Ato Bolsonarista na Paulista

No dia 15 de março de 2020, um ato governista acontece sob o impacto do coronavírus. Golpe de mestre ou improviso atrapalhado?

Foto: Jornalistas Livres (vídeo)

Eram 13h20 quando cruzei a praça Oswaldo Cruz, onde começa a avenida Paulista, para ir checar a manifestação pró-Bolsonaro.

O ato foi marcado e desmarcado um par de vezes. Só os mais leais ao presidente ainda insistiram no ato, mesmo depois de desistências de empresários governistas. Em São Paulo, só o MDC (Movimento Direita Conservadora) bancou a manifestação, que o próprio presidente tinha contraditoriamente desencorajado – depois de ter feito a chamada em rede nacional.

No panorama geral da política, o ato de hoje serviria como um teste do bolsonarismo de raiz. O pibinho de 1,1%, a queda do preço do petróleo e o coronavírus desestabilizaram o tabuleiro político. Medir o poder de mobilização do presidente a partir dos números alcançados era o mote do dia.

A pergunta principal na esquerda institucional parece ser ainda: há uma escalada em direção a um fechamento ainda maior com golpe ou já estamos no estado de exceção necessário para a máxima exploração e retrocesso? Haverá um evento que ritualize e inaugure a nova ordem ou ela já existe e o embate simbólico só desvia a atenção das lutas que realmente importam? As respostas dividem a canhota.

Minha avaliação inicial era que, a despeito do auê, seria apenas mais um ato de extrema-direita. Três atos semelhantes em 2019 produziram resultados bem parecidos: 20 mil, no máximo 30 mil pessoas genericamente defendendo o presidente e o ministro Sérgio Moro.

Mas dessa vez achei diferente e julgo que houve uma importante escalada autoritária: não apenas houve uma radicalização em nome de Bolsonaro – pedido aberto de intervenção militar, fechamento do STF e Congresso – mas principalmente uma ruptura com a direita representada por Dória. O governador de Sâo Paulo foi duramente atacado ao longo da manifestação, em separação definitiva com o bolsonarismo. O apoio da PM foi solicitado e celebrado pelos manifestantes.

O MDC desobedeceu abertamente uma proibição do governo estadual e da prefeitura e entraram com o carro de som na avenida. A PM apenas observou. O ato de “desobediência civil” ocorreu sob aplausos e acho que um passo importante foi dado pela extrema-direita, que é a de desafiar a ordem.

Detalho a abaixo.

De qualquer forma, o marca-desmarca colocou no final que essa manifestação será talvez a única do semestre, as de esquerda tendo sido desmarcadas.

Cruzei a avenida Brigadeiro Luiz Antonio e segui em direção ao MASP. A Paulista estava fechada desde a praça Oswaldo Cruz até pelo menos a rua Augusta. A prefeitura tinha suspendido o usual fechamento dominical da Paulista ao trânsito, por causa do vírus. Mas não estava claro se quem agora desviava o trânsito para fora da avenida era a PM ou a prefeitura (CET).

Na altura da Gazeta, vi dois jovens cantando Cazuza ao violão. Apesar do fechamento oficial da avenida, muitos músicos que normalmente se apresentam na Paulista estavam lá.

Na esquina da rua Pamplona, estava a aglomeração verdeamarelista. O carro de som do MDC (o Movimento de Direita Conservador) estava estacionado nessa transversal. Atadas aos totens negros de sinalização que marcam a avenida, estavam as faixas “Intervenção Militar Já”, “Quem rouba o povo deve ser eliminado agora. Alcolumbre, Maia e Mendes”.

Logo ouvi o canto “Ei, Dória, vai tomar no cu!”. Avaliei por alto umas 3 mil pessoas lá, mas era cedo ainda.

Vi três homens chegarem a cavalo, com bandeiras do Brasil e um deles vestia uma máscara verde do Hulk. Uns soldados da PM foram falar com eles pediram que desmontassem, o que ocorreu depois de conversa.

O orador no carro de som tinha discurso radical e pediu abertamente a intervenção militar.

