Quem pode nos livrar de Bolsonaro

É tolo olhar com ufanismo para a pesquisa do Ibope. Ela revela, junto com salto de Haddad, crescimento e consolidação da ameaça fascista. Para afastá-la, será preciso repolitizar as eleições – não insistir no jogo de torcidas


Por Antonio Martins | Imagem: Mario MafaiMussolini (1943)
A nova pesquisa Ibope, divulgada nesta terça-feira (18/9) fez surgir, entre a maior parte dos apoiadores do PT e o PCdoB, uma enorme onda de otimismo. Eles viram o crescimento notável de Fernando Haddad (de 8% das intenções de voto há uma semana para 19% agora) como a consolidação da ultrapassagem sobre Ciro Gomes (que permanece com 11%). Também rejubilaram-se com o que seria a confirmação do gênio de Lula – capaz de, do cárcere, de comandar as eleições. Dois anos depois do golpe, a vitória e a volta ao governo estariam à vista. Esta visão contém elementos de verdade – e no entanto é parcial, comodista e perigosa. Em especial, porque sugere um caminho (a aposta na polarização petismo x antipetismo) despolitizante, que amplia ao máximo o risco de um resultado devastador. Há, ainda, a chance de evitá-lo.
A ilusão com os números é mais grave porque, na aparência, eles confirmam o script desenhado pelos apoiadores de Haddad. Numa primeira etapa, que parece cumprida, o candidato de Lula viveria um grande salto, beneficiado pela transferência de votos de seu patrono. A partir de então, afastados os adversários no “campo progressista”, bastaria contar com a atração, por gravidade política, da imensa parcela da sociedade que se coloca, desde 2002, contra o domínio secular das elites. Restaria aos demais candidatos de esquerda e centro-esquerda, e ao setor democráticos que restam entre os eleitores de Marina e Alckmin, alinhar-se à hegemonia petista. O pulo de Haddad, graficamente expresso abaixo, é a expressão imagética desta ideia.

Contudo, o Ibope mostra também dois outros fatos imensamente relevantes, que talvez o entusiasmo ofusque. Primeiro: uma impressionante ampliação das chances de Bolsonaro no segundo turno. Há duas semanas (pesquisa de 4/9), o candidato fascista era praticamente um pária: surrado na disputa final por Ciro Gomes (44% x 33%), Marina (43% x 33%), Alckmin (41% x 32%), acima apenas de Fernando Haddad (36% x 37%). Em pouco tempo, as previsões se reverteram. Agora, Bolsonaro vence com folgas Marina (41% x 36%), empata com Alckmin (38% x 38%) e Haddad (40% x 40%) e perde apenas para Ciro, porém na margem de erro (40% x 41%).




A mudança dramática, expressa nos gráficos acima, sugere a normalização do fascismo. Está provavelmente relacionada ao atentado contra Bolsonaro, que o vitimizou. Porém, testemunha igualmente um fenômeno social e político muito mais largo. A extrema direita está se consolidando como tendência política principal do capitalismo, agora também no Brasil. As relações de Bolsonaro com o mercado financeiro são um sinal. Suas reuniões com banqueiros, investidores e corretoras tornaram-se constantes. Há semanas, a bolsa e o dólar oscilam a partir de suas intenções de voto, registrada nas pesquisas. A sobreposição é clara e incontroversa: a cada sinal de força do candidato fascista corresponde um impulso de otimosmo nos índices. Mas o Ibope revela que este movimento, restrito em condições normais às elites, tem profundidade social e eleitoral. O que era antes abjeto está se convertendo em normal. Votar numa chapa cujos integrantes defendem o estupro, e querem uma Constituição escrita por “notáveis” (evidentemente alinhados a suas ideias), já não é anátema – nem para um executivo financeiro, nem para um morador desempregado da periferia que optou, em falta de alternativas, por uberizar-se.
O segundo fato revelado pelo Ibope é ainda mais surpreendente, para as análises convencionais. A pesquisa mostra que, embora cada vez mais polarizadas, as eleições de 2018, continuam, essencialmente, despolitizadas. Há um nítido descolamento entre as tendências hoje majoritárias na sociedade e as opções pelos candidatos. Esta ruptura, fruto de uma disputa rasa (petismo x antipetismo), favorece a direita.
Do ponto de vista socieconômico, o golpe de 2016 está em frangalhos. Michel Temer, o político que o expressa, tem no máximo 5% de apoio popular. Uma série de enquetes demonstrou, nos últimos meses, a rejeição da sociedade a todas as políticas cruciais adotadas nos últimos – privatizações (70% contrários), contrarreformas Trabalhista (72%) e da Previdência (85%), terceirização selvagem. No entanto, repare: esta notável rebeldia não está expressa nas tendências eleitorais. Faça uma conta simples. Compare as intenções de votos nos candidatos favoráveis ao golpe (Bolsonaro, Alckmin, Amoedo, Álvaro Dias e Henrique Meirelles) com as destinadas a quem resiste (Haddad e Ciro). O resultado, visível no gráfico abaixo, é bastante estranho: 42% x 30%, a favor do golpe.

