O Fórum Social Mundial encontra a Primavera Árabe

Começa amanhã, em Túnis, 12ª edição do encontro que ajudou a superar “pensamento único”. Mas qual o sentido atual do FSM?

Jovens de Túnis viajam ao interior do país para debater importância do Fórum Social

Jovens de Túnis viajam ao interior do país para debater importância do Fórum Social

Jovens de Túnis viajam ao interior do país para debater importância do Fórum Social

Por Justin Hyatt, na IPS | Tradução: Gabriela Leite

A um dia do começo do Fórum Social Mundial (FSM), a sociedade civil de Túnis e sua capital se preparam para receber umas 50 mil pessoas procedentes de todo o mundo. Ainda restam questões a ser resolvidas antes do encontro, que acontecerá entre 26 e 30 deste mês. Entre elas, a segurança da cidade universitária onde serão desenvolvidas as atividades do FSM, um dos maiores motivos de preocupação dos organizadores e convidados.

Em 6 de fevereiro, foi assassinado o dirigente de esquerda Chokri Belaid em sua casa na capital da Tunísia, o que gerou instabilidade política, levou à renúncia do primeiro ministro, Hamadi Jebali, e desencadeou manifestações populares.

“Recebemos mensagens eletrônicas todos os dias de gente preocupada pela instabilidade política”, afirmou Haifa Nakib, encarregado da logística e da gestão do FSM. “Respondo que  ‘não acreditem em todo sensasionalismo da televisão’. Túnis não está em guerra e a situação é pacífica. Não há terrorismo aqui. Na verdade, o governo vai garantir segurança no local”, acrescenta ele.

As autoridades colaboram com a organização do fórum, e organizaram, inclusive, uma equipe de segurança em diversos lugares em torno do campus universitário, que os organizadores esperam que seja “discreta”. Cheima Ben Hamid, uma coordenadora voluntária, disse ao IPS que também haverá segurança dentro do campus. Além disso, tranquiliza dizendo que o governo “instruiu todos os ministérios a colaborar com a organização do FSM o máximo possível”.

O Fórum Social Mundial é o evento de maior visibilidade dos movimentos sociais do mundo para impulsionar um desenvolvimento alternativo à globalização dominante. Suas edições anuais começaram em 2001, na cidade de Porto Alegre. Para o encontro de Túnis, cerca de 4.500 organizações, de 85 países, já estão registradas. França e Tunísia são os países com mais grupos presentes — cerca de 300 de cada país. Brasil, Bélgica, Itália e Marrocos também terão uma importante presença, com umas 50 organizações cada. Dos Estados Unidos chegará a maior delegação norte-americana já presente num FSM (66 organizações registradas). Do Canadá também virá um grande contingente de participantes.

Entre os principais temas a serem tratados neste encontro destacam-se os direitos das mulheres, a juventude e a cultura. Um dos principais focos que concentram a atenção desta edição do FSM será a Primavera Árabe, mas outras questões, como a crise econômica global e a ecologia também estão na agenda.

Em uma demonstração de compromisso com o bom desenvolvimento dos trabalhos do FSM, as autoridades de migração facilitarão a participação de cidadãos de países com os quais Túnis não tem acordos diplomáticos, nem embaixada — como Peru ou Israel. Mesmo nestes casos, basta uma carta-convite para obter um visto.

Simultanetamente ao FSM, ocorrará a terceira edição do Fórum Mundial de Mídia Livre, que começará no dia 24 e prosseguirá depois, de forma paralela ao Fórum Social. Várias centenas de representantes da mídia participarão de oficinas e debates, além de fazerem a própria cobertura jornalística do FSM. Será criada, na cidade universitária, uma área para meios de comunicação livres, com esse fim.

Outro “fórum dentro do fórum” será o acampamento da juventude, que reunirá participantes de 18 a 30 anos e oferecerá um espaço para debates e festas. “Oferecemos aos jovens um espaço próprio. Nele, estão sendo organizadas, de modo autônomo, atividades de dia e à noite. Serão quatro dias seguidos, sem dormir”, disse ao IPS, entusiasmado, Khalil Teber, integrante da comissão de jovens e um dos organizadores deste fórum específico. “Nossa ideia é apresentar a juventude tunisiana ao mundo, assim como a revolução vista de sua perspectiva. Queremos a participação de todos os jovens tunisianos lá, sem nos importarmos com sua filiação política”, comenta.

Além de se realizar onde nasceu a Primavera Árabe, o FSM deste ano será significativo porque discutirá em detalhes o seu próprio futuro. Organizadores e participantes têm claro que outras mobilizações sociais, como o movimento Occupy, têm agora um papel transcendente. Muita gente suscita a necessidade de que o FSM evolua. Isso implica na integração de muitos movimentos e iniciativas no processo de avanço. “Se o conteúdo for efetivo e o fórum social se renovar nesta edição, poderá avançar”, opinou Ben Hamida.

A responsável por organizar a comunicação do FSM, Romdhane Ben Amor, destaca: “O realmente importante é o que ocorre depois do fórum. Devem emergir uma nova forma de pensar e uma nova visão de mundo”. “Se o FSM puder ajudar o movimento social tunisiano e mundial a consolidar suas forças e a encontrar novas formas de cooperação, então será um êxito”, conclui.

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