Vi muitos cartazes feitos à mão, o que em geral sinaliza capilarização da mobilização, em oposição ao material impresso, que é recebido pelo manifestante a partir da organização e denota menos participação orgânica.

Além disso, foi a primeira vez em dez meses que senti uma vibração real em manifestação, seja de direita ou de esquerda. Cansei de ir a atos da CUT, Frente Brasil Popular, Brasil Sem Medo, Lula Livre, Fora Temer onde apenas assistia lideranças marginais e centrais discursarem no modo “urgência gritada”, chatíssimos. Voltava para casa exatamente o mesmo, sem a sensação que fazia história, mesmo em atos lindos e grandes contra o impeachment. O #EleNão foi diferente, assim como outros do movimento negro e feministas.

Mesmo nas manifestação de direita do ano passado, onde a pauta era controlada, os coxinhas apenas cumpriam tabela, já que tinham que defender a governabilidade. Vi, então, que os coxinhas continuavam leais mas entediados com discursos genéricos de demonização da esquerda – que efetivamente está paralisada.

Hoje essa linha foi cruzada, e testemunhei vibração de insurgência. Não apenas no discurso, mas em ato – o carro de som de fato ocupou a avenida, em claro ato de desobediência civil. Achei significativo que eles tenham assumido um ato ilegal, na confiança que a multa (5 milhões de reais) seria amplamente compensada pelo rompimento do marasmo. Como eles próprios colocaram, “estamos fazendo história hoje!”.

Se isso fosse feito com 5 mil pessoas, não acharia nada. Mas foram ao todo umas 15 mil, com o apoio da polícia militar e contra o governador Dória. É significativo: eles estão cancelando a direita e incendiando a base. Não exatamente ainda explodiram a bolha, mas parece ter havido um golpe interno.

É temerário fazer sociologia estatística a partir das aparências. Mas arrisco a impressão de que os manifestantes eram na maioria os clássicos coxinhas: homens e mulheres brancos de 50-60 anos (60% homens 40% mulheres), além de muitos homens de 30-40, que são mais militantes, com camisetas de movimento. Poucos jovens, crianças ou famílias. Mas achei que tinha sim alguns daqueles que chamo de perdedores da meritocracia, a dita classe C, que são mais diversos racialmente, menos brancos, claramente mais precários na vida. Quando eles começaram a aparecer nas manifestações pelo impeachment de Dilma, compreendi que a bolha da direita tinha sido furada. Testemunhei o mesmo na campanha Bolsonaro 2018. Eles configuram um termômetro importante da capilaridade.

No geral, onde em 2019 os manifestantes vestiam mais verde-amarelo sem menção direta ao presidente, hoje era notável como o rosto de nome do Bozo aparecia mais, muito mais do que o do o ministro Moro. Não havia hoje uma envergonhada defesa “do Brasil”, mas sim clara personalização da luta deles.

Além disso, esta foi a primeira manifestação pós-derretimento da Bolsa, que ceifou as economias do 1 milhão de CPFs que aplicaram no mercado financeiro.

Tenho lido, acho que no Nassif, que a principal receita da Rede Globo não é a publicidade, mas, em sintonia com o capitalismo atual, é a sua Tesouraria. Isto é, as aplicações financeiras que a Globo faz com seu patrimônio dão mais retorno do que a produção de conteúdo. A recente queda da Bolsa pode ter produzido extrema fragilidade na organização.

Vi os cartazes “Globo Lixo News”, e outro “Sr. Presidente, para limpar o chiqueiro é preciso tirar os porcos”, e ainda um mastro com três cartazes “Caminhoneiros, professores e policiais bons, estamos aqui por vocês”, “Chega de Foro” e “Num guento mais sustentar políticos”. Eram sustentados por um homem vestido da cabeça aos pés de unicórnio cor-de-rosa.

Vi umas 20 motocicletas civis na Paulista, e alguns motoqueiros paramentados à moda “biker”, casacos de couro e lenços na cabeça. Um deles trazia um esqueleto deitado na sua moto de três rodas, estacionado no asfalto. As pessoas iam posar e tirar fotos.

