, menos ou igual? Alguém brincou que faríamos um bolão para ver quantos metros andaríamos hoje antes de sermos barrados e atacados.

A lembrou que em 2013 um ato do MPL chegou até este mesmo terminal, e, em retaliação à violência policial, um grupo conseguiu criar um caos espetacular dentro das plataformas. Um oficial da PM foi atacado e só foi salvo porque um P2 (policial infiltrado) sacou sua arma e fez que ameaçava o seu colega para tirá-lo de lá.

Vi as faixas do MPL no chão (“Por uma vida sem catracas” e “R$4,40 não dá”), além dos cartazes tipo ‘pirulitos’. Vi também as duas faixas dos Ecossocialistas do PSOL, uma camiseta da UJR.

Um moço negro veio falar conosco e disse que já pulava a catraca nos anos 1980, quando a passagem era R$1,10. Disse que frequentava o bairro de Pinheiros e citou o Sandália de Prata e outras casas da época na região.

Foto: Rogério de Sanctis

Vi os três moços da Defensoria Pública de São Paulo, sérios com seus jalecos verdes e pranchetas na mão (gente, quem usa prancheta hoje!). Fui informado que o Ministério Público foi acionados por três entidades depois da violência policial da semana passada. A OAB, vi depois, estava lá também. Julguei que eles atenuariam o pior da ação da PM, mas é difícil falar que hoje a polícia foi menos violenta.

De fato, quando o ato foi para a rua e ia sair, a força policial apareceu toda: os 100 jalecos verdes, os 30 BAEP, as 12 motocicletas da ROCAM, os 8 PMs do comando, mais as viaturas atrás.

As entradas do Terminal foram guardadas o tempo todo, e as negociações foram tensas.

Admiro muito as moças do MPL que fazem a negociação. Frequentemente cercadas de enormes policiais, às vezes dentro de um anel de mais de 20 escudos, tentam negociar o mínimo com a PM e também tentam entender o que está sendo planejado pelas forças de repressão.

Não pude deixar de notar que nessa hora da negociação a fanfarra já estava animada e tocava “se você fosse sincera, ôôôô, Aurora…”. Mais tarde, cantaram o refrão, mas invés do nome de mulher gritavam “ca-tra-ca”.

O jogral informou que iríamos até a estação Liberdade do metrô e que queriam passar pela catraca sem pagar a passagem.

Saímos pela rua que ladeia o terminal e que dá na rua Rangel Pestana, e muita gente veio encostar na grade para ver, de dentro, a gente passar. As calçadas estavam cheias e parte do povo vibrou conosco.

“Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se seu salário aumentou!”

A luz ainda era boa e generosa, apesar do nublado e do leve chuvisco. A presença humana local impediu a melancolia de caminhar cercado pelo centro vazio e escuro, como às vezes é o caso.

Vi bandeiras negras.

Foto: Rogério de Sanctis

Os manifestantes éramos uns 200, e as duas colunas de policiais nos cercavam completamente, isolando a passeata do resto da cidade. As motocicletas na frente e viaturas atrás. Atiradores à vista, pelo menos uns 4.

Vi M, E e R. Vi uma bandeira do JUNTOS e outra do POR4, e também uma da Juventude do PT.

Subimos a Rangel Pestana à direita e notei que um carroceiro vinha conosco, na rabeira da passeata. Sua carroça trazia uma puída bandeira do Brasil e um cartaz “Ditadura Nunca Mais”.

Dobramos à direita na rua Roberto Simonsen e depois à esquerda na rua Venceslau Brás, que dá acesso à Praça da Sé. Seguimos pelo Páteo do Colégio, onde vi o “impostômetro” da Associação do Comércio, um placar que indica o quanto se paga por segundo de impostos no Brasil. A CUT tem um placar eletrônico semelhante, em outro lugar, mas trata-se do “sonegômetro”, que metrifica o quanto se sonega no país a cada segundo.

O povo tirou vantagem do eco incrível que a rua Boa vista oferece, cantando palavras de ordem: “fecha o terminal, fecha o terminal, pula a catraca e faz greve geral!”.

Paramos em frente a Secretaria dos Transportes (“esta é a Secretaria da Catraca”), ainda na Boa Vista e fizemos um jogral antes de alcançar a estação São Bento do metrô. Eram 18h15.

Quando subíamos a rua Líbero Badaró, E apontou um grande mural em uma empena cega de prédio, que trazia a figura de Raul Seixas.

Aqui a cidade estava mais vazia e escura, com muitos homens mais velhos, porteiros e zeladores de cara fechada, olhando feio. Um deles nos filmava com seu celular a partir de um estacionamento deserto. Sua camiseta trazia “A primeira ressaca do ano”.

Vi um cartaz que era na forma de um helicóptero, com os retratos de Dória e Covas.

As passeatas do MPL normalmente trazem as grandes faixas de abertura e de fechamento à altura do chão, mas nenhuma faixa alta ou bandeira do Passe Livre. Por causa do grande número de pessoas que caminham na frente da faixa, quase sempre é difícil ler a mensagem principal do ato. Para quem está de fora, as bandeiras das agremiações que nem sempre estão na raiz do movimento aparecem mais e diluem a pauta principal dos protagonistas principais.

