Primeiro Ato do MPL contra o aumento da Tarifa

O calendário político de manifestações foi aberto pelo MPL, focado no transporte público, em 7 de janeiro de 2020.

Todas as imagens: Aice Vergueiro

Cheguei à Prefeitura de São Paulo, no Viaduto do Chá, pela avenida 9 de Julho. Eram quase 17h e fui checar o primeiro ato do MPL contra o aumento da tarifa do transporte.

A tarifa aumentou de novo em São Paulo, aliada a cortes em linhas de ônibus e diminuição geral da frota. Está cada vez mais caro e difícil tomar o transporte público em São Paulo. Parece que o projeto é empurrar todos que podem ao Uber e salve-se o resto.

Ainda na Líbero Badaró, encontrei os fotógrafos A e L, que tomavam café num boteco, e conversamos um pouco. Logo seguimos para a manifestação, onde já se reuniam umas 100 pessoas.

A imprensa e fotógrafos são sempre assíduos e chegam na hora, então, naquele momento, tinha quase mais fotógrafos que manifestantes.

Já estava lá um ativo um batuque, moços e moças da “Bateria Popular Zumbi dos Palmares”, mais o moço do trompete que é da Fanfarra Clandestina.

Estava muito quente.

Notei que a presença policial era numerosa mas, ainda, não acintosamente agressiva. Contei 7 viaturas da GCM na frente da Prefeitura gradeada, mais uns 100 PMs de capacete e escudo. Na praça do Patriarca, ao lado, mais 6 viaturas, 4 motos e uns 30 PMs. GM disse que tinha visto mais efetivo nas paralelas e no vale do Anhangabaú.

É recorrente nos atos do MPL uma grande presença autonomista, mas agremiações de partidos de esquerda, na maioria marxistas ou representações de grupos sociais (i.e. estudantes), tendem a comparecer também. Assim, vi bandeiras vermelhas e negras, do PSTU, CSP-CONLUTAS, UNE, UBES e de outras entidades estudantis, assim como de tendências como o Subverta, Liberdade e Luta, Rebeldia, UJS, e outros.

A expectativa era de uma boa concentração. De fato, a passeata cresceu e no final chegou, e revelo agora aos impacientes, que contei umas 2 mil pessoas, o que achei bom.

Duas faixas pretas do MPL já estavam no chão: “4,40 não dá” e “Por uma vida sem catracas”. Estas foram as faixas de abertura e fechamento da passeata.

Logo chegou E e informou que Bolsonaro passará 5 dias em Guarujá ao invés de Davos, parece que “por motivo de segurança”, dada a instabilidade internacional gerada pela situação EUA-Irã.

Foto: Alice Vergueiro

Logo quando achava que a polícia não estava acintosa ou abertamente agressiva, como tem sido o caso em anos passados, vi que os mediadores da PM, de jaleco azul, foram conversar com duas moças do MPL. Só que parte da coluna policial veio cercar a conversa, e vi que elas tiveram suas mochilas revistadas pelos PMs, dentro do círculo de escudos que mantinham os manifestantes e a imprensa fora.

Uma moça da OAB estava presente, assim – vi depois – como pelo menos dois outros oabistas. A presença da OAB é muito importante e protege as pessoas. Mas os policiais abriram todos os estojos e bolsinhas dentro da mochila das meninas, foi bizarro e tentei entender a motivação.

Ponderei que o governador Dória está tranquilo numas de surfar a onda anti-esquerda, mas que o prefeito Covas já sinalizou que faria alianças à sua esquerda e poderia estar mais cuidadoso com repressão aberta em ano eleitoral. Talvez essa divergência se manifestasse no policiamento.

Então não havia previsão certa da atitude repressiva e essa revista trazia mau agouro.

Mas acabou que a coluna se afastou e parou de pressionar.

Logo vi E, A e GM. Como os atos do MPL inauguram o calendário de protestos do ano, revi e conversei com muitos amigos e companheiros, atualizando as novas do movimento e renovando votos de um bom ano.

GM trouxe as movimentações dos ecossocialistas do PSOL, com quem tem militado. As eleições municipais já causam impacto na vida partidária do PSOL, mas há certa indefinição: Sâmia vai sair, mas ventilou-se na imprensa uma chapa Erundina-Boulos, mas avaliamos se vale a pena pedir que a Luísa carregue mais esse peso e e salve a esquerda.

