Das máquinas de consolo

Ela dadeira, muito, até a morte. Cuidadeira, carinhosa, trepadeira. A programação do macho é outra: ele não se move muito

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Ela dadeira, dando sempre até a morte. A cuidadeira, carinhosa, trepadeira. Já a programação do macho é outra: ele não se move muito

Por Fabiane M. Borges | Imagem: Gustaf Klimt, Três idades de mulher (1905)

Ela precisava de carinho, mas ele continuava com seu auto-centramento habitual, falando das suas misérias, das injustiças da vida, das esperanças remotas mas ainda existentes — que lhe aqueciam nos dias mais frios. E aquele dia era um dos mais frios de São Paulo. Ela se retorcia toda, se enroscava pela mesa, pelas patas da mesa, colocava a bunda mais próxima ainda da ponta da cadeira, para poder fazer carinho naquele cara. Ela queria que ele fizesse aquele gesto, porque ela estava carente, desolada, queria que ele se retorcesse e passasse delicadamente a mão no meio dos seus olhos, entre suas sobrancelhas, que insistisse nesse pequeno gesto até que aquela coisa ruim dentro dela se dissipasse, mas isso não seria possível sem um pedido explícito, que poderia vir talvez com algum tom de reclamação, seguido de um mal estar, que originaria uma briga e causaria uma sensação de frustração completa e cansaço. Então ela o acariciava sem pedir nada em troca.

Eram os gestos de amor programados nela desde criancinha. Ela foi educada para acariciar seu homem, abraçá-lo, lambê-lo, lhe fazer cafuné, passar a mão na sua testa, nos seus lábios, nas suas armaduras. Ela sabe o poder que tem quando lhe esfrega as têmporas e consola sua dor. Ela fica convocando com a mão aquele lugar onde ele se entrega, reconhece coisas que não conseguiria reconhecer em um ambiente mais hostil, mais gelado. Esse lugar poderia ser o restaurante, onde todo mundo senta e come, mas as mãos milagrosas das cuidadeiras são capazes de transformar qualquer lugar em outro lugar mais afável.

A cena clássica da programação de gênero. A mulher consoladora, ouvinte, companheira, a que dá carinho, a que se dobra pra se encaixar na posição do macho, da que destrambelha o caminhar, o sentar na cadeira, modifica suas posturas corporais para encontrar a face, o peito, o pé do seu macho, que além de ter nascido para ser amado, precisa mais que tudo, de consolo ininterrupto, e não foi educado pelas mídias, pelo cinema, pela literatura, pela História, pela família a ser recíproco nisso. Ela dadeira, dando sempre até a morte. A cuidadeira, carinhosa, trepadeira, a máquina de consolo.

A programação do macho é outra. Estão acostumados com uma cultura geral que lhes diz que precisam de cuidados especiais porque são eles que sofrem, eles que habitam os domínios do demasiado, são eles que chegam da guerra, eles chegam da aventura, eles chegam das confusões do mundo, e ali está a figura da mãe, da avó, da mulher, da parceira, que vai lhe abrir os braços e acariciar. Ele não se move muito, não se destrambelha tanto, não se atira em contorcionismo para alcançar o rosto dela, o pulso dela, o pescoço dela, a sobrancelha dela de forma gratuita. Esses gestos só são produzidos na intimidade do lar, da cama, do sexo. Daí se sobrepõe nesse desejo toda uma outra produção semiótica, comportamental, que a industria pornográfica sabe bem como conduzir. O macho na cama, do pau duro e grande, o comedor, fodedor, o que tem os buracos do seu corpo parcialmente fechados, o que não pode fazer certos gestos na cama, pois isso o faria bicha, brocha ou pior que tudo, mulherzinha.

Ela continua precisando de carinho enquanto pensa tudo isso, mas já se consola sozinha, não vai pedir mais, não vai reclamar mais, não vai colocar a mão dele em sua nuca e torcer os dedos dele para lhe ensinar a acariciar, imaginando que se soltar a mão, ele vai continuar lhe fazendo carinho por mais algum tempo, sem parar. Ela já sabe que não vai ter isso nem do pai, nem do filho, nem do marido, nem do amante, nem do irmão. A máquina de produção de cuidado caiu para lado do gênero dela, ela tem que fazer nos outros os carinhos que gostaria ela própria de receber.

O cuidado, o carinho, a carícia poderiam ser tratados como elemento fundamental da sociedade. Os trabalhos voltados para o cuidado deveriam ser os mais valorizados; mas ao contrário disso o que vemos é um consolo químico, farmacêutico, cada vez mais atrelado ao processo industrial, que se afasta radicalmente do chazinho carinhoso das mãos prontas para acarinhar. O carinho perde para o ansiolítico, o consolo é um comprimido, o cuidado se compra nas salas de massagem. E no casal hétero-normal, é ela que tá lá, bunda estreita na cadeira, lhe dando a carícia.

Saí do restaurante pensando que os homens poderiam aprender a ser mais carinhosos, fazer carinho, acariciar, consolar e cuidar.

