O fantasma de 1929 está vivo

Previsões de retomada rápida são fantasia. Perspectiva mais provável, agora, é de abismo semelhante ao dos anos 1930. É possível evitá-lo: mas serão necessárias medidas contrárias à lógica capitalista — como uma Renda Cidadã efetiva

Por Nouriel Roubini | Tradução: Simone Paz Hernández

O choque do COVID-19 na economia global tem sido bem mais rápido e bem mais grave do que o da crise financeira de 2008, e até do que o da Grande Depressão. Naqueles episódios anteriores, as bolsas de valores caíram 50% ou mais, os mercados de crédito congelaram, houve grandes falências, as taxas de desemprego foram para acima de 10% e o PIB contraiu a uma taxa de 10% ao ano ou mais. Mas tudo isso levou cerca de três anos para acontecer. Na crise atual, os resultados macroeconômicos e financeiros — tão terríveis quanto aqueles — se materializaram em três semanas.

No início deste mês, levou apenas 15 dias para o mercado de ações dos EUA despencar para o que é conhecido como “bear market” ou “bear territory” (o que ocorre quando há um declínio de 20% em relação ao seu pico) — o mais rápido declínio desse tipo. Agora, os mercados caíram 35%, os mercados de crédito subiram e os spreads de crédito (como os de títulos tóxicos) subiram para os níveis de 2008. Até as grandes instituições financeiras, como Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, esperam que o PIB dos EUA caia a uma taxa anualizada de 6% no primeiro trimestre e de 24% a 30% no segundo. O secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, alertou que a taxa de desemprego pode subir para mais de 20% (o dobro do nível de pico durante a crise de 2008).

Em outras palavras, todos os componentes da demanda agregada — consumo, gastos de capital, exportações — estão numa queda livre sem precedentes. Enquanto alguns analistas interesseiros antecipavam uma desaceleração em formato de “V” — que ocorre quando a produção cai acentuadamente por um trimestre e se recupera rapidamente no próximo — agora deve ficar claro que a crise do COVID-19 é algo completamente diferente. A contração em andamento não parece ter formato nem de V, nem de U, nem de L (uma desaceleração acentuada seguida de estagnação). Pelo contrário, parece um I: uma linha vertical que representa os mercados financeiros e a economia real despencando.

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Nem mesmo a Grande Depressão ou a II Guerra Mundial fizeram com que grande parte da atividade econômica fosse, literalmente, encerrada — como aconteceu com a China, Estados Unidos e Europa, agora. O melhor cenário seria uma desaceleração mais severa que a da crise de 2008 (em termos de produção global cumulativa reduzida), mas de duração mais breve, que permitisse um retorno ao crescimento positivo até o quarto trimestre deste ano. Nesse caso, os mercados começariam a se recuperar a partir do momento em que aparecesse a luz no final do túnel.

Mas esse possível melhor cenário requer várias condições. Primeiro, os EUA, a Europa e todas as outras economias seriamente afetadas, precisariam implementar medidas abrangentes de teste, rastreamento e tratamento do COVID-19; quarentenas severas e um lock-down em larga escala, do mesmo tipo que a China implementou. E, como ainda pode demorar uns 18 meses até que uma vacina seja desenvolvida e produzida em grande escala, antivirais e outras terapias complementares devem ser desenvolvidos de forma maciça.

Em segundo lugar, os criadores de políticas monetárias — que já fizeram em menos de um mês o que levaram três anos para fazer após a crise de 2008 — devem continuar quebrando a cabeça em busca de medidas não-convencionais para lidar com a crise. Isso significa: taxas de juros a zero ou negativas; uma flexibilização quantitativa; e a facilitação do crédito (compra de ativos privados) para apoiar bancos, não-bancos, fundos de mercado monetário e até grandes corporações (papel comercial e linhas de títulos corporativos). O Federal Reserve, nos EUA, expandiu suas linhas de swaps para além das fronteiras para atender à enorme escassez de liquidez do dólar nos mercados globais, mas agora precisamos de mais facilidades para incentivar os bancos a emprestare a pequenas e médias empresas menos líquidas, porém, solventes.

Em terceiro lugar, os governos precisam  implementar estímulos fiscais sólidos, inclusive através das chamadas “distribuição por helicóptero”, que consistem em desembolsos diretos, em dinheiro, para as famílias. Dado o tamanho do choque econômico, os déficits fiscais das economias avançadas irão aumentar de 2 a 3% do PIB para cerca de 10% ou mais. Os únicos países que têm balanços grandes e fortes o suficiente para impedir o colapso do setor privado são os países dominantes, ou centrais

Essas intervenções financiadas pelo déficit devem ser totalmente monetizadas. Se elas forem financiadas por meio da dívida pública padrão, as taxas de juros vão subir acentuadamente e a recuperação será sufocada no ninho. Dadas as circunstâncias, as intervenções propostas há tempos pelos economistas de esquerda, da escola da Teoria Monetária Moderna, incluindo a distribuição de dinheiro, precisam fazer parte do mainstream.

Infelizmente, para esse hipotético melhor cenário, a resposta da saúde pública das economias avançadas ficou muito aquém do necessário para conter a pandemia. O pacote de políticas fiscais atualmente em debate não é grande nem rápido o suficiente para criar as condições para uma recuperação oportuna. Com isso, o risco de uma nova Grande Depressão, pior que a original — uma Depressão Maior — aumenta a cada dia.

A menos que a pandemia acabe, as economias e os mercados do mundo inteiro continuarão sua queda livre. Mas mesmo se a pandemia for mais ou menos contida, pode ser que o crescimento geral não retome até o final de 2020. Afinal, até lá, é muito provável que outra temporada do vírus comece com novas mutações, e as intervenções terapêuticas nas quais muitos confiam e apostam podem se mostrar menos eficazes do que se esperava. Assim, as economias vão se contrair de novo e os mercados voltarão a cair.

Além disso, a resposta fiscal pode bater no muro se a monetização de déficits em massa começar a produzir inflação alta, especialmente se uma série de choques negativos de oferta relacionados ao vírus reduzirem o crescimento potencial. E, também, muitos países simplesmente não podem tomar esses empréstimos em suas próprias moedas. Quem socorrerá os governos, corporações, bancos e famílias dos mercados emergentes?

De qualquer forma, mesmo se a pandemia e as consequências econômicas estivessem sob controle, a economia global ainda poderia estar sujeita a vários riscos de “cisne branco” subsequentes. Com a eleição presidencial dos EUA se aproximando, a crise do COVID-19 dará lugar a novos conflitos entre o Ocidente e pelo menos quatro potências: China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, que já estão se utilizando de uma ciberguerra assimétrica para minar os EUA desde dentro. Os inevitáveis ataques cibernéticos ao processo eleitoral nos EUA podem levar a um resultado final com contestações e acusações de “manipulação”, além da possibilidade de violência e desordem civil.

Da mesma forma, como já argumentei anteriormente, os mercados estão subestimando enormemente o risco de uma guerra entre os EUA e o Irã ainda neste ano; bem como o fato da deterioração das relações entre a China e os EUA estar se acelerando, já que um país culpa o outro pela expansão do coronavírus. É provável que a atual crise acelere a fragmentação da economia global nos próximos meses e anos.

Essa trinca de riscos — pandemias incontroláveis, arsenais de política econômica insuficientes e cisnes brancos geopolíticos — será suficiente para levar a economia global a uma depressão persistente e a um colapso descontrolado do mercado financeiro. Após o choque de 2008, uma resposta forte (embora atrasada) salvou a economia global do abismo. Pode ser que não tenhamos tanta sorte dessa vez.

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