Alguns manifestantes usavam máscaras sanitárias. Mas um menino de uns 16 anos trazia o rosto coberto à maneira vida loca, que é arrumar a camiseta de modo que só os olhos fiquem à mostra, meio bandido. Ele vestia uma camisa da CBF com o nome do Neymar Jr, mais bermuda e boné, acompanhado de sua mãe que fazia selfies em sua cartola verdeamarela felpuda com três bolinhas de futebol em cima, além da bandeira brasileira aos ombros. Ela tinha uma máscara amarela à boca.

Fui dar uma olhada no MASP e ver a extensão do ato, e no caminho vi um grupo de uns 15 jovens que faziam uma performance na rua. Eles destoavam dos manifestantes, e não consegui de início decifrar quem eram. Talvez fossem evangélicos, como outros grupos que já vi na avenida em outros domingos, ou então apenas eram extremamente corajosos. Faziam sua apresentação no asfalto ao lado de uma faixa “Ajude-nos e contribuam para a conclusão de nosso TCC”. Fiquei para ver, pois os temas que abordavam eram de política identitária.

Esperei e afinal vi que não eram bolsonaristas. Falei com alguns e elogiei a coragem, recomendando cuidado, pois “a galera lá na frente está pirando na agressividade”.

Ninguém na frente do MASP, e voltei à aglomeração principal. No caminho, vi faixa que traziam “Intervenção militar SOS FFAA”, “Presidente Bolsonaro, o povo está com você”, “Basta, já sabemos quem é quem, o povo está com você”. Vi os cartazes “Desobediência civil, socorro Brasil!”.

Ao chegar à frente da FIESP ouvi de novo o “Ei Dória, vai tomar no cu!”. Ele realmente foi muito atacado, assim como o prefeito Covas. A julgar pela manifestação, o governador vai perder seu lugar de herdeiro do bolsonarismo ao mesmo tempo que não vai achar apoio à esquerda. Ele é um exemplo de oportunista cujo corpo executado vai cair sobre o meu na vala comum em Perus, na limpeza política de um golpe vitorioso de direita.

O STF e seus ministros foram o alvo preferencial, com Maia e Alcolumbre. Inúmeros cartazes e faixas atacavam abertamente os indivíduos e as duas instituições. Um cartaz resumia a pauta: “Foda-se o STF e o Congresso”. Ou “Maia, vai ser no tapa, pode ser?”

Vi pelo menos 3 pavilhões imperais brasileiros, dos monarquistas. Uma delas foi em cima do carro de som.

Uma oradora lembrou o nome do ministro Moro e o povo entoou “Moro, Moro”. O ministro pode ser cúmplice e ator de um golpe, se ele quiser. “Ele e Bolsonaro são os verdadeiros heróis da nação!” disse ela.

Logo depois, o carro irradiou a canção de Cazuza que tinha ouvido da boca dos dois jovens na calçada: “Brasil, mostra sua cara”. Cazuza é amado em geral, mas eu não gosto dele, acho sua rebeldia fake e esvaziante. Já ouvi a mesma canção em atos de esquerda, mas acho a letra fraca e conformista – e ali no calor do asfalto tomado de extremistas de direita, confirmei meu preconceito.

Ouvi do carro de som a oradora que dizia “Quem quebrou a hegemonia da esquerda foi o Olavo de Carvalho!”, e o povo vibrou. De fato, vi depois uma mulher negra com uma camiseta “Fascista é a mãe do seu uc!”. Esta é uma famosa frase do astrólogo, mas achei interessante que essa mulher só conseguiu endossar publicamente a citação com a recolocação morfológica do cu.

Vi os cartazes “Pro Armas CDC SP”, “Maia não vai calar a voz dos brasileiros”.