Conversando ainda com vários outros companheiros, senti que a tônica geral é de certo desânimo e desesperança. Alguns relataram como o natal em família foi tumultuado por discussões políticas. A falta geral de trabalho numa economia fraca e precarizada está causando enorme estrago entre os educadores, professores e artistas.

Outro relatou como na manifestação em Paraisópolis, a segunda ou terceira, onde estavam presentes os partidos (Boulos e outros), o povo da favela não desceu e se ressentiu da presença das agremiações. Quando a primeira manifestação saiu da comunidade em passeata até o Palácio do Governo, sem os partidos, o povo foi junto. Ainda há um abismo a ser preenchido na esquerda: movimento social e partidos precisam se entender.

Ouvi também que a Criptorave deste ano vai mesmo ser realizada na biblioteca Mario de Andrade, e que tem sido um sucesso.

Vários companheiros mencionaram o possível esgotamento do formato manifestação. Todo mundo está cansado, e estar na rua não parece gerar tanto impacto assim. Talvez a polícia já tenha aprendido como neutralizar passeatas, talvez a sociedade não se sensibilize mais, ou talvez seja preciso insistir mesmo assim para obter o “momento Chile”.

Vi a faixa “+ Busão – Poluição. Ecossocialistas do PSOL”, mais as bandeiras da UJR, PCR, Unidade Popular e do Faísca – e o estandarte laranja do RUA.

Foto: Alice Vergueiro

Notei que dois PMs já filmavam o evento. Depois vi uma outra equipe realizando também o registro videográfico. Vale lembrar que tudo o que filmam é público e pode ser obtido pelo cidadão comum.

Às 17h45 a faixa se posicionou no asfalto, fez-se o jogral – “Hoje é só o começo” – e anunciaram a segunda manifestação na Praça da Sé, já agora quinta-feira dia 9 de janeiro.

Ouvi e relembrei palavras de ordem clássicas do MPL:

“Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se o seu salário aumentou!”

“A nossa luta é todo o dia, porque transporte não é mercadoria”

Mas teve também os atuais “Fora Bolsonaro” e “Fora Dória”.

Saímos às 18h20 pelo Viaduto do Chá em direção ao Teatro Municipal. Éramos ladeados por 100 PMs, 50 de cada lado, em duas colunas, mais motos na frente e viaturas atrás. Caminhei com E e GM um tempo, mas acabei zanzando por entre os corpos.

Vi o G e também a faixa “A tarifa zero é uma luta ecossocialista”, além da bandeira da Frente de Cursinhos Populares, e outras do AFRONTE e do POR4.

Foto: Alice Vergueiro

Dobramos à direita no teatro e alcançamos o largo do Paissandu para adiante pegar a avenida Ipiranga à esquerda.

Conversei com O, que estuda a Linha Azul do metrô. Contou um pouco sobre sua pesquisa.

Vi A e P, enquanto o povo cantava:

“É barricada, greve geral, ação direta que derruba o capital”

“Mãos para ao alto, 4.40 é um assalto”

Chegamos na praça da República e dobramos à esquerda na avenida São Luís, de lá para o grande cruzamento do fim da avenida Consolação com a rua Martins Fontes. Depois de breve parada, descemos até a avenida 9 de Julho pela rua Quirino de Andrade.

O dia começava a cair e escurecia. O calor continuava intenso e tomamos toda a via da avenida subindo em direção à Paulista. Tomei fôlego e iniciamos a subida. A PM continuava a filmar.

Em cima do viaduto sobre a praça 14 Bis, dava para ver numerosas janelas onde as pessoas assistiam a gente passar. Mas as luzes de iluminação pública foram apagadas, e caminhamos no escuro. Esse apagão foi repetido na avenida Paulista mais tarde – e é um conhecido procedimento adminstrativo-policial.

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”.

“Ih, fudeu, o povo apareceu!”

“Não vão nos calar, 4,40 não vão apagar”

“O transporte é uma bosta, é cheio e demora”.

Vi dois meninos ciclistas entregadores passarem por nós e pararem para checar a movida. Eram bem jovens, uns 20 anos no máximo, um do Rappi e outro do iFood – os dois de bicicleta alugada do Itaú. Ficaram um pouco e pareciam se empolgar com a manifestação.

Do alto do viaduto dava para ver a rua abaixo, com seus restaurantes populares e botecos, e também dentro de algumas casa. Quase todas brilhando com o brilho da tela de televisão.