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10 comentários para "Das máquinas de consolo"

  1. É um texto poético mas não gostei do seu conteúdo com uma visão machista das mulheres : “dadeiras.”..”.dadeiras ” é a pqp….pois tanto homens quanto mulheres desprezados e que continuam amando parceiros podres se contorcem humilhantemente por uma atenção canina, de subserviência vil, este é o lado ridículo e pobre do amor….Os tempos são outros e quem vai a luta hoje , sem armaduras para sustentar a familia é também a mulher e esta não admite mais um homem para lhe tirar as botas,, lhe estender a toalha , lhe fazer a comida , lhe dar sexo , afagos sem receber nada , o capitalismo e o feminismo engoliram a “amélia” de outrora embora muitos homens ainda sonhem com elas ….as mulheres não nascem mais programadas para servir ao homem , esta geração já não comporta tais valores….é preciso ter uma auto estima zero e uma perspectiva de futuro zerada a mulher ,que hoje ainda busca a auto realização na subserviência ao homem ….sei que ainda estão arraigadas na nossa sociedade conceitos antigos e medonhos que a mulher deveria jamais permitir como “um homem para me bancar”.Mas neste país , ,onde a mulher ainda é vista como objeto puramente sexual e “dadeira” você verá ainda meninas sonhando com isso como forma de conseguir liberdade e poder, longe da familia, quando na verdade serão escravas sexuais de machos que não hesitarão em espancá-las ,explorá-las e quando o fogo baixar e as contestações aparecerem, se.. aparecerem ….. se quedarão na humilhação…..Mulher que se ama e se sabe ,nunca será “dadeira” mulher que se reconhece como ser forte capaz , mulher que é guerreira e luta para ter voz e ser respeitada , não será dadeira , mulher que se valoriza e se impõe não como objeto puramente sexual, mas como um ser humano inteiro e não compartimentado em bunda , peito , , cabelo , boca, nunca será trepadeira , ser humano inteligente,que está no mundo para ser livre , compartilhar vida e sonhos e NÃO subserviência….seja no trabalho , seja no afeto .Mulher e homem juntos para se amarem , construirem juntos um futuro onde caberão integralmente os dois com suas carências e respeito mutuo … mulher “dadeira”é mulher escrava e homem que não se move é porque tem uma “dadeira” alimentando o seu machismo .

    • Luciana Fontes disse:

      Qdo Fabiane diz “dadeira”, ela remexe naquilo q levou ambos os sexos a identificarem a concessão feminina,no ato sexual, através da forma jocosa de dizer q a “mulher dá”. A autora não confirma q a mulher seja a dadeira pq dá ao abrir as pernas. Fabiane eufemiza, mais até, dá um outro significado à dadeira das dadeiras: somos dadeiras porque damos. Damos amor.
      Essa é a nossa função. Imposta por nós, feministas q buscam “imperar entre os sexos”? NÃO, porra. É a nossa função porque, assim como a própria Fabiane diz, as mídias, o cinema, a literatura e a História nos impuseram, como um dogma autoritário a ser seguid pela eternidade.

  2. Dadeira ,segundo o texto é a mulher que foi programada pela sociedade,familia enfim um sistema patriarcal para se doar até morrer seca e invisivel nas suas necessidades e carencias , uma máquina de consolo… a todos ,como mãe , mulher , amante … .só que inaceitavel…quem se dar tanto assim , não sobra nada para si.Precisamos nos conscientizar que este papel não nos interessa mais . Somos mulheres amorosas , consoladoras por nossa natureza ou por uma imposição cultural ? porque tambem conheço homens amorosos , que choram e consolam embora não tenham sido programados para isso …precisamos nos impor como seres humanos integrais, sem as máscaras que oferecem para nós e te garanto que é preciso muita doçura para não ser vista como um monstro….usar o nosso lado delicado para a construção do nosso espaço , dos nossos direitos , da nossa liberdade.

  3. gustavo disse:

    gostei bastante do texto. só achei que a imagem foi mal escolhida… o quadro chama “as três idades da mulher”, mas é sempre mostrado nesse recorte: apenas as mulheres jovem e bebê. é um recorte cruel: a velha é sempre excluída. é muito chocante ficar velha. ainda mais velha e pelada.
    (aliás, a mulher excluída e o motivo da exclusão têm até bastante a ver com o texto…)