Os oradores seguiam radicais e um deles sublinhou muito que o MDC fora o único movimento que não faltou com sua palavra e que tinha mantido a manifestação. Achei mesmo notável que eles sozinhos tivesse reunidos tanta gente. Normalmente os números de hoje seriam conseguidos com os empresários como o Véio da Havan e outros escrotos, e movimentos como o NasRuas e mesmo o VemPraRua. Quem estava lá eram os bolsonaristas robôs, todos mobilizados estritamente através da rede digital do presidente e através deste um movimento realmente extremista. As franjas estão tomando de assalto a extrema-direita e capturando a hegemonia do bolsonarismo, e queimando pontes com a direita. Talvez tenham desencanado da aliança com os liberais depois do pibinho de Paulo Guedes.

Claramente o presidente coreografou tudo: marcou e desmarcou a manifestação, deu um drible na imprensa com o teste negativo falsamente vazado como positivo, escanteou moristas estritos e formou uma onda irresistível, dentro da extrema-direita, de insurreição e desobediência.

Até a invasão da Paulista levou o carro de som até a frente da sede da CNN, que estreou hoje e filmava tudo, tem ares de cuidadoso planejamento.

Ou isso ou ele é um trapalhão improvisador condenado a fugir para a frente.

Bolsonaro agora é, pelo menos em São Paulo, dono do único movimento que realmente vai mudar as coisas (na concepção bozonista).

Vi os cartazes “Não é sobre armas, é sobre a liberdade”, “Pela criminalização do comunismo”. Outro, impresso “#Helenão. O leão rugiu. As hienas estão apavoradas”.

Em uma das inúmeras vezes que se irradiou o hino nacional, um homem que cantava muito alto errava bastante na letra, talvez embriagado. O hino brasileiro tem muitas perfídias para o patriota ou aluno em idade escolar: são duas partes longas e convolutas, a distribuição de versos contorcida e barroca, vocabulário já obsoleto no dia de sua redação… e aquela estrofe que repete na segunda parte que embaralha tudo.

Um outro homem passou e falou, rindo, “tudo errado!”. Eu não disse nada. Se fosse na esquerda, eu riria junto e emendaria: “está errado, mas está na luta”.

O orador puxou um “Lula na cadeia”. O ex-presidente foi bem citado, mas menos que Dória. A esquerda também, mas o alvo principal eram o STF e também o Congresso. A demonização da esquerda foi apenas repisada de várias formas usuais.

Uma moça tomou o microfone e relatou que trabalhara como jornalista para a Band News em Curitiba. Afirmou que era só a segunda vez que tinha vindo a um ato como manifestante, mas que tinha coberto a Lava Jato, a prisão de Lula e a campanha de Bolsonaro. Afirmou que era malvista por seus colegas, que eram de esquerda e que tentavam fazer sua cabeça. Disse que foi despedida por ser bolsonarista e que o jornalismo é podre. Ela processa a empresa para quem trabalhava e disse que descobriu que esta é investigada pela Lava Jato. Tinha uns 30 anos.

Vi um cartaz “Kit Anti-Lulavírus”, outro “Viva o exército, viva a armada, viva o povo brazileiro [sic]”, “Fecha tudo, presidente!”, a camiseta “Direita Minas”.

Vi as faixas “AI-5 para defender o Brasil dos Terroristas. Morte aos ladrões”, “Presidencialismo sem chantagem”, “STF pare de boicotar o Brasil. Basta!”, “Congresso inimigo do Brasil”. No carro de som, “Todo poder emana do povo. Intervenção”.

O orador falou em 62 mil manifestantes, um claro exagero.

Vi os cartazes “Quero meu voto em papel”, “Foda-se o centrão”, “CPI da Lava Toga”.

Vi 4 camisas do Palmeiras, uma delas amarela, e ainda outra amarela, mas esta do Corinthians. Uma camiseta trazia “Não sou politicamente correto”, outra “Polícia do Exército”, e ainda “Endireita SBC”.

Vi duas camisas do Flamengo, e li depois na Folha que dois homens assim descritos deram tiros em uma manifestante ao final do dia.

Vi uma bandeira dos EUA.

Eram 14h40 quando intensificaram o auê de entrar na Paulista contra as ordens da prefeitura de São Paulo. Começaram a arrecadação para pagar a multa que diziam ser de 5 milhões de reais.