Vi também um cachorro que latia muito de dentro de posto de gasolina destruído. Estava dentro do que seria a loja de conveniência, azulejada em branco e com grande porta de vidro. A luz fazia o branco da lajota ofuscar fortemente. O animal parecia agitado e sozinho.

Eram 19h40.

Descemos o viaduto e continuamos na avenida, passando pela frente da Fundação Getúlio Vargas antes de subir a rua Engenheiro Monlevade à direita.

A galera vinha pixando vários muros da cidade com “4,40 não dá”.

Vi uma camiseta “Sangue Corinthiano” e um estandarte “MPJ em Disparada”, além da faixa “4,40 não dá. Façamos como os chilenos. JUNTOS”

Na subida, uns 5 PMs ficaram guardando 3 caçambas que recebem o lixo do hospital 9 de Julho, que dá para a ladeira, temendo que manifestantes pegassem pedras de lá.

O homem que eu acho que é P2 e que vejo sempre veio conversar comigo. Ele estava meio nervoso. Vestia um jaleco “Voluntário. Prefeitura de São Paulo” e reclamou da condução do policiamento. Ele me perguntou o que eu fazia e em troca perguntei se ele era policial. Ele disse que era mesmo um tal “trabalhador voluntário”. Achei estranhíssimo e desconversei.

Vi uma camiseta “Bacurau” e outra “Esquerda Marxista”.

Foto: Alice Vergueiro

Paramos ao lado do MASP, na rua Plínio de Figueiredo para um jogral e a tradicional queima da catraca.

O som do jogral dominou o asfalto e acenderam a catraca de madeira e papel, que ardeu bonita no asfalto. Este é um momento muito fotografável, e várias câmeras ansiosas buscavam os melhores ângulos.

Sentado na calçada, levemente apartado dos fogos rituais, um par de PMs veio me perguntar se eu estava com o movimento. Hesitei e disse que era blogueiro.

“Tarifa Zero quando, Tarifa Zero já. Só vai funcionar quando o povo controlar”.

“Fecha, fecha, fecha, fecha o terminal. Pula a catraca e faz greve geral”.

Notei que pelo menos duas pessoas escreviam em caderninhos que traziam à mão, como eu. Depois vi que o ato teve razoável repercussão na imprensa geral.

“Chega de tarifa, e de político babaca, nós estamos lutando por uma vida sem catracas”.

O fotógrafo coxinha que aparece bastante em manifestação de esquerda estava lá e me cumprimentou. Já relatei no Diário o estranho diálogo que mantive com ele no ano passado.

Depois subimos até a avenida Paulista, onde viramos à direita, mas logo fizemos o retorno e tomamos a via em direção ao Paraíso. Seguimos até a altura da FIESP e das entradas da estação Trianon-MASP do metrô.

Fizemos um jogral e oficialmente o ato do MPL foi encerrado e a dispersão começou.

Mas um povo foi ficando na rua, a avenida fechada nas duas vias, talvex umas 300 pessoas. Ouvi que iam ficar na avenida até que as catracas do metrô fossem abertas para que todos voltassem para casa. Vale lembrar que o governador Alckmin liberou as catracas para manifestantes anti-Dilma em 2016.

O clima era tenso, meio de duelo mexicano, onde todos estão prontos a atirar mas paralisados no gesto de espera. Achei que o clima era, em menor escala, como em 2013. Muita gente na rua, espalhada, uma vontade de ir ficando mesmo sem um objetivo muito claro.

Começou a chover e toda a multidão foi pegar o metrô, alguns dispostos a não pagar e fazer o “catracaço”. O BAEP tinha chegado (a antiga “Tropa do Braço”) com seus escudos, gorros e atiradores. Estavam enfileirados na avenida, visíveis mas apartados.

Mas a polícia barrou a entrada do pessoal no portão do lado da FIESP. Atravessei a rua com um pessoal que foi correndo buscar acesso pela outra entrada. Umas 100 pessoas entraram antes da polícia barrar o acesso. Um grupo meio heterogêneo de PMs fez o bloqueio: uma moça muito magra e pequena, uns grandões mal-encarados de boina, os moços assustados de jaleco verde e também um atirador de bigode ruivo e boca nervosa. Todos congelados em pose de combate, um visual meio Marvel.

Um dos grandões de boina pegou um cassetete de um colega e bateu nas costas de uma moça que estava parada, olhando para o lado oposto. Covarde.

O atirador era instado por colega “dá tiro, vai!”, mas não disparou.

