Domingo da Carreata da Morte

No dia 19 de abril 2020, uma carreata e manifestação bolsonaristas incandescem o cenário político com celebração da morte.

Foto: Jornalistas Livres (vídeo)

Hoje consegui seguir uma carreata bolsonarista. A quarentena tem nos impedido sentir a temperatura das ruas, e no geral deixa o espaço público aberto para a expansão da extrema-direita. Sabia das carreatas pelas redes, mas é sempre difícil saber a real extensão e impacto delas nas ruas apenas pelso registros videográficos

O presidente tem falado contra a quarentena e tenta culpar os governadores e Congresso pelas mortes que já estão ocorrendo. Vi hoje o vídeo onde ele participa de manifestação em Brasília, e nacionalmente houve atos pró-Bolsonaro com forte teor golpista. As carreatas fazem parte deste esforço de minar as medidas sanitárias. Li depois que ele irradiou mensagem aos manifestantes em São Paulo por um celular.

Saí de bicicleta às 13h30 e segui para o Ibirapuera, onde haveria a concentração antes da carreata. Como hoje é o dia do exército, os atos em todo o Brasil foram marcados na frente dos quartéis. Cheguei às 14h15 e logo vi a carreata saindo. Segui com eles ao longo da rua Estados Unidos.

Logo de cara vi uns 4 ou 5 caminhões à frente do cortejo. Fiquei alarmado, já que até agora as bases bolsonaristas – como o próprio presidente – estão algo isoladas, e a adesão dos caminhoneiros seria decisiva.

Da mesma forma, a massa dos trabalhadores precários, essenciais e de todos aqueles que não podem se dar ao luxo de ficar em casa, forma um barril de pólvora que a faísca bolsonarista busca detonar.

Mas logo notei que os caminhões pareciam ter algo de cenográfico, como que saídos de uma concessionária… isto é, as calotas brilhavam ao sol, a lataria estava impecável… Estes caminhões não percorreramas estradas do Brasil.

Mas as vans escolares eram genuínas, umas 7 delas. Contei mais de 200 motocicletas, incluindo entregadores, hells angels e motos customizadas em formatos bizarros. Contei ao todo uns 450 veículos de quatro rodas, incluindo uma van da Aliança pelo Brasil, o partido de Bolsonaro. Achei que a ocupação média de um carro era de 2.5 ou 3 ocupantes.

Cruzamos a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, e depois a 9 de Julho, onde parei para observar. Um dos relógios no canteiro da avenida trazia mensagens publicitárias: “Fique em casa, Stay Home, Estamos Aqui Por Você”.

Deu para ver pedidos de intervenção militar e de AI-5. Pelo menos 3 carros irradiavam canções militares. Vi uma bandeira de Israel e um pavilhão imperial brasileiro. Muito verdeamarelo e bandeiras do Brasil.

O carro de som oficial (“Trovão Azul”) liderava a carreata. Tinha orador com microfone e trazia as faixas “MDC (Movimento Direita Conservadora)”, “Lava Jato Fica” e “STF Vergonha Nacional”, e, escrito em giz na parte de trás, “Pelo fim do ICMS, 0% de PPI”.

O barulho que faziam era ensurdecedor, mas não pude deixar de notar que percorríamos uma cidade vazia e indiferente. Até havia carro que passava buzinando em apoio, mas quase ninguém nas janelas ou nas ruas fazia festa, mesmo quando cruzamos o bairro dos Jardins.

No entanto, vi muitos carrões caros no cortejo, e, quando chegamos à Paulista horas depois, tive a nítida impressão que a elite comprou Bolsonaro.

A PM aparecia de vez em quando, às vezes ficavam parados nas travessas, observando. No geral, ela ajudou a carreata e foi muito solícita.

Vi muito adesivo e cartaz impresso, pouquíssimas mensagens feitas à mão, sugerindo que há financiamento e organização central, que trouxe e distribuiu o material. As pautas principais eram Fora Dória, Fora Maia e Fora STF. Vi faixas e alguns cartazes com AI-5 e “Intervenção Militar”.

Dobramos à esquerda na avenida Rebouças. Aguardando o sinal, fiquei perto de um jovem de barba que conversava com um dos 4 PMs que estavam de pé na esquina. O jovem arengava o policial, dizendo que “tem muita coisa errada agora”. O PM sorria.

Desci a avenida e atravessamos a ponte Eusébio Matoso. A essa altura, rezava para que o destino não fosse o Palácio do Governo, que é no topo de uma subida maligna para o ciclista.

Rolou que tomamos a marginal em direção à Ponte Estaiada, que era o lugar da próxima parada. Passamos embaixo de uma faixa presa à ponte: “Governador, São Paulo está com você. Fique em casa”.

Numa das pausas ao longo da Marginal, eu estava mais afastado, aguardando o movimento, quando um motoboy parou e disse “Esse pessoal está louco!”, e foi embora.