  4. Carlos disse:

    Acho que a autora perdeu a change de fazer algum avanço e sair um pouco do lugar comum feminista. No trecho “eles que habitam os domínios do demasiado, são eles que chegam da guerra, eles chegam da aventura, eles chegam das confusões do mundo” ela até esbarra, sem querer, no que poderia ser o começo para vislumbra o real problema , mas sabe como é! A veia feminista bateu mais forte! Nesse trecho, ela deixa escapar que já percebe a realidade do homem, mas continua seu texto como se não soubesse. Talvez porque se ela começasse com esse “erro monstruoso” de pensar que homens e mulheres tem realidades diferentes poderia também chegar a conclusão que homens e mulheres são diferentes entre si, o que é um pecado no cenário ideológico da sociedade atual.
    Depois disso, ai sim, ele ia passa a entender a solução, que é desarma o homem, faze-lo baixar as armar, tirar as vestis ideológicas, machismos, feminismos, capitalismos, mercantilismos, comunismo, socialismos dentre outros. Com isso o homem se apresentaria, numa das forma mais básica, que é o Ser Humano. Nessa condição ele se apresentaria de forma mais simples, mais desnudado, como ele mesmo é , de fato.O importante aqui é que o homem perceba que ele tem que tirar a máscara, mas para chegar a essa condição a mulher também precisa entrar nesse processo, fazendo a mesma coisa, se desarmando e tirando as vestis ideológicas (ou seja a mulher vai precisar fazer sacrifícios também, é um processo duplo, um avança e puxa o outro, muitas não querem se dá esse trabalho).
    Apos essa fase mais dolorida, essa fase de corta na própria carne, viria a fase do dialogo e formação de consenso.
    Como homens e mulheres não falam a mesma língua inicialmente o dialogo seria truncado e será necessário paciência.
    A ultima fase do processo, a ideia de um acordo , de um consenso, pode ser fácil, mas pode também ser muito difícil. Homens e mulheres tem alguns interesses comuns mas tem outros tantos diferentes. Os interesses são diferentes mais não necessariamente conflituosos. O conflito que aparece é entre as pessoas pois muitas vezes uma não quer colaborar , somente querendo que seus interesses sejam atendidos( não sejamos ingênuos satisfazer interesses requer sacrifícios). Nesses casos, acontece um fenômeno interessante: as pessoas que deveriam ser parceiras se tornam inimigas numa guerra. O objetivo é fazer com que a outro desista de seus próprios interesses. Nessa guerra, uma das táticas das mulheres é desvalorização e demonização dos interesses dos homens. É recorrente como muitas mulheres feministas demonizam o interesses sexual do homem.
    Se em uma relação você não quer ajudar o outro a ter os interesses dele realizados é bom saber que nunca terá relações plenas pois pessoas insatisfeitas não dão bons parceiros, isso é fato.
    Mesmo nos casos em que o homem já tem o ideário feminista introjetado e se auto limita para que seu comportamento fique dentro do considerado adequado , no final das contas ele ficará insatisfeito com o relacionamento. Ele vai estar sempre buscando outros relacionamentos dando a desculpas de que o corpo da mulher não lhe atraia mais , que a mulher tava gordinha, que ele quer liberdade….

  5. Bem, mas existem homens que são carinhosos e sabem dar colo. por algum motivo estranho talvez a programação feminina a que a autora se refere, eles não são muito populares entre a maior parte das mulheres. O tipo durão sempre fez mais sucesso, sempre despertou mais amor. Os bonzinhos ficam como “melhores amigos”, aquele tipo Doutor Teodoro de Dona Flor, irreprochável mas que não inspira paixão. Nem é uma moleque grande sobre o qual se possa exercer instinto maternal. Não que as pessoas devam ser imaturas a ponto de buscar no parceiros figuras maternas e paternas, exceto naquelas horas inevitáveis de fragilidade que nos atingem a todos. Mas se alguns homens agem errado, isto não está no DNA de metade da Humanidade, mas na educação que recebem, muitas vezes de suas próprias mães que os mimam e os estragam para outras mulheres. Felizmente minha mãe é um “sargento” e nunca deu moleza pra filho,mas falo isto porque as mulheres tem, como mães (e tias, e irmãs, e professoras, e namoradas) de meninos e rapazes ,um poder educador contra o patriarcado e o machismo que raras vezes vejo ser usado. E se elas,em massa, começarem a desprezar o tipo Peter Pan auto-centrado em prol dos homens mais sensíveis – mesmo que sejam menos atraentes – por seleção natural a maior parte dos homens vai procurar mudar de paradigma. Hoje posso afirmar por experiência que um homem fora do padrão machista e que seja heterossexual tende a ficar sozinho, viver sozinho e morrer sozinho, porque termina sendo a segunda ou terceira opção de quem não conseguiu o companheiro que queria. Termina se anulando pra ter alguém ou tendo tantos relacionamentos problemáticos com gente que ninguém mais quis, que desiste de se relacionar. Isso não acontece só com as mulheres….

  6. Mani Alvarez disse:

    Gostei, Fabiane, seu texto tocou minhas entranhas. Nem machismo nem feminismo, não tenho pudores em reconhecer que sou uma ‘dadeira’ e que fiz feliz muita gente, mãe, pai, filhos, maridos, amantes, amigos, sempre dando o que no fundo, queria estar recebendo, é verdade. Mas isso não me impediu de ser uma guerreira e batalhadora. Isso não me fez boba nem ingênua. Engraçado ver a confusão dos sexos!!! Nos comentários… o masculino sempre tem um olhar diferente, venha do homem ou de uma mulher, pois que ele habita outros mundos e não conhece a profundidade do verbo dar. O feminino sim, venha ele de uma mulher ou de um homem, conhece as artes do cuidado ‘não-ansiolítico’, porque vem misturado com amor.

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