A discrepância é clara, mas é preciso enunciar seu significado com todas as letras: a polaridade petismo x antipetismo não expressa a tensão política real em curso na sociedade brasileira. Ao contrário: falseia-a; e – muito pior – abre um espaço inesperado para a direita, agora representada por sua fração extrema. Em termos concretos, significa que dezenas de milhões de brasileiros contrários à agenda de retrocessos imposta nos últimos dois anos estão sendo levados a defendê-la. Fazem-no porque, no momento, veem o PT como inimigo principal a ser batido.
É possível questionar o que leva a esta distorção. O massacre evidente que a midia promove contra o partido é um fator. A vocação hegemonista do PT – com a qual nos deparamos, a cada instante, todos os que queremos superar o capitalismo – não pode ser desconsiderada. No momento, o menos relevante é estabelecer a culpa. O que importa é enfrentar um problema crucial. Há enorme risco de termos, em vinte dias, eleições que, além de consolidarem o golpe de 2016, levarão a seu aprofundamento trágico.
A esta altura, quando faltam menos de três semanas para as eleições, uma questão parece clara. Fernando Haddad tornou-se o único candidato capaz de vencer Bolsonaro. Ficarão para outro tempo (sabe-se lá em que circunstâncias…) as avaliações sobre por quê chegamos a isso. Mas como vencer, com Haddad e nas condições que temos, a ameaça fascista? Há dois caminhos claramente definidos.
O primeiro é apostar em mais do mesmo. Implica insistir na polarização entre petismo x antipetismo. Inclui fechar-se a negociações com Ciro, esperando que seja obrigado, por gravidade, a apoiar Haddad no segundo turno. Envolve esperar no segundo turno, além das alianças já estabelecidas com o PMDB, as que previsíveis – com o PSDB e “os mercados”. Uma disputa de segundo turno, entre Haddad e Bolsonaro, será dificílima. Além da oligarquia financeira – e toda sua cadeia de influências –, o candidato fascista terá o previsível apoio da velha mídia, e metade do tempo de TV. Estará na reta final da convalescença. Estas circunstâncias anormais, e facilmente manipuláveis, exigirão uma frente vasta para combatê-lo. A que preço Fernando Henrique Cardoso ou José Serra e um ou outro banqueiro entrarão no barco de Haddad?
Há um caminho alternativo – mas exige pensar outra política. Significa desfazer a polarização que tem como centro o petismo. Implica trocá-la por outra, de fato politizadora, que colocará em confronto o que realmente importa. De um lado, os que nos opomos ao golpe e suas medidas.. De outro, os que querem aprofundá-lo. Esta polarização permite pensar no resgate dos direitos e num novo projeto de país. E extremamente viável, do ponto de vista eleitoral.
Porém, exige mexer um ponto crucial. O petismo (ao qual o PCdoB associa-se cada vez mais) estará disposto a abdicar de sua tentação hegemonista? Saberá enxergar que se tornou uma parte – e não o centro – da luta para superar o capitalismo brasileiro, em sua versão cada vez mais financeiraizada e submissa? Aceitará acenar a algo como uma “Geringonça Brasileira” – um governo de que participem Ciro, Boulos e o vasto leque de movimentos que resistem à agenda de retrocessos? Ou preferirá, como tantas vezes, postar-se ao trono e esperar a adesão por gravidade?
Os cenários e desafios de 2018 são certamente inéditos. Lula é um gênio político – mas não alguém capaz de enfrentar sozinho desafios desta monta. Saberemos, juntos, corresponder ao que temos pela frente?

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12 comentários para "Quem pode nos livrar de Bolsonaro"

  1. Carla Vigouroux disse:

    Não existe forma de vencer a “normalização do Fascismo” – que já é uma realidade em vários países da Europa e começa a dominar o mundo – sem promover a solidariedade com a diminuição do consumo e, por consequência, da desigualdade social.

    • Rê Cronópia disse:

      Há quem tenha entrado na defesa de posições fascistas sem ter consciência disso. Cabe a nós termos sabedoria nesse momento para mostrar de maneira racional e clara o que a opção pelo “coiso” realmente significa. Claro que a maioria não vai mudar, mas não podemos simplesmente desistir.