Chegando lá, a carreata parou e ficou mais ou menos uma hora. Ocupamos toda a extensão da ponte, mais uma boa extensão da marginal. A PM organizou o fluxo.

Pude observar melhor as pessoas, que desciam dos seus veículos.

Vi algumas mulheres, as senhoras coxinhas de costume, mas também moças, num estilo “jovem perua” – cabelos tingidos, colã de academia apertado, maquiagem. Vi algumas crianças.

Mas a maioria eram homens. Tinha os senhores de 50-60, mauricinhos, grisalhos. Estes são os que sempre demonstram menos emoção ou empolgação, parecem levemente constrangidos no meio de um ato público. Dentre eles, os numerosos motociclistas com suas harleys e panças.

Mas achei que desta vez a manifestação tinha trazido muitos militantes de movimento, homens de 30-40, jeitão militar, muito à vontade na condução das manobras de veículos e na expressão de protagonismo político.

Achei notável que esta carreata, que eu consideraria um sucesso, dadas as circunstâncias, tenha sido realizada estritamente por bolsonaristas: de movimento, só o MDC. Nenhum outro grupo da constelação extremista ou conservadora estava presente.

Chamou-me muito a atenção um figura, de uns 60 anos, que tocava uma gaita-de-foles, e a tocava mal. O instrumento conhece várias configurações, e esta era a escocesa. Há certa tradição militar global que adota o instrumento, sejam tropas ex-coloniais, como na Índia, seja certo catolicismo militante. Já vi a antiga TFP com seus estandartes e moços gaiteiros na avenida Paulista.

Mas este senhor vestia uma camisa da CBF, e nas costas trazia o nome Chicão. Muita gente filmava ao celular. O Chicão tocou uns 20 minutos e parou.

A Globo foi muito xingada, invariavelmente chamada de “Globolixo”. A sede da emissora é ao lado da ponte.

Quando ouvi gritos de “Paulista!”, entendi que a carreata iria para lá. Quis me adiantar a eles, e tomei a avenida Santo Amaro até o pé da avenida Brigadeiro, que me levaria à Paulista.

Nos arredores da ALESP notei um zumzum de verdeamarelos e fui checar. Em frente ao Comando Militar do Sudeste havia uma manifestação, que tinha sido o ponto de partida da carreata. Fiquei um pouco para ver. Eram umas 16h.

Aqui o tom era abertamente golpista. Muita faixa presa às grades com “Intervenção Já”, “AI-5”, “Intervenção militar com Bolsonaro presidente”, “Feche o Congresso”, “Fim do PPI Já”.

Achei o público mais diverso socialmente, tinha um ar de reunião das famílias de militares. Um carro trazia um megafone de potência média, e canções militares e falas se alternavam. As falas eram bolsonaristas e militaristas.

Contei umas 700 pessoas.

Mas notei um outro moço que, ao lado, pegou seu megafone e, fazendo uma live, começou um discurso mais radical e insurrecional. Tinha uns 30 anos e detonou a classe política como um todo e falava abertamente que a rebelião era necessária. Dizia que “a nova vida vai ser melhor, mas vai ser com Bolsonaro”.

Queria ainda alcançar o fim da carreata na Paulista, e saí fora depois de meia hora.

Encontrei o cortejo de carros logo na saída e subi a Brigadeiro com eles.

Muita buzina, agora com pedestres e moradores olhando. Mas não pude deixar de notar que as janelas dos prédios permaneceram, no total, vazias. A euforia da carreata não contagiava uma São Paulo fantaśmica.

Cheguei a pé empurrando a bicicleta na esquina com a Paulista, e três caminhões faziam a curva à esquerda. Eram 17h.

Fiquei surpreso com a apoteose. Tinha bastante gente fazendo festa, as buzinas reverberando, e desta vez, bandeiras e gente abanando às janelas do prédios. Vi que já tinha bastante gente lá no asfalto, muita euforia.

O carro de som, enquanto isso, irradiava em meio aos buzinões das carretas: “Obrigado PM! Obrigado à polícia militar!”

Já anotei em relatos passados como o bolsonarismo celebrou um matrimônio público com a morte. Os bolsominions foram publicamente consagrados como agentes da morte – tanto a dos outros, dos pobres e “esquerdopatas”, quanto deles mesmos, em sacrifício. Bolsonaro parece despertar e organizar alguma pulsão de morte coletiva. A pandemia veio explicitar isso, e a presente alucinação desta gente passeia em devaneios mórbidos. Tenho lido comentários que descrevem o Bolsonaro como o líder que incorpora o contágio, pois ele trouxe o vírus e o espalhou no Brasil, sendo simultaneamente a imunização mística e de contágio destruidor.