Uma mulher de óculos e uns 40 anos abanava freneticamente uma pequenina bandeira do Brasil, que mal tremulava no ar quente. Falou para mim “Andorinha faz verão!”. Eu fiquei quieto, mas um homem atrás de mim disse “Não, a sua bandeira é gigante!”.

“Nós estamos com os generais, e deus está com vocês também!”, gritou o orador.

Tocou então a cançoneta “Eu te amo meu Brasil”, popularizada pelos Incríveis na década de 1970. A letra é bem escrota, e fala das beleza do Brasil, incluindo as “mulatas cheias de calor”, e que “os gringos querem vê-las” no carnaval. Foi o hino não-oficial da ditadura.

Outras canções militares foram irradiadas, como o hino do soldado, o hino à bandeira e outros.

Um faixão enorme estava afixado à grade central: “Bolsonaro 17”. Hoje ele não tem partido e seu número não mais é o 17. Imagina quem tatuou o número em sua pele… kkk!

Outra faixa: “O povo exige faxina geral”, e ainda “Associação dos Advogados Bolsonaristas do Brasil”.

O povo começou a entoar “Móia na cadeia! Móia na cadeia!”. Demorou uns segundos para eu entender que alguns nomeavam a Dória, enquanto outros Maia, o que gerou o híbrido maligno.

Os oradores continuaram em suas falas insurrecionais: “vamos quebrar o protocolo e entrar na Paulista!”

A PM ficou imóvel. Já vi a polícia atuar com extrema agressão quando manifestações de esquerda fazem muito menos, como por exemplo não informar o percurso da passeata, o que é protegido pela constituição. A infração de hoje foi amplamente irradiada e a PM poderia ter agido para bloquear o carro. A PM foi cúmplice.

Além disso, estão proibidas as aglomerações por razões sanitárias.

Muitos oradores agradeciam a PM e davam a impressão que tinham sua permissão de desobedecer a determinação do prefeito.

“Vamos infringir uma lei, mas quem vai fazer é o povo”. Imaginei as mesmas palavras na boca de Guilherme Boulos, ou do movimento negro na rua, a grita geral que seria. Seria o suficiente para a pancadaria geral, e a esquerda que lê as ruas pela Folha assentiria.

Anotei os cartazes “Brasil Livre, Cadeia neles”, “Até tu, Francisco?”

Eram 15h, a hora marcada para o clímax da desobediência civil: o carro de som ia entrar na avenida. Muito discurso inflamado, promessas de revolução, mas aí começou a demorar e nada do carro andar…

O orador então tomou o microfone e informou o povo: “o motorista disse que não quer ter os pontos da infração em sua carteira… Tem algum motorista de carreta aqui na avenida?”.

Internamente morri de rir, pois a grande insurreição da direita não rolara porque o trabalhador não queria assumir o ônus da rebeldia! Achava que esse tipo de coisa só acontecia na esquerda!

Depois de uns 20 minutos acharam alguém e o carro de fato avançou e virou à direita, ganhando a Paulista. Eram 15h20.

O povo, agora os 15 mil que avaliei, vibrava muito. O Wagner Cunha, que era o orador principal e organizador do MDC, transmitia a transgressão ao vivo em seu celular, como faziam inúmeros manifestantes na rua e de cima do carro.

O orador delirava, gritando “Este é um momento histórico, de quem não tem medo de canalha!”

Eu estava de pé na grade central e o carro de som passou muito perto. Observei as selfies sorridentes, os chapéus verdeamarelos e a vibração da insurreição coxinha. Notei o cartaz “Dr Enéas alertou: ‘miasmas pútridos emanam do Congresso Nacional”, enquanto a massa gritava “Olavo tem razão! Olavo tem razão!”, “STF, presta atenção, a sua toga vai virar pano de chão!” e “Mito, mito!”.

Nessa hora pensei como Glauber Rocha daria conta de um momento como esse.