Foto: Rogério de Sanctis

Passamos pela Prefeitura e fizemos breve pausa com jogral em frente a Secretaria de Segurança Pública, antes de ganhar o Largo São Francisco.

Notei que uma moça da rua dançava na frente da faixa com o povo, de bermuda e uma camiseta cinza onde, atrás, se lia “Jesus”.

A fanfarra tocava Bella Ciao.

Seguimos pela rua Benjamin Constant até a praça da Sé, onde vi uns 30 homens magros e tristes sentados na escadaria da catedral, desolados.

Ladeamos o templo até a praça João Mendes para ganhar a avenida Liberdade.

Ela estava escura e fizemos um breve jogral em frente do Açougue Parisiense, e seguimos adiante.

Logo encontramos uma barreira policial formada pelos PMs que nos tinham ladeado, mais o BAEP e a cavalaria, o Choque e a Força Tática que tinham vindo ajudar.

A fanfarra atacou de “Tequila”.

Foto: Rogério de Sanctis

Notei um cartaz de papelão, que era no formato de uma cara de palhaço: “R$4,40 é uma palhaçada”.

A PM tomou posição por toda a área, com seus atiradores, escudos e cavalos. O BAEP, com seus gorros e escudos de metal, uns 20, guardavam em linha a fachada da agência do Bradesco.

Foto: Rogério de Sanctis

As negociações foram tensas, ficamos uns 15 minutos parados.

Um homem da rua chegou dançando feliz ao som da fanfarra, empurrando um carrinho de bebê com seus pertences. Um PM imediatamente ralhou com ele e o fez sair fora.

Afinal passamos para dentro do Largo da Liberdade, completamente cercados de uns 300 homens e animais armados. Paramos.

Chequei a estação de metrô e vi uns 15 seguranças de uniforme preto, mais uma linha de 15 escudeiros. Além disso, aquelas grades portáteis de gado barravam o fluxo na frente das catracas, dentro da estação.

Fez-se novo jogral, marcando novo ato para o dia 30 na frente da Secretaria de Segurança Pública, às 17h.

Foto: Rogério de Sanctis

A queima cerimonial da catraca aconteceu. Eu estava meio de fora, mas deu para notar que o fogo subiu muito.

O ato foi oficialmente encerrado e as pessoas começavam a dispesar. Eram umas 19h20.

Mas a polícia começou a atirar (contei dois disparos) e o povo que ainda estava por perto saiu correndo. Não tentaram fazer catracaço nem nada.

Foto: Rogério de Sanctis

O BAEP saiu gritando de cassetete em riste, e o resto da tropa se movimentou também. Lançaram três bombas, acho que duas de gás e uma de concussão.

O povo correu pela avenida Liberdade na direção da Sé. Eu fiquei deste lado e vi um moço negro ser detido com extrema violência. Ele era esmagado ao chão por 5 PMs e o moço gritava muito “vocês são racistas!”. Cheguei perto e observei.

Um dos PMs se irritou com um povo que juntava à volta deles, testemunhado a violência. Ele ordenou a uma PM “vai lá abordar! É tua função”. A policial foi em direção do povo que testemunhava tudo e agarrou meio aleatoriamente uma moça do MPL, que enquadrou na grade da ilha central, onde eu estava. Os documentos da ativista foram checados, sua mochila revistada e os panfletos que levava na bolsa foram sequestrados. Contaram-me que mais panfletos foram tomados de outros manifestantes.

Também a catraca queimada foi retida, sob a alegação de que era “prova de crime de dano ao patrimônio”, cuja evidência era um borrão de tinta vermelha na fachada do Bradesco.

Li depois que um total de 4 manifestantes foram detidos.

Foto: Rogério de Sanctis

Enquanto isso, vi os PMs que detinham o moço puxar o cabelo dele, e dois outros PMs deram dois chutes nele, que estava imobilizado no chão.

O mediador principal, de nome Crúvel, acho que tenente, estava passando e eu disse: “Eu vi dois chutes, e ele teve seu cabelo puxado. Vai lá mediar”. Ele hesitou mas foi falar com os PMs, pedindo para que eles abrissem a roda à volta e em cima do moço. Eles fizeram pouco do sargento, que ficou meio sem jeito.

Chegou a viatura que levou o manifestante, e o pessoal exigiu que revelassem para onde o levavam, e só quando pressionaram o sargento mediador é que soubemos que seria a a 2a DP, no Bom Retiro.

Eram 20h15 quando resolvi subir a avenida Liberdade e sair fora. No caminho, notei certa movimentação policial ainda, incluindo um caveirão, que é um enorme veículo blindado do Choque, passar em direção ao centro, passando por mim na altura da Casa de Portugal. Li depois que o povo se espalhou pela região do Viaduto do Chá.

Subi a avenida e fui para casa.

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