O apocalipse é o último livro da bíblia cristã, e traz a noção da destruição do presente para a vinda do futuro reino de deus. A destruição é necessária e bem-vinda, e por isso cristãos toleram figuras como Trump e o Bozo, que operam o plano de deus, mesmo sendo impuros. Uma espécie de milicianos de deus.

Para quem tem que ir para a rua trabalhar ao mesmo tempo que ouve que sair de casa é morte certa, ver o presidente andando como um colosso nos campos da morte é muito potente. A imunização mística misturada com sacrifício e suicídio parece mover esta fugira do líder fascista gigante.

A euforia que eu testemunhava parecia ser uma espécie de libertação da quarentena, uma rebelião contra o confinamento que achava erupção histérica naquele asfalto, uma espécie de celebração do fim de tudo.

Muita gente fazia lives, filmando a si mesmas, como que em transe, algumas em furiosos transportes de ira.

O carro de som estava na frente da FIESP, já com um povo lá. Fui percorrer toda a extensão da avenida para avaliar o tamanho.

Tinha carro e gente até a rua Augusta. Pedalei de volta até a avenida Brigadeiro contando os veículos.

Contei 756 carros e kombis e caminhões, mas não as motocicletas.

Retirnei contando as pessoas que não estavam obviamente ao redor ou dentro de veículos, e achei que havia uns 1.100 corpos, 500 deles em frente à FIESP junto ao carro de som.

Tentei observar as pessoas e achei que aqui a diversidade era maior ainda. Os tiozões e tiazinhas coxinhas estavam lá, mas vi muitos jovens e negros e negras. Vi um carroceiro, com seus 5 filhos pequenos, de verdeamarelo no asfalto. Tinha mais de um adolescente vestido ao estilo emo-fascista (semi-militar, mas com couros negros e correntes e medalhas, quepe), pelo menos uma bandeira LGBT, crianças, casais, velhinhos solitários – e os homens de 30 anos.

O povo gritou muito “Bolsonaro tem razão!”, e lembrei da campanha de 2018.

Fui a muitos atos bolsonaristas de campanha, incluindo o ato da vitória, e em todos eles o Bolsonaro estava ausente. Isso do “mito” estar distante acaba tendo um empuxo emocional louco, uma espécie de pai ausente cuja atenção precisamos merecer. Uma dos gritos conduzidos pelo orador foi justamente “Bolsonaro, presente!”, que o povo repetiu muito.

O governador João Dória foi muito atacado, assim como a esquerda e o PT.

Notei que a música sertaneja tinha dominado o dia. Aqui na avenida ouvia de novo canções “old school” desse gênero.

Mas uma pickup aberta, preta, fazia brilhar seus LEDs na noite que já caía e tocou de uma música que era uma espécie de mistura de funk pancadão com a música do meme do funeral em Gana, cuja letra era quase só: “Bolsonaro tem razão. Globolixo”. Imediatamente 6 ou 7 coxinhas, homens e mulheres de uns 60 anos, vestidos de verdeamarelo, se aproximaram sorrindo com seus celulares em punho.

É louco o poder que o funk tem no Brasil. De expressão claramente popular, o som exerce atração hipnótica sobre uma elite que ao mesmo tempo não vê problema em justificar massacres como o de Paraisópolis justamente pela associação da favela ao funk.

Já o meme do funeral africano, onde dançarinos levam o caixão dançando ao som de trilha eletrônica, foi um marco que o futuro precisa ficar sabendo! No Brasil, surgiu nos memes críticos ao culto bolsonarista da morte, mas foi incorporado por eles – hoje na forma de um funkadão eletrônico associado a um funeral.

No geral de hoje, achei que o movimento é ainda minoritário, mas cresceu. Na semana passada, eram apenas 200 pessoas em ato no Ibirapuera.

A chamada hoje foi claramente para o golpe, mas não está claro se Bolsonaro tem essa força toda.

Talvez seu perigo resida no contágio, no espalhamento futuro da narrativa de destruição e caos para uma sociedade desagragada e em pânico, quando aí sim um levante popular mais elite assustada e classe média acuada faça com que não haja escolha para as direitas senão uma ditadura bolsonarista.

Talvez ainda, o objetivo seja só criar ruído, ocupar o espectro da informação com essa pantomima macabra, impedindo a formulação alternativa de saídas e futuros. Talvez o presidente queira apenas figurar como um espantalho maligno eternamente rebaixando nossas expectativas, de modo que as pautas daqueles que operam tal títere possam passar.

De qualquer forma, testemunhei hoje uma tendência de crescimento e capilarização do bolsonarismo. A quarentena parece perder força, e quando as mortes explodirem, os governadores vão ser obrigados e impor o “lockdown”, a quarentena obrigatória. As PMs estaduais é que fariam isso funcionar, e estas são notoriamente bolsonaristas – e poderiam se recusar a fazê-lo, aí sim causando o caos onde a intervenção militar com estado de exceção teria que acontecer.

Eram 15h45 quando cansei e fui para casa.

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