  2. Fábio disse:

    Não é por nada não, mas você acredita em pesquisa cujo candidato que é disparado o mais rejeitado empata com os outros em simulação de segundo turno? O Ibope é puxadinho da Globo e esses números foram trabalhados para não passar a ideia de que o coiso já é um candidato derrotado.

  3. Antonio Storel disse:

    Antonio Martins, acho que o problema do PT é justamente o contrário: a falta de vocação hegemonista. Hegemonia, se não me engano, é dominar mais pelo convencimento que pela força. O PT por sua militância, quadros e pela liderança de Lula, é a única agremiação realmente capaz de aglutinar a representação dos pobres na política em nível nacional. O discurso titubeante, ambíguo ou indefinido sobre temas concretos é que tem levado grandes parcelas do eleitorado a hesitar em apoiar o partido.

    • Frankito disse:

      Interessante e muito pertinente este contra-argumento levantado pelo Antonio Storel e também a clareza nos pontos fracos que remontam principalmente à cúpula petista (discurso titubeante, ambíguo e indefinido sobre temas concretos) em certas ocasiões e em relação a certos temas (por exemplo, a Lei Cancellier, o Referendo Revogatório e a retomada completa do Pré-Sal).
      Entretanto, é preciso considerar que a sucessão de governos de um mesmo agrupamento partidário talvez possa gerar certa exaustão (ou desgaste semântico) no imaginário social.
      Neste sentido, O que talvez o PT deva pensar em promover (ou já devesse ter feito após o terceiro mandato consecutivo) é algum grau de alternância entre essas forças (democrático-populares), até para contornar o ‘natural’ desgaste semântico no imaginário social (mas este é um aspecto que também requer melhor avaliação de quão é pertinente ou não).
      Contudo, para um país com 5 séculos sob o domínio de forças conservadoras, anti-populares e anti-sociais (este é um aspecto pouco evidenciado pelas forças de esquerda), concordo que seja, sim, mais do que necessário a construção de um contra-hegemonismo das forças democrático-populares, de esquerda, certamente catalizadas pelo PT.

  4. RONALDO RICHIERI disse:

    No que aponta, me parece que mesmo a esquerda ganhando, já perdemos! Metade do Brasil aderiu ao pensamento facista. Não há muito o que fazer no curto prazo, me parece.

  5. Ana Lagoa disse:

    Desculpe-me a ignorância, tenho visto algumas análises semelhantes, me passam a ideia de que a crise eleitoral (petismo x anti-petismo/PT x PSL ou o que seja) possa ser resolvida com o PT retirando-se do pleito. O artigo fala que não é hora de achar cupas, mas o que me passou foi isso – a culpa da impasse é do PT que teimou em ter um candidato em vez de apoiar o Ciro. Sinceramente… estou confusa…

  6. Geroncio Rocha disse:

    Achei derrotista e centrada no PT, a pauta deste número. As ruas estão fervilhando, companheiros.

  7. Orlando Roberto Neto disse:

    Antonio Martins mostra claramente que nosso problema é a despolitização dos brasileiros. Boa parte disto é causada trabalho concertado da mídia, mercado e do governo que demonizaram o governo do PT. Independente dos acertos na gestão petista, por exemplo, em relação aos avanços sociais que são “ocultados”. Todo a nossa memória do histórico do apartheid social, má distribuição de renda, falta de investimentos em educação e outras mazelas nacionais são abandonados e apagados de nossa memória coletiva. O fechamento do Museu de Ipiranga, o incêndio do Museu Nacional, baixo índice de leitura e dos conteúdos rasos e dicotômicos do conteúdo das mídias digitais são sintomáticos do culto a superficialidade de nossos cidadãos, mazela nacional estimulada pela elite em busca da construção de nossa versão tupiniquim da distopia de George Orwell.

  8. Fátima disse:

    O PT nos deu a Dilma, o Temer e pode nos dar Bolsonaro.

  9. Ricardo Cavalcanti-Schiel disse:

    O Antonio Martins incorre numa ilusão voluntarista um tanto grave.
    Sua sugestão de “desfazer a polarização” entre petismo e antipetismo não encontra sustentação em praticamente lugar algum no mundo dos sujeitos políticos hoje, salvo numa pequena minoria mais à esquerda.
    Manter a polarização é exatamente o interesse estratégico tanto da direita quanto do PT.
    Não é só o fascismo que está nos levando para o buraco. É o PT também.
    Não se trata de “culpabilizar”, apenas de reconhecer os responsáveis. Um deles é, sem nenhuma sombra de dúvida, a arrogância doentia do PT.

  10. chris6328 disse:

    Excelente análise. Os comentários também aprofundam e enriquecem, de forma crítica, o texto de Antonio Martins. Precisamos de mais reflexões como estas para sabermos como enfrentar, de forma eficiente, a ameaça fascista. Durante e depois das eleições.

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