Atravessei a rua de novo e consegui descer às catracas, pois a linha de PMs tinha desbloqueado o acesso. Comigo desceram uns 100 manifestantes, e encontramos as catracas protegidas por uns 10 PMs de escudo, além de uns 5 seguranças do metrô.

Eram 20h20 e aos poucos foram chegando mais manifestantes e policiais, alguns desciam as escadas e outros chegavam pelos trens do metrô. No total, uns 400 corpos em alta tensão dentro de um espaço bem limitado

Foto: Alice Vergueiro

Era curioso ver os PMs de escudo e capacete saindo um a um pelas catracas. O primeiro policial a passar foi um moço muito jovem, de mochila de munição na mão, quase um adolescente a caminho de um piquenique. Alguns usuários entravam e saiam controladamente do metrô. Vi um casal com duas camisas do Palmeiras entrar.

O povo gritando “Ei fardado, você também é explorado!” e depois menos amistosamente “Tira a farda e vem na mão”.

Foto: Alice Vergueiro

Ainda: “Deixa passar, a revolta popular!” e “Liberaê!”.

E na cara dos policiais:

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”

Notei muitos paisanos dentro e fora das catracas. A linha de seguranças do metrô, de uniforme preto, era reforçada por funcionários de camisa azul.

Foto: Alice Vergueiro

Alguém jogou tinta vermelha na linha policial, que manchou pelo menos dois escudos. Um PM tentava se fazer ouvir pelo megafone mas era abafado pelas vozes.

O povo ia tentando achar brechas na barreira, e se movimentava como uma massa de bolo sendo batida.

Senti o cheiro de vinagre e temi o pior: um ataque de gás lacrimogênio ali, no meio de tanta gente dentro de um lugar fechado seria uma tragédia. Além disso, a tal “munição não-letal” só não fere em demasia a partir de uma distância de 20 metros entre o disparo e o alvo.

Eram perto de 20h45 quando desceu o BAEP, uns 50 deles. Conseguiram dividir e acuar o povo na direção de duas escadas de saída. Fiquei do outro lado, atrás da coluna. Mas um dos portões no topo de uma das escadas estava fechado e ficou um povo encurralado. Teve empurrão e agressão policial.

Uma advogada da OAB tentava muito obter acesso ao espaço que nos separava dos manifestantes do outo lado. Testemunhamos uma moça do MPL ser agredida.

Os PMs agressivos e nada dispostos a ceder. Nunca discuto com PMs, pois é sempre inútil, mas desta vez me peguei brigando com eles, em apoio à advogada.

Quando pareceu que o povo acuado foi empurrado escada acima, sai fora e busquei o asfalto. Fui checar a saída em questão para ver se o escoamento era tranquilo.

Ainda chovia, e agora tinha muita gente espalhada por toda a avenida. Tinha chegado muita viatura, cujas luzes piscavam vivamente. Faziam a guarda de agências bancárias ou arrancavam pela avenida em velocidade.

Para aumentar a sensação de cenário onírico, a chuva que agora já caía forte fazia do asfalto um espelho que refletia, além dos faiscantes brilhos policiais, as luzes públicas agora acesas. Nessa hora cortou o ar a melodia “Bella Ciao” tocada por um trompete tocado ao longe, e muitas vozes cantaram junto. Os raios e trovões da grossa chuva subtropical paulistana completaram o cenário cinematográfico de um parcial apocalipse social.

Testemunhei várias prisões e enquadros. Essa hora da dispersão forçada é muito perigosa, policial surta e frequentemente ataca com covardia quem está saindo fora.

Li depois que as prisões “para averiguação” foram mais de 20, e que todos foram conduzidos por um ônibus até a delegacia, inclusive repórteres e fotógrafos. Li relatos de agressão e prisões ilegais na imprensa de esquerda.

Quase 21h, decidi caminhar para casa. Ainda chovia, e a partir de certa altura, o trânsito tinha sido restaurado: carros entrando no Shopping, estudantes correndo pelas calçadas, a vida da cidade cada vez mais indiferente aos acontecimentos que eu deixara para trás.

Notei, correndinho na calçada debaixo da camisa com que cobria minha cabeça, um sem-teto dentro de uma agência do banco Itaú. Esse homem negro de uns 30 anos dormia encolhido junto ao vidro da fachada, com seu blazer branco amarrotado, aclarado pela luz asséptica do ambiente.

Apressei o passo e fui para casa.

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