A massa cantava também “Eu vim de graça!”, “A nossa bandeira jamais será vermelha!”, e “Somos todos Bolsonaro!”. A deputada e ex-bolsonarista Joice Hasselman foi hostilizada também, e acusada de plagiar, quando jornalista, o material de seus estagiários.

O carro logo parou em frente à FIESP e junto à sede da CNN, que filmava tudo do terraço.

Tocaram o hino nacional de novo e um vendedor de apitos negro improvisava sua própria versão do hino no sopro de sua mercadoria, caminhando suado por entre os corpos no asfalto quente.

O Dr Rubens Paiva tomou o microfone e disse que “as eleições só serviram para tirar o PT. Eles acabaram com a economia, roubaram também o futuro dos jovens ao arruinar a economia. Eu sou pré-candidato à prefeitura, mas eu sou a favor da intervenção federal. Intervenção já!”.

Afirmou que estavam “obedecendo o capitão Bolsonaro, que chamou esta manifestação dos EUA”. Afirmou também que “ele venceu no primeiro turno”.

Outro orador tinha tomado a palavra às 15h50. Defendia a “ruptura da institucionalidade” e que “Bolsonaro vai ter que prender Rosa Weber, que é do STF. Estamos com o general Heleno do GSI”.

Só que um moço, que estava logo atrás dele, levou um “mata leão” de um homem de barba e foi levado ao chão do carro de som. Teve grande comoção lá em cima, e o moço foi mantido sentado por uns 10 minutos, e tomou muita bronca de outros homens.

Fiquei curioso e dei a volta no carro para ver o moço ser levado ao nível do asfalto. Cheguei lá e ele, de uns 25 anos, e o outro homem grande, de barba e camisa da CBF, estavam gritando, esbaforidos. Os 5 PMs não sabiam bem o que fazer e ouviram as muitas pessoas que estavam em volta.

Depreendi um pouco depois que o jovem era militante do MDC mas que quis falar contra a intervenção militar. O homem grande era militarista e quis impedi-lo, agredindo-o por trás. Rolou que os panos quentes prevaleceram e foram apenas separados.

Avaliação final: os militaristas ganharam a vanguarda do governismo e deram um curto-circuito nos ‘moderados’ e ‘liberais’, que ou estavam lá e foram esmagados como esse moço, ou foram driblados pela coreografia das declarações do presidente e agora perderam a liderança: NasRuas, VemPraRua, MBL, Direita São Paulo… A rede digital do clã Bolsonaro agora parece deter a primazia da mobilização das bases, e levam 15 mil à Paulista sem Moro e sem oportunistas.

Vi uma mulher de lenço verdeamarelo no rosto ao estilo “Black Block”.

Uma mulher veio ao microfone dizer que o Trump tinha reservado o dia 15 de março como dia internacional da oração “para que o bem prevaleça em todo o mundo”. Seguiram-se duas orações, o pai nosso e a ave maria. O orador pediu que “todos aqueles que não forem idosos por favor se ajoelhem para rezar”. Mais ou menos um terço dos manifestantes assim o fez.

Mas rolou que logo depois o Oscar Maroni tomou o microfone. Ele é dono de notórios prostíbulos em São Paulo, e foi ele que deu uma festa aberta com chopp franqueado quando Lula foi preso. Ele falou contra a corrupção e contra “o judiciário que permite a corrupção”, cinicamente, já que ele só trabalha porque corrompe a polícia, o judiciário e a administração pública para poder explorar suas mulheres. Ele disse também que tinha dado uma contribuição de mil reais para pagar a multa.

Uma única voz se revoltou, um homem no asfalto que o chamou de filho-da-puta. Foi ignorado.

Lembrei do filme “M, o vampiro de Dusseldorf”, quando o assassino de crianças é capturado pela rede do crime da cidade. Os criminosos improvisam um tribunal para condená-lo. Mas eles próprios são gangsteres, arrombadores, batedores de carteiras, assassinos, ladrões…

Assim me pareceu este segundo “momento Glauber Rocha”, onde duas orações foram seguidas das exortações moralistas do maior cafetão do Brasil, que então cantou o hino nacional de mão no peito.

