Resenha Semanal

27 de março a 3 de abril 2020. A imaginação política acha novas aberturas ao mesmo tempo que as tensões aumentam em setores mais atingidos.

A epidemia mudou totalmente o cenário ideológico e o imaginário político das pessoas. Um amor pelo público, desprezo pela competição individualizante emergiram de repente. Para a esquerda, o neoliberalismo há de ruir, pois seus mitos estão sendo derrubados um a um. A imaginação pós-capitalista de repente achou céus para voar!

Mas a condução da economia é improvisada e a equipe do governo não tem a competência ou imaginação necessárias para lidar com a crise fora de sua ortodoxia. Paulo Guedes já propôs cortes de gastos, e achou 1.2 trilhões para socorrer os bancos, que aliás aumentaram os juros ao consumidor. Isso daria R$ 6 mil reais na mão de cada brasileiro.

Dá muita angústia estar na informalidade ao mesmo tempo que os (pífios) programas de socorro dependem de pertencimento formal em cadastros e programas prévios (MEI, Bolsa Família etc). O mercado de trabalho precário impõe definições fluidas e a categorização do trabalho informal é delicada.

Cada vez mais urgente é a Renda Básica Universal, um valor fixo mensal a ser pago a todo cidadão e cidadã maior de 18 – e ponto final. Imprimir o dinheiro se necessário. Antes a vida, bancos depois.

O que fazer com o presidente? Esta é a questão nas bocas de todo o Brasil. Sua atuação incendiária é danosa e incontrolável. O impeachment é merecido, o pedido seria consistente e justo. Mas…

O processo seria longo e proporcionaria um palco onde Bozo poderia fazer o que gosta: muita trolagem e nenhum ato de governo.

Além disso, travaria o Congresso e o impediria de fazer o que está fazendo: bloquear o Planalto e passando as medidas necessárias, junto com os governadores, STF e os técnicos institucionais públicos.

O presidente está claramente isolado, e o bloco que o elegeu em 2018 não existe mais: a imprensa, a direita e alguns empresários já pularam fora, até o silencioso ministro Moro não o defende. Mas Bolsonaro dobrou a aposta e fica cavando pênalti, fica fazendo de sua existência insuportável para todos. Está apostando no caos.

Estará cavando um golpe? Será que está confiando que, quando o caos social começar, as classes médias, mercado financeiro e imprensa não terão escolha senão abraçá-lo?

Ou quer forçar os militares e a direita de darem um golpe, do qual sairia um mártir para seus apoiadores e criaria um problemão institucional de legitimidade para seus sucessores?

O general Braga Neto foi destacado pelas Forças Armadas para tomar a liderança do governo e controlar Bolsonaro (“babá-em-chefe!”). Ele soltou uma nota onde acusa:

“A imprensa ansiosa por uma crise institucional, junto às oligarquias estaduais, mais a oligarquia do Congresso, não é apoiada pelos empresários e especialmente pelo sistema financeiro.”

A nota sugere que os militares contam que os bancos topariam um auto-golpe, mais evangélicos, polícias, caminhoneiros, redes do ódio e pelo menos parte do empresariado. Tudo isso apoiado pelo núcleo duro bolsonarista, que inclui as milícias.

Difícil saber como anda o clima na caserna, quais seriam as divisões internas. Mas parece que temos quatro cenários possívies:

1) a concertação Congresso-Governadores-Instituições que restam, mais imprensa, isolam o presidente e vão tocando o país até passar o pior.

2) o mesmo que acima mas com a remoção ou renúncia de Bolsonaro com ascensão do vice Mourão.

3) golpe com parte da concertação acima, com Mourão ou junta militar, mas sem Congresso.

4) golpe sangrento e jacobino com Bolsonaro, milicianos, polícias e militares que não terão escolha senão aderir.

Notícias sobre pesquisas separadas: canabióides e flavonóides (presentes no vinho) podem ser relevantes no combate ao coronavírus, e em Cuba uma vacina está sendo desenvolvida. Assim, pode ser que em breve todos os jornais do mundo tragam a manchete:

MACONHEIROS, BÊBADOS, COMUNISTAS E CIENTISTAS SALVAM A HUMANIDADE!

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