Eram 16h40.

O dia ia acabando e os últimos oradores falaram. Um disse que “não tem perigo de contaminação aqui, somos todos patriotas”. Disse também que “vocês todos são representantes de Bolsonaro”.

A seguir um outro orador revelou que a arrecadação geral tinha sido de R11.800 reais.

Vi um cartaz: “Os piores vírus: Nhonhocitose crônica, Alcolumbrite aguda, Toffoliose irritante, Centrão maligno”.

O carro então tocou de novo a canção do Cazuza (“meu cartão de crédito é minha navalha”), e a dancinha canhestra dos coxinhas rolou no asfalto. O pior são as canções militares, quando as pessoas (em geral os mais velhos) fazem a marchinha batendo continência, sem sair do lugar.

Um gringo todo de azul, rosto pintado e bandana verdeamarela, dançava em cima do carro de som. Acho que ele é o moço americano que já vi nas manifestações trumpistas de 2016. Tinha certa competência corporal, no estilo do Trance.

Vi o cartaz “Tire a mão do Bolso”, “Celso Daniel em nossos corações”, e uma camiseta “Viva la derecha”, com o rosto de Bolsonaro com o boné ao estilo do Che. Vi o estandarte “Instituto Plinio Correa de Oliveira” que é a antiga TFP. Passou um menino com uma faixa “Apostolado Santo Ignácio de Loyola”.

Um orador disse “tenho um recado para a esquerda, vocês perderam o domínio das ruas para os homens de bem”.

Outro saudou a PM e disse que “ao contrário da esquerda, não queremos o fim da polícia militar, queremos saudá-la”. Afirmou também que havia um perigo de golpe de estado contra Bolsonaro. Disse que era por causa das revelações do presidente sobre a fraude eleitoral de 2018, quando teria vencido no primeiro turno.

Isso foi confirmado por uma moça de nome japonês, que fez um documentário a respeito, “está no Youtube”, afirmando que “Bolsonaro foi buscar provas nos EUA, eles têm provas de fraude em todo o mundo”.

Outro moço falou “seja patriota, não seja idiota”.

Um pastor evangélico fez suas preleções, garantindo apoio dos cristãos à reeleição do presidente. Garantiu que “ninguém vai morrer de coronavírus aqui não”. Fez uma oração final que era na verdade uma eulogia do governo e do presidente. “Quando o justo governa, o povo se alegra”.

Tinha saído fora e caminhava em direção ao Paraíso quando o último orador fez um agradecimento à PM. Ouvia já meio mal, mas ele disse que a polícia estadual era “a nossa Tropa de Elite”, e achei que estava chamando a força a apoiar a desobediência civil.

A avaliação final é de que uma linha institucional foi cruzada hoje. Bolsonaro parece ter dado um olé na imprensa e na esquerda ao conseguir afinal fazer o seu ato e demonstrar, senão para si e para seus apoiadores, que não precisa da direita, da imprensa, das instituições e mesmo de outros movimentos de extrema-direita, mesmo os moristas. A quebra da institucionalidade agora é pauta aberta e eles conseguiram, me parece, romper o marasmo das manifestações infinitas, trazendo de volta às ruas o “fazer história”.

Vai ter quem avalie que hoje foi apenas mais um capítulo no vai e volta da política, uma bravata que só desvia a atenção do descalabro que é sua administração. Quinze mil pessoas é expressivo mas não fura a bolha bolsonarista. Pode ser que sim, hoje foi consistente com o que vem acontecendo.

Mas o ato de quebra da institucionalidade, da lei (o carro de som na Paulista e Bolsonaro romper seu isolamento sanitário) agora é pauta ativa de suas bases. Para quem acredita que há um golpe em andamento, achou evidência na manifestação de hoje.

Avalio que os outros movimentos de direita e extrema-direita perderam protagonismo e a contagem de corpos mostra que os resultados de 2019 podem ser produzidos apenas com a rede e a franja mais violenta do bolsonarismo.

Mas não sei afirmar se vai fechar ou